Aos 24 anos, Maria Ricardina Vieira está prestes a viver aquela que, pela complexidade e dimensão, será, seguramente, e até agora, uma das maiores experiências da sua vida. A jovem natural de Serro Ventoso partiu na passada quinta-feira, dia 6 de janeiro, «de coração e mente aberta», rumo à Ilha de Bubaque (Guiné-Bissau) para uma missão de voluntariado, onde irá permanecer quase três meses.

É nessa ilha com praias de um azul estonteante e de areia branca, com pouco mais de seis mil habitantes, que será voluntária juntamente com a congregação das Irmãs Missionárias da Consolata. «Vou estar numa escola a ajudar a ensinar o Português e vou dar apoio no Centro de Recolha Nutricional, uma espécie de centro de saúde/hospital, para ajudar em algumas matérias como a desnutrição, os medicamentos…», contou a jovem a O Portomosense, dias antes de embarcar para a África Ocidental.

Na bagagem a jovem leva material escolar recolhido pelos «meninos da catequese» de Serro Ventoso, além de «máscaras de proteção, álcool gel, autotestes para deteção de COVID-19, medicamentos e leite em pó», fornecidos pela Junta de Freguesia, para entregar à população.

Antes de embarcar para a missão, a jovem quis ouvir os conselhos de quem já passou por experiência idêntica e além de lhe ter sido dito que aproveitasse tanto quanto pudesse, foi também aconselhada a «conhecer e a inclui-se na cultura deles». Uma cultura que, reconhece, é «completamente diferente» da portuguesa. «Quero aprender e integrar-me com eles», frisa. Apesar da sua experiência ainda estar praticamente a começar a vontade é de já permanecer mais tempo. «Só de as ouvir falar, fiquei com vontade de ficar lá um ano», confessa, visivelmente entusiasmada.

“A vontade de ir é maior do que o medo da COVID”

Embora esteja ciente dos perigos que poderá atravessar, nomeadamente uma infeção por COVID-19, Maria Ricardina Vieira mostra-se confiante e segura da decisão que tomou e não deixa que esses receios lhe toldem o entusiasmo de abraçar esta aventura. «A minha vontade de ir é maior do que o medo da COVID-19», sublinha a jovem, esclarecendo que com isto não quer dizer que esteja a desvalorizar a doença. «É óbvio que tenho medo, mas tanto tenho da COVID-19 como da malária ou de outra doença qualquer que possa apanhar», acrescenta.

Maria Ricardina Vieira é licenciada em Educação Social desde 2020, mas até agora ainda não conseguiu emprego na área. Aquele que à primeira vista poderia parecer um fator negativo na sua vida, nestas circunstâncias acabou, contudo, por se revelar em algo bastante positivo. «Só vou para a missão porque estou desempregada. Há males que vêm por bem», considera. Esse foi, aliás, outro dos motivos que a fez avançar neste momento com a experiência de voluntariado. «Há dois anos que estamos a lidar com a COVID e é óbvio que vou ter cuidado mas eu sinto que tenho de ir agora porque creio que no fim de arranjar trabalho já não vou conseguir tanto tempo ou aproveitar da mesma maneira», explica.

Antes de partir, os últimos dias foram passados junto da família e amigos que, se tudo correr como planeado, só voltará a ver no dia 23 de março. «A minha avó está farta de chorar. Apesar de lhe custar muito que eu vá embora, porque gosta muito de mim e quer que esteja sempre ao pé dela, ela apoia-me e já percebeu que eu tenho que voar um bocadinho», afirma. A somar aos pedidos intermináveis de envio de fotografias do local onde irá viver nos próximos tempos, há ainda outros que quem fica cá deseja ver concretizados. «Já me fizeram encomendas para trazer caju. Dizem que lá é mesmo só apanhar do cajueiro e comer», conta, entre risos.

Um sonho de criança concretizado em adulta

Desde criança que tinha o sonho de realizar uma missão do género mas só agora vai poder, finalmente, concretizar esse sonho e tudo graças ao apoio do presidente da Junta de Freguesia de Serro Ventoso, Carlos Cordeiro, que tratou de toda a logística, incluindo o pagamento do bilhete de avião. «Foi quem me ajudou a tratar de tudo e agradeço-lhe muito por isso. Se não fosse ele não ia ter a oportunidade de ir», sublinha.

A ideia, contam, surgiu há cerca de um ano durante uma conversa informal entre ambos, na qual Maria Ricardina confessou a vontade de fazer voluntariado. Ao início, Carlos Cordeiro achou estranho essa determinação e admite que ficou no «vai não vai». Decidiu, então, falar com o pai que lhe confirmou aquilo que a jovem já tinha dito: Queria mesmo embarcar nessa aventura. Essa ideia acabou por ser posta de parte, devido à dimensão da pandemia naquela altura, mas há cerca de dois meses, sabendo que as coisas já estavam mais ou menos serenadas, Carlos Cordeiro começou a preparar a viagem da jovem. «Vai ser uma experiência enriquecedora», considera o autarca.

Quarta experiência como voluntária

Embora esta não seja a primeira experiência de voluntariado da jovem, será a de maior dimensão. Ao longo da sua licenciatura, Maria Ricardina Vieira teve oportunidade de fazer voluntariado em duas instituições, ambas com sede em Leiria: A OASIS – Organização de Apoio e Solidariedade para a Integração Social, onde trabalhou com pessoas com deficiência e a InPulsar – Associação para o Desenvolvimento Comunitário, onde contactou com sem-abrigo e toxicodependentes. Enquanto fez Eramus em Espanha, a jovem colaborou também com a Cruz Vermelha Espanhola e voltou a interagir com sem-abrigo.