Isabel Damasceno, antiga presidente da Câmara Municipal de Leiria e atual vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCRDC) defendeu na Gala de Homenagem às Mulheres do Concelho de Porto de Mós que «a sociedade, seja a portuguesa ou outra qualquer, só será plenamente equilibrada e com características civilizacionais de progresso quando a mulher desempenhar integralmente o seu papel» nessa mesma sociedade e o “meio” mais importante para que possa «ter um tratamento igualitário e afirmação social», é a educação, sublinhou.

Para a antiga professora, quadro superior de uma grande empresa e autarca, «nós não podemos ter mulheres livres, independentes, autónomas e a afirmarem-se sem elas próprias terem feito um percurso importante no sistema de ensino que lhes permita ter a independência e toda a capacidade de afirmação social que é absolutamente imprescindível». Nessa medida, as mulheres devem apostar tudo numa «formação capaz e que lhes garanta em primeiro lugar autonomia e independência», defendeu mostrando-se convicta de que problemas como o da violência doméstica têm a ver, em parte, com o facto de «muitas mulheres não conseguirem dar um passo no sentido de se livrarem da pressão do agressor ou de quem as persegue porque não têm capacidade (nomeadamente financeira) e autonomia para, por exemplo, ficarem sozinhas e gerir a sua vida».

Numa altura em que as mulheres estão em maioria no ensino superior, verifica-se, contudo, que têm ainda muito pouca intervenção cívica, portanto se a educação é, na opinião da oradora convidada, o principal “passaporte” para atingirem o lugar que lhes cabe por direito próprio na sociedade, têm, também, que dar passos nesse sentido, no entanto, o que se verifica muitas vezes, afirma a antiga autarca, «é a própria mulher que se auto-exclui, que entende que não tem condições para participar, que isso é coisa a que os homens estão mais habilitados por terem mais experiência, ou que considera que não vai trazer valor acrescentado à atividade cívica».

«Quando eu fui, pela primeira vez, presidente da Câmara de Leiria havia cinco mulheres presidentes de câmara e hoje serão 32, o que ainda é manifestamente pouco no conjunto dos 308 municípios mas mesmo assim se olharmos para os últimos 20/30 anos verifica-se que houve uma evolução absolutamente extraordinária, apesar da nossa memória ter a tendência para lembrar apenas o que é negativo», afirmou, frisando que a participação cívica não se faz apenas por via da política e que as mulheres podem e devem participar «nas direções das coletividades, ranchos folclóricos, clubes desportivos» e em tantas outras instituições e movimentos da chamada sociedade civil.

Para Isabel Damasceno, a mulher portuguesa, à semelhança, aliás, dos portugueses em geral, tem tendência para se menorizar, para achar que é pior que os outros, quando, afinal, enquanto povo, lá fora somos vistos como muito bons apesar de cá dentro nos continuarmos a ver como desgraçadinhos. Assim, é esta mentalidade que entende que deve mudar e um dos primeiros passos é fazer com que o marido, o companheiro ou o namorado, entenda que tem tanto direito e tanta capacidade para participar nas coisas como ele.

A vice-presidente da CCDRC, fruto da sua própria experiência, não tem dúvidas de que se a mulher quiser pode participar ativamente na sociedade desde que seja «organizada e determinada» e isto não significa deixar de pensar na família. Pelo contrário, Damasceno, considera «imprescindível para o equilíbrio da mulher política, cidadã e de intervenção cívica», a dimensão familiar. «A mulher, tal como o homem, não é um ser humano completo, se não viver esta participação política e cívica no meio da família. O marido, a mulher, os filhos, os netos, tudo isto é fundamental para o seu equilíbrio mental e emocional», realçou, acrescentando que «não há nenhuma mulher que consiga desempenhar bem qualquer cargo, seja o mais simples ou o mais qualificado sem o equilíbrio emocional integral que só se consegue no seio da família».

ISIDRO BENTO | texto e foto