No passado dia 30 de janeiro, Mira de Aire acolheu mais uma edição das Janeiras, organizada pelos quarentões, desta vez de 1981. Claro que um dos eventos que mais reúne a população daquela vila e zonas envolventes, não pôde acontecer nos moldes habituais uma vez que, por força das medidas de combate à pandemia, seria impensável juntar tamanho aglomerado de gente. Além disso, por força do confinamento, não puderam sequer fazer-se as Janeiras em modo ambulante, com um camião palco e com os mirenses a assistir da janela, como chegou a estar planeado, no entanto os Quarentões de 81 (Q81) não quiseram deixar de assinalar o dia e festejá-lo à sua maneira, como nos conta Tomé Prior, um dos elementos da comissão.

«Lembrámo-nos de fazer um reunião de fotografias de acordo com as músicas que costumam ser cantadas nas Janeiras», começa por referir. Para isso, fizeram uma pesquisa e conseguiram «angariar muitas fotografias de todas as Janeiras que já se fizeram» e depois só tiveram de as encaixar em cada música consoante acharam adequado. A título de exemplo, Tomé Prior refere a música Berço de Luz que foi dedicada «inteiramente a fotografias que estão ligadas à Igreja, passagens de opas de outros anos e os grupos de quarentões desde o início até agora». Outro exemplo foi a música Mira Antiga em que além de «fotografias do antigamente», os Q81 conseguiram encontrar «nos arquivos da RTP, um mini-filme das ruas de Mira de Aire e da construção da atual Igreja Matriz». Este exercício foi feito para todas as oito músicas que constavam da brochura que integrava o kit das Janeiras e que, em tempos normais, seriam cantadas pelas ruas da vila. Os vídeos foram sendo publicados ao longo do dia 30 e, de acordo com Tomé Prior, a recetividade da população não podia ter sido melhor: «Fomos recebendo muitas chamadas e muitas mensagens e foi-nos dito que apesar de serem umas Janeiras diferentes, não deixaram de ser especiais. As Janeiras entraram pelas casas das pessoas», refere.

No domingo, 31, foi lançada ainda a “faixa extra”. «Entrámos em contacto com alguns emigrantes que nos são conhecidos, conseguimos falar com um grupo de 60 pessoas. Como é óbvio nem todas colaboraram por um motivo ou outro, algumas, por exemplo, não tinham muita rede em casa porque estão em Angola ou Moçambique, mas conseguimos um grupo simpático que cantasse o Hino da Mira e foi o nosso miminho extra», avança. Em todos os vídeos, o número de comentários e partilhas é significativo e entre os comentários há mensagens como: «Parabéns Q81 por todos os vídeos apresentados, pelo vosso esforço, coragem e vontade de fazer o melhor e em segurança, em tempo de pandemia. Muita emoção nesta tarde! Que Nossa Senhora do Amparo vos proteja! Muito obrigada»; «Parabéns pela vossa criatividade, numa apresentação das Janeiras que retratou o que é ser mirense» ou ainda «Estou comovida da cabeça aos pés. Lindo. Que união mirense linda, pelo mundo fora. Obrigada por eu e a minha mãe termos podido participar neste projeto lindo». Com o intuito de envolver a população, os Q81 lançaram ainda à população o desafio de, às 21 horas, irem às janelas de suas casas cantarem, em uníssono, o hino.

Em súmula, Tomé Prior diz que quiseram transmitir à população o que é, para o grupo, o conceito e o sentimento das Janeiras. «Acho que resultou e a população gostou, o que era o nosso intuito», aponta. Ser quarentão em tempo de pandemia «não é fácil», mas Tomé Prior acredita que «com criatividade e com muitos ajustes, tudo se consegue fazer». «Esta questão das redes sociais, do digital, ainda não tinha sido muito trabalhada em Mira de Aire e acho que estamos a ter a oportunidade e a aproveitá-la bem, visto que não conseguimos fazer de outra forma, mas que também não queremos deixar de assinalar o nosso ano. Estamos cá e vamos continuar a dar continuidade à tradição mirense», afirma, acrescentando que o feedback da população deixou a comissão «de coração cheio» e com a «sensação de missão cumprida».