O programa Domingão da SIC lançou o repto e o Lar da Santa Casa da Misericórdia de Porto de Mós aceitou: recriar o famoso anúncio da marca de chocolates Ferrero Rocher, com o qual estamos familiarizados e em que o “Ambrósio satisfaz o desejo de requinte”. O vídeo foi partilhado durante a emissão de um dos programas da estação televisiva, que convidou mais lares, e também na página do lar, recebendo um feedback muito positivo. Quirina Ladeiro é educadora social no lar há mais de quatro anos e tem a animação como uma das suas tarefas, foi uma das responsáveis por realizar este vídeo. Já conhece bem muitos dos utentes com quem trabalha, o que não conhecia era a pandemia de COVID-19 e todas as adaptações que ia trazer ao seu trabalho diário. Partimos deste vídeo para falar do trabalho, hoje mais exigente, de animação nos lares.

Apesar da pandemia ter afetado e muito o dia-a-dia dos idosos, a verdade é que a educadora encontrou neles uma força superior: «Sinto que são dotados de uma resiliência incrível, têm fortes mecanismos para ultrapassar o que estamos a viver». Quirina Ladeiro acredita que esta atitude se explica «com o avançar da idade» que traz «um espírito de luta» que não «se tem antes». «Acho também que é a história de vida de cada um deles, porque por trás de uma pessoa com as suas fragilidades, a viver um momento difícil, há uma história de vida e mecanismos que cada um deles tem para conseguir ultrapassar», acrescenta.

O papel da animação e os objetivos

Se a idade, por vezes, traz a tranquilidade para viver as adversidades de uma forma mais serena, também o papel de uma animadora pode ser preponderante. Quirina Ladeiro tem os objetivos bem definidos: «Quero fazê-los felizes, redescobrir as histórias de vida, mostrar-lhes que são fundamentais no processo em que estão a viver». «A vida não acaba no lar», defende a educadora, que acredita que existe uma ideia pré-concebida que a «ida para um lar» implica um desligar completo com o exterior: «Quero que eles sintam que estão inseridos, que não é por virem para o lar que cortam os laços com o exterior. Que sintam que continuam a ser os protagonistas da sua história de vida e do seu próprio envelhecimento».

Para conseguir atingir estas metas, o primeiro passo, explica, é «fazer um questionário de satisfação» que permite conhecer aquilo «que cada um gosta» e adaptar as atividades às necessidades de cada utente. «É muito fácil eu fazer uma atividade que, se não for devidamente adaptada à condição física e cognitiva do utente, o faça sentir fragilizado. O objetivo é o contrário, mostrar à pessoa que tem competências», frisa. Depois, é necessário fazer um plano, ao qual Quirina gosta de chamar «projeto», com as atividades que pretende realizar, de diferentes âmbitos. Algumas já existiam antes da COVID-19 e foram adaptadas, sendo feitas de forma individual ou reduzindo muito o número de participantes, outras nasceram mesmo por causa da pandemia. Este reajuste impôs mudanças substanciais e uma delas é o prolongamento das atividades por mais tempo, uma vez que Quirina Ladeiro tem de se desmultiplicar individualmente por cada utente.

São muitas e diversas as atividades promovidas no lar, vão desde a estimulação sensorial à física, ao desfolhar de recordações através de cheiros e texturas que «acabam por ser muito intimistas», às «cantorias». O «projeto» chama-se Alargar Sorrisos e deste, vamos destacar duas iniciativas que nasceram graças à pandemia. O «grande sucesso» é a Loja da Quicas e Quirina, que lhe dá nome, explica como surgiu a ideia: «Muitos tinham uma vida ativa, iam a casa e compravam os seus mimos apesar de viverem cá. Uma vez que não existem saídas, quero que treinem as atividades instrumentais da vida diária como a troca de dinheiro, que vejam e cheirem os produtos, que os identifiquem de forma exata». Os produtos são reais, mas as transações não acontecem de facto, muitas das embalagens que usou para montar esta loja foram dadas por amigos que ao verem a iniciativa no Facebook quiseram contribuir. A educadora frisa que é mesmo importante para si usar imagens reais, «por exemplo de um champô», porque não quer «infantilizar». «Eles não são crianças, não gosto quando se compara um idoso a uma criança» e por isso o dinheiro é também real. Esta atividade é importante, acredita, não só para criar «um espaço de diálogo», como para manter a mente ativa: «Muitos deles têm capacidade cognitiva e reforçam, para os demenciados é uma forma de eles fazerem treino cognitivo».

Vamos dar um giro é o nome da outra atividade que veio tentar diminuir o impacto do isolamento. «Uma vez que o idoso não pode sair das instalações, pegamos na carrinha e fazemos com eles o tal “passeio higiénico”. Tentamos ir às ruas onde eles vivem para verem a sua casa, o quintal, os vizinhos, sempre dentro da carrinha», explica Quirina. Aqui a principal meta é «criar-lhes equilíbrio emocional», de forma a que não se sintam tão afastados da sua vida normal.