Falar de João Domingues, o homem da Igreja, o apaixonado pela música, o antigo político, não é tarefa fácil, mas o percurso de vida deste leiriense de 79 anos de idade, que há mais de 50 anos escolheu Porto de Mós para aqui se fixar e constituir família, bem o justifica. Dele, de facto, muito se pode dizer, mas se tivéssemos de o resumir numa frase diríamos que é alguém que sempre revelou grande espírito de entrega ao “outro” e à sociedade, como o atesta quem o conhece bem. É também assim, sem vaidade, que gosta de olhar para si próprio. «Ir ao encontro e estar ao serviço de quem pudesse necessitar», foi sempre a sua postura ao longo da vida, garante.

Olhando para trás, João Domingues identifica não uma mas duas grandes vocações: o sacerdócio e a medicina. Curiosamente, não seguiu nenhuma delas e foi entre números, como gestor de empresas, que fez profissão. Mesmo assim, teve a oportunidade de “experimentar” ambas.

Educado numa família com forte ligação à Igreja [Católica] desde cedo sentiu a vocação de ser padre. Entrou para o seminário com 11 anos e lá ficou sete. Entretanto, as descobertas e os dilemas próprios da adolescência foram minando as convicções do jovem João e, por último, o interesse crescente pela menina «bonita e com um sorriso vivo e contagiante» que ia assistir às suas peças de teatro [e com a qual, mais tarde, viria a casar] fez o resto. A fé, apesar de grande, não era suficiente para o fazer abraçar o sacerdócio e foi isso mesmo que explicou ao reitor e ao próprio bispo. Irredutível, entendeu que a «perturbação na vocação» era, de facto, razão mais do que suficiente para sair do seminário.

Saiu mas nem por um dia abandonou a Igreja. Dava catequese aos mais novos «desde os 12 anos» e assim continuou interrompendo apenas «aos 60 e poucos» depois de ter enfrentado «dois AVC e um enfarte do miocárdio». Tem feito de tudo um pouco, mas é na área da música, em especial por trás do teclado de um órgão ou a cantar, que mais útil se sente. Não se tornou padre, muito menos médico, mas depois de cumprido o serviço militar foi mobilizado para a Guiné e aí, entre militares e civis, teve a oportunidade de pôr em prática a formação de dois anos na área da Saúde, obtida em Portugal.

A música, como já se disse, é uma das suas grandes paixões. Começou a estudar solfejo na filarmónica da Maceira com, apenas, cinco anos, mas nunca chegou a tocar. Os conhecimentos musicais seriam desenvolvidos já no Seminário tendo como grande mestre o padre António de Oliveira Gregório, durante décadas organista titular do Santuário de Fátima. Desses tempos, um dos episódios que recorda com orgulho é aquele em que por ausência forçada do padre, teve de ser ele a tocar o órgão do Santuário. A recomendação veio do próprio mestre e aceite, a medo, pelo reitor mas a “prova de fogo” correu bem. Tinha apenas 12 anos e nesse dia não coube em si de contente.

Além de tocar, compõe, e em casa guarda inúmeras peças. De antigo aluno passou muitas vezes a mestre de crianças e jovens porque, defende, «o conhecimento só faz sentido se for partilhado».

Integra desde a primeira hora o Coral Vila Forte e é também aí que se sente muito bem, confessa.

“Fazer aquilo que sei fazer para bem de todos foi a minha preocupação”

De João Domingues muitos conhecem o homem sorridente e afável que toca órgão na igreja e que integra o “Vila Forte” mas é bem mais do que isso. Hoje, a sua atividade cívica está reduzida ao mínimo, mas tem atrás de si todo um passado de dedicação à causa pública. Antigo presidente da Juventude Operária Católica (JOC), foi um dos “cristãos progressistas” que integrou o grupo fundador da CGTP, tendo sido o «autor da declaração de princípios e dos seus primeiros estatutos». Insatisfeito com o peso que o Partido Comunista estava a assumir, saiu e ajudou a fundar vários sindicatos e a própria UGT. É também o 18.º fundador do PPD/PSD e nessa qualidade privou «de muito perto» com Francisco Sá Carneiro, «uma pessoa extraordinária por quem todos tinham enorme admiração e respeito» e que «muito tinha a dar ao país». No «atentado de Camarate perdeu-se o homem mais puro e mais participativo da história portuguesa do século XX», frisa.

Enquanto responsável da JOC e depois já no partido, uma das coisas que mais o preocupavam era o atraso da sociedade portuguesa. «Eu vinha de Gestão, conhecia a situação do país e tinha a noção do nosso horrível atraso e sentia a necessidade de fazer alguma coisa para ajudar a mudar», justifica. A militância enquanto político, autarca e elemento ativo do movimento associativo, foi a forma que encontrou de o fazer.

Foi vereador na Câmara de Porto de Mós «no tempo em que estava quase tudo por fazer mas em que todos trabalhavam de mãos dadas, fossem do PPD, do PC, do PS ou do CDS». Deputado à Assembleia da República por convite de Sá Carneiro renovou o mandato, já no tempo da AD, com Pinto Balsemão, um dos seus «grandes amigos». Aquando dos 40 anos do PSD de Porto de Mós, Marcelo Rebelo de Sousa, outro dos seus companheiros de jornada, evocou, precisamente, «o muito que João Domingues fez pelo partido a nível local, regional e nacional».

Da política não guarda só amizades e uma das pessoas com quem se incompatibilizou foi Cavaco Silva de quem diz ter sido “o pior primeiro-ministro que tivemos». Foram colegas no agora Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), mas o jovem de Boliqueime «arrogante e senhor do seu nariz» não caiu nas suas boas graças. João Domingues conta que mais tarde tentou «alertar Sá Carneiro de que Cavaco Silva não seria a pessoa mais indicada para ministro das Finanças» mas sem sucesso. A simpatia entre os dois nunca foi muita, mas a separação definitiva aconteceu no mítico congresso da Figueira da Foz em que foi claro em mostrar a discordância relativamente à candidatura de Cavaco Silva tendo em conta «o que conhecia dele e por não achar que fosse a altura oportuna».

Anos mais tarde, João Domingues viveu aquele que terá sido o pior momento da sua vida. Enquanto sócio de uma empresa responsável pela elaboração de candidaturas ao Fundo Social Europeu, foi detido, julgado e condenado por desvio de fundos europeus. Condenado por um tribunal, absolvido por outros onde foi julgado pelo mesmo crime, esteve mesmo assim quatro anos e meio preso. Sempre se disse «totalmente inocente» e vítima de uma «condenação política», instigada, no seu entender, por alguém que, segundo ele, quando chegou ao Governo «se armou em fiscal dos fundos europeus apesar de não perceber nada do assunto».

João Domingues não nega que foram tempos difíceis, até por se sentir injustiçado, mas como sempre procurou «adaptar-se às circunstâncias e vivê-las com fé, apoiando-se, ainda, nos valores e na prática cristã». Bastante pior, considera, foi para a esposa e os seus dois filhos, privados do marido e do pai, a viver dificuldades financeiras por haver menos um ordenado a entrar em casa e a sofrer o habitual apontar do dedo a quem tem um familiar preso.

Na prisão, garante, foi igual a si próprio: fez amizade, desde reclusos a guardas prisionais, ajudou o diretor da prisão (de quem já era amigo) «a acabar o curso de gestão» e colaborou nas missas como sacristão e, claro, organista. Aqui, como em plena liberdade, procurou ver sempre nos momentos de sofrimento, a esperança e a hipótese de crescer interiormente.

Foto | Isidro Bento