A necessidade de imortalizar lendas, histórias, dizeres, cânticos e expressões particulares da aldeia da Torre, no concelho da Batalha, nem sempre acessíveis às gerações mais novas, levou a que um grupo de cinco jovens, a maior parte residente nessa povoação, decidisse criar o projeto Aldeia Pintada. A ideia começou a ganhar força em contexto familiar, mas foi a pandemia que acabou por dar o empurrão decisivo, com o grupo a ter tempo de fermentar o projeto. «Muitas vezes em almoços e jantares de família íamos ouvindo histórias e lendas da Torre e fomos percebendo que havia histórias muito particulares. Percebemos que essas histórias estavam muito presentes na memória dos mais velhos, mas que se calhar muitas das pessoas, das gerações mais novas não tinham acesso a todo este património», começa por contar a O Portomosense, Diogo Monteiro, de 32 anos.

Na altura em que se começou a ponderar o projeto, recorda o jovem, o único objetivo era o de criar um arquivo, fosse ele escrito ou em vídeo. No entanto, rapidamente perceberam que seria «interessante» registar essas memórias, passando-as para as paredes da aldeia, através de pinturas murais. «Achamos que faz sentido porque as próprias pessoas da aldeia ao passarem pelas ruas, acabam por se cruzar e identificam-se com o que está nas pinturas. Sabem que, por exemplo, estes cantares são das resineiras ou dos poetas aqui da terra», justifica. Já têm cinco pinturas finalizadas, uma das quais junto ao túnel que permite a passagem pedonal debaixo do Itinerário Complementar 9 e que além da pintura oferece um acessório muito especial a quem por aí passar. «Pintámos o tunel e pendurámos um chocalho no centro do túnel e as pessoas, ao passarem, podem tocar o chocalho, e o som propaga-se, fazendo eco», descreve Diogo Monteiro, acrescentando que esse túnel é, atualmente, muito utilizado como passagem por pessoas que queiram visitar o Baloiço da Barrosinha, no cimo da Torre da Magueixa, e que foi recentemente montado.

As primeiras pinturas começaram a ganhar cor nas paredes de familiares, após, claro, uma autorização prévia. Contudo, agora o grupo tem levado a arte um pouco por toda a aldeia, inclusive a casas desabitadas e cujas fachadas se encontrem «degradadas». Neste momento, está empenhado em terminar a sexta pintura. Apesar de reconhecer que o projeto tem tido bastante sucesso, Diogo Monteiro admite que no início o entusiasmo em levar este projeto a bom porto acabou por ser minado por algum medo por não saberem qual seria a reação das pessoas ao verem as paredes da sua aldeia, pintadas. «Acabámos por ficar surpreendidos porque enquanto estávamos a pintar, as pessoas passavam, paravam e ficavam admiradas», conta. Muitas foram mais longe e depois de terem conhecimento do projeto acabaram também elas a ajudar na pintura de murais e que posteriormente têm o cuidado de fazer «a sua manutenção».

Sempre com o objetivo de ir cada vez mais longe, este grupo de cinco jovens quer que uma parte do registo seja feito em vídeo e até já começou a gravar, contudo, a pandemia veio atrasar os planos. «A COVID tem-nos prejudicado um bocado porque a ideia era conseguir juntar as pessoas e filmá-las. Mas já temos alguns registos que conseguimos fazer», diz. Apesar de a maior parte das pinturas concebidas até ao momento estar ligada ou a tradições ou a lendas, Diogo Monteiro esclarece que podem existir intervenções cuja única finalidade seja apenas «dar cor e vida» à aldeia: «Não tem que ser sempre a pegar nestas memórias e nestas tradições, a ideia também é podermo-nos desapegar disso». Paralelemente, um dos objetivos dos jovens para o futuro é, ainda, poder trabalhar cantares populares, gravá-los e «dar-lhes uma roupagem mais contemporânea».

Com Marília Bernardino