As consequências económicas futuras da pandemia de COVID-19 estão no topo das preocupações de todos, desde o Governo e empresas até à população em geral. Uma das medidas de apoio para o setor empresarial, lançada pelo poder central, precisamente para minimizar o impacto deste vírus, foi o lay-off, que pretendia, acima de tudo, assegurar os postos de trabalho, numa altura em que, com a atividade parada, várias empresas não têm fonte de rendimento. Mas em que consiste exatamente o lay-off? Pode ser parcial ou total e «consiste na redução temporária dos períodos normais de trabalho ou suspensão dos contratos de trabalho por iniciativa das empresas, durante um determinado tempo», segundo informação disponibilizada na página da Segurança Social. Este regime apenas pode ser aplicado a empresas que consigam justificar a necessidade deste apoio.

Em período de lay-off os trabalhadores têm direito a «receber da entidade empregadora uma compensação retributiva mensal igual a dois terços do seu salário normal ilíquido, com garantia de um valor mínimo igual à remuneração mínima mensal garantida ou o valor da sua remuneração quando inferior à remuneração mínima mensal garantida (por exemplo nas situações de trabalho a tempo parcial) e um valor máximo igual a três vezes a remuneração mínima mensal garantida». Em caso de suspensão de contrato o empregador paga 30% e a Segurança Social paga 70% do ordenado.

A vantagem de viver no campo

Isabel Barraca nasceu e trabalha no concelho de Porto de Mós, embora resida na Batalha. Desde 1 de abril que a sua empresa entrou em lay-off total, numa área, a estética, onde sem clientes não há forma de continuar o negócio. Trabalha num salão de cabeleireira que sentia «estar numa situação equilibrada financeiramente», embora ressalve que, como colaboradora, não tem a noção total das contas da empresa. No entanto, Isabel Barraca reconhece que era impossível não tendo clientes, «que são 100% da faturação», conseguir «pagar as contas como água e luz, manter o espaço aberto e manter a equipa» sem qualquer apoio. A cabeleireira reforça que o pós-pandemia pode trazer «alguma quebra» no serviço porque «as pessoas não vão sair logo todas de casa» e por isso «o lay-off é também importante para que a empresa aguente estes esforços extra sem ir abaixo».

Casada e mãe de dois filhos, um de 7 anos e outro de 4, Isabel Barraca admite que é necessária alguma contenção e “ginástica” para aguentar este período sem pôr em causa a estabilidade financeira familiar. O facto de «viver neste meio», de campo, é um ponto a favor, acredita: «No espaço onde estamos há coisas que não temos de comprar. Eu tenho quintal, os meus pais e os meus sogros têm animais, como galinhas e coelhos e acabamos por conseguir poupar um bocado». O marido continua a trabalhar e o ordenado dele vai para as despesas «normais e obrigatórias de uma casa», essa é, aliás, a política do casal. «Como eu não estou a trabalhar, o ordenado dele é para suportar as despesas normais de uma casa [empréstimo, água, luz, gás, etc]. Nós já pensamos sempre assim, mesmo quando adquirimos alguma coisa pensamos sempre que o ordenado de um, caso aconteça alguma coisa ao outro, tem de chegar para a manutenção das coisas essenciais do dia-a-dia», refere.

Também nas compras do supermercado não teve que haver adaptação, frisa Isabel Barraca, porque sempre comprou apenas o indispensável: «Mesmo antes desta situação da COVID-19 eu já ia sempre ao supermercado com a lista do que precisava. Eu não vou com a ideia de comprar quatro ou cinco embalagens só porque um produto está em promoção. E só vou às compras quando preciso mesmo». Isabel Barraca acredita que a forma como o seu agregado familiar se tem organizado vai permitir «não ficar comprometida» com nenhum dos gastos mensais, apesar do corte no orçamento. Ainda assim, admite a cabeleireira, permanecer muitos meses nesta situação não é suportável para qualquer família.

O fundo de maneio essencial para esta situação

Há 23 anos que Márcio Rafael trabalha na mesma empresa de mobiliário, localizada em Amiais de Cima. É natural de Alcanena mas vive no concelho de Porto de Mós, mais precisamente em São Bento. Devido à pandemia também viu a sua empresa a optar pelo regime de lay-off total, apesar de até esta altura estar numa situação regular, sem qualquer tipo de problema financeiro, pelo menos, garante o carpinteiro, «recebeu sempre certinho» em todos estes anos de trabalho.

Também neste caso, Márcio Rafael achou natural a opção da empresa, porque todos os clientes para quem trabalhavam fecharam portas: «Nós somos uma empresa que vende para clientes e depois são eles que fazem revenda dos nossos produtos, se eles fecharam portas porque não conseguem vender, automaticamente nós também não conseguimos vender», explica.

No caso de Márcio Rafael a situação podia complicar-se porque a sua mulher trabalha na mesma empresa e por isso está também em lay-off o que leva a que o casal esteja a tentar «minimizar os custos». Ainda assim, admite que «devido à situação da empresa, que nunca se atrasou nos pagamentos», o casal acaba por ter um fundo de maneio para aguentar este corte orçamental «pelo menos mais três meses», mas «mais do que isso» torna-se complicado. Do agregado familiar fazem ainda parte duas filhas, uma de 21 anos e que já está a trabalhar, numa empresa que se manteve ao serviço, e uma de 17 anos, ainda estudante.

Nas compras adquirem apenas «o essencial do dia-a-dia» sendo que o lay-off trouxe também mais despesas de alimentação. «A empresa tinha refeitório e nós comíamos lá. Desde que estamos nesta situação temos de pensar no almoço todos os dias, parecendo que não faz uma grande diferença, porque não nos preocupamos apenas com o jantar», frisa. Para já o casal não pensa pedir apoios para o pagamento de prestações que o Governo e outras entidades estão a disponibilizar, mas Márcio Rafael salienta que se a situação perdurar não será fácil, para si e para empresa que tem «à volta de mil empregados».