«A dar a cara pelo movimento regional». É assim que se apresenta Jaime Miguel, músico (e não somente rapper) da Tremoceira, freguesia das Pedreiras, «a representar 2480», que o rapper diz “vinte e quatro, oitenta”, numa alusão ao código postal local. E é isso que pretende fazer com Hiatus Vol.2, o seu segundo álbum a vir para “as ruas”, já no próximo dia 20 de março: trazer para Porto de Mós o «espírito bairrista». É um conceito desde sempre associado ao hip-hop, e foi no hip-hop que o jovem de 23 anos encontrou «a casa que o acolheu», e a que agora dedica boa parte do seu tempo.
Com este Vol.2, Jaime Miguel (nome artístico à la Kendrick Lamar, ou seja, os seus dois nomes próprios) dá continuidade aos projetos anteriores, em fases diferentes da sua música: da sonoridade lo-fi do EP Dentro Desta Casa (2021) aos «sons metálicos dos hi-hats e dos pratos» do Hiatus Vol.1 (2022), a este registo «um bocado mais energético, mais vibrante, mais verbal», que sairá nos meios digitais já no primeiro dia da Primavera. Para já, há quatro singles: Já É Dia (Healing); Dai-me Frutos; Problema de Juntas e o recente Apenas PESTE, ontem divulgado.
Segundo o artista, ambos os Hiatus surgem em «fases de transição de vida, trambolhões mesmo». Um literal hiato da sociedade, durante umas férias onde morou no carro, deu-lhe o mote para o título – e para o grafismo do próprio CD do volume 1, uma roda de um carro para colocar a girar na aparelhagem. Para este volume 2, Jaime Miguel quis manter o secretismo, mas garante que é «uma evolução» do primeiro. «A gente não é a mesma», explica, referenciando os vários artistas que trabalham com ele na parte gráfica, «amigos aqui da zona que na área deles estão a ajudar a criar este conceito». Por exemplo, nos videoclipes que estão por vir (e onde vamos também poder ver o Castelo de Porto de Mós, o moinho das Pedreiras e «outros spots representativos da região»), a assinatura é do juncalense Samuel Agapito.
Já a componente musical de Hiatus Vol.2. tem apenas uma colaboração (o produtor Cuca Rafa, na última faixa), tendo estado toda a engenharia de som a cargo de Jaime Miguel, «por necessidade», revela. «Eu não tenho quem me misture e quem me masterize o som, continuo a ser o gajo do quarto da aldeia», diz.
“Tudo depende da tua fome”
Fez o primeiro beat aos 14 anos no seu quarto (que ainda hoje é o seu estúdio), na Tremoceira; começou a escrever as primeiras letras no 10.º ano e lançou a primeira faixa aos 17, com um amigo. «Saiu [a faixa] e entretanto o projeto acabou, e eu vi que antes de pensar sequer em trabalhar com outras pessoas, tinha de trabalhar primeiro comigo», explica. Na sua casa física encontrou a “casa” do hip-hop, ao ouvir num leitor de mp3 não só Sam The Kid e Allen Halloween como – e principalmente – Dillaz, rapper da Madorna que mostrou a Jaime Miguel que também ele se «podia expressar pelo rap». Numa banda, é necessária uma guitarra e uma bateria. No hip-hop, um computador com software gratuito é suficiente: «É mais fácil nesse aspeto, porque não é precisa uma logística com outrem, é tudo contigo, tudo depende da tua gestão de tempo, da tua força de vontade, da tua garra, da tua fome», explica.
Quando terminou o ensino secundário, foi para o Superior. Em Lisboa, encontrou «um panorama gigante de artistas que existem e que não são ouvidos», rappers do dito underground. Foi também em Lisboa que gravou Hiatus Vol.1 e, como consequência, deu o primeiro concerto, a convite do DJ Algore, para o Lx Rap Clandestino. «Abri para o Mura», revela, orgulhoso. E desabafa: «Se essa [oportunidade] não tivesse acontecido, se calhar as outras também não».
Jaime Miguel fez sete atuações com o Vol.1, incluíndo no Texas Bar, em Leiria; na Stereogun, no âmbito do festival A Porta; e, em setembro passado, na sua terra natal. O resultado foi positivo, com público de todas as faixas etárias na plateia: «Foi super gratificante ter visto “putos” cá da zona no público», revela. E vai mais longe: «Ter visto crianças no meu público fez-me pensar, se eu, quando era mais novo e comecei a apaixonar-me pela musa que é o hip-hop, tivesse visto um gajo da minha zona a dar a cara, a fazer a sua dica, isso ter-me-ia inspirado “para cacete”», afirma.
Hiatus Vol.1 vendeu mais de 100 cópias dos 200 exemplares físicos editados, mas esse não é o objetivo principal de Jaime Miguel, que diz não ter pressa: «Vai para as pessoas certas». O Vol.2 vai ter entre 100 a 200 cópias físicas, já a partir da próxima segunda-feira, dia 20, uma data decidida por «facilidade e auto-pressão»: «Comecei a reparar que fevereiro passou num estalar de dedos, e há sempre aquela opção, começar a pensar numa data mais longa. Mas eu não quero pensar numa data mais longa, quero pensar no próximo projeto», explica.
Para já, tem alguns concertos confirmados, algumas bases instrumentais para um próximo disco e, no âmbito do bairrismo que quer associar à sua música, um «anseio»: «Ir tocar ao São Pedro, umas festas mesmo 2480», mas «sem pressa», conclui.
Foto | Inês Fernandes
Revisão | Catarina Correia Martins




