Neste conjunto de conteúdos especiais que preparámos para celebrar Porto de Mós, seria inevitável destacar portomosenses que levem o nome da nossa terra além fronteiras, e que se destacam pelo seu mérito, quer a nível profissional, pessoal ou noutra qualquer área. É neste contexto que surgem dois nomes: Tiago Venda Morgado e Pedro Crespo, cujas histórias vos contamos já de seguida.

Criar um negócio redesenhando um produto que todos conhecem

Tiago Venda Morgado, natural de Porto de Mós, é CEO e co-fundador – a par com João Rosa, também portomosense – da start-up EGG Electronics. Como diz o povo, “a necessidade aguça o engenho” e foi esse o motor para a criação da ideia: «Aquelas fichas triplas que todos temos em casa, debaixo da secretária e atrás do sofá, são comuns e estão no mercado há 30 anos sem sofrerem qualquer tipo de modificação. Então achámos necessário fazer um upgrade ao equipamento, uma vez que temos muitos mais gadgets, muito mais equipamentos tecnológicos e muitos mais dispositivos que precisam de carregamento», explica o arquiteto de formação. De acordo com Tiago Venda Morgado, «em termos tecnológicos» o produto criado, a que deram o nome EGG Power Station, «não tem nada de extraordinário», destaca-se, sim, pelo design de produto», que o tornou «mais apetecível, mais atual e com uma versatilidade muito maior». No ano passado a empresa lançou a EGG Power Station Pro, «já com outro tipo de capacidades», estando a empresa presente no mercado com ambos os equipamentos.

A empresa, com sede em Porto de Mós, ao começar, contou com o investimento da EDP e da Portugal Ventures, e arrancou no mercado português «mais a nível corporativo», só mais tarde entrou no mercado B2C – Business to Consumer, ou seja, a vender diretamente a clientes individuais em lojas conhecidas com este tipo de equipamento. Depois disto, deu um pulo «para o nível europeu», estando atualmente «à venda em todos os países europeus e presentes na Amazon a nível da Europa», explica o CEO. Um dos sonhos e objetivos passa por chegar ao mercado americano. «Começámos à procura de parceiros, a trabalhar o produto que já está completamente desenvolvido», refere, explicando que, em fevereiro, se encontrava em Nova Iorque para «implementar o produto». Porém a pandemia obrigou a que Tiago Venda Morgado regressasse a Portugal e deixasse em pausa esta vontade de expansão.

O fundador considera que a adesão do público se deve a, «pela primeira vez, haver emoção na compra de uma ficha tripla». «As pessoas podem escolher o padrão e em vez de estar no chão, está na secretária, é uma coisa que as pessoas não têm vergonha de ter à mostra, pelo contrário… Então o público começou a vir até nós», conta, acrescentando que muitas das compras «são para presentes de aniversário ou coisas do género».

É com orgulho que Tiago Venda Morgado revela que «nas costas do produto, vá para onde for, em qualquer parte do mundo, está lá a morada da empresa, em Porto de Mós. Todas as pessoas que o recebem, levam Porto de Mós lá escrito». O arquiteto diz que, para si, «Porto de Mós representa aquele sentimento de casa» e acredita que «será sempre assim».

Moçambique e Pedro Crespo: uma relação bi-lateral

Em 2010, Pedro Crespo, engenheiro mecânico de formação e com histórico na área da direção de obras, «um engenheiro de campo», viu-se sem oportunidades num país em que «o setor da construção estava todo a parar». A solução que encontrou foi a emigração. Rumou à Líbia, como representante de uma empresa. Cerca de um ano depois, dá-se a morte do líder Muammar Kadafi que originou uma guerra civil no país. Pedro Crespo foi obrigado a sair e Moçambique entrou, então, na sua vida. Ainda que com um ano de interregno em que o trabalho o levou ao Malawi, desde 2011 que este país é a sua casa. Cerca de quatro anos depois de se ter mudado para Maputo, o contrato acabou e a empresa para que trabalhava terminou as suas operações em África, regressando de vez a Portugal. Foi aí que Pedro Crespo tomou «a grande decisão que fez a diferença»: escolheu ficar em Maputo, por sua “conta e risco”. «Estabeleci-me por conta própria, como profissional independente, comecei à procura de trabalhos onde pudesse colaborar. Desde essa fase já lá vão seis anos, fiz prestação de serviços para os Ministérios da Educação e da Saúde, fui fiscal de obras de um instituto e de um hospital distrital, depois fui convidado e participei como um dos inspetores técnicos das obras da ponte Maputo-Katembe, uma ponte muito conhecida aqui e depois disso seguiram-se outros contratos», revela.

Por força do trabalho que vai tendo, já viveu em distintas zonas do país e, em todas elas, procura envolver-se com a comunidade local. Desde jovem, ainda em São Jorge ou nos Casais de Baixo, as terras onde viveu ou tem ligação, que a participação cívica faz parte de si. Em tom de brincadeira, diz que é sócio do Grupo Recreativo da Corredoura desde que se lembra «de ser gente» e que as suas fotos de bebé são na sede do clube. Viver em África não alterou esse espírito e, por isso, de diferentes formas procura fazer a diferença. No Malawi, por exemplo, criou, num orfanato, um núcleo de carpintaria e construção, em que trabalhou voluntariamente durante «seis ou sete meses».

Depois, em Fingoé (capital de distrito de Marávia, na província de Tete), juntou-se a um grupo católico, fazendo trabalhos de requalificação na igreja ou até reparações de estradas. «Eu tenho tido a sorte de ir tendo alguns contratos que me põem em boas posições, mas conheço muito bem a realidade das outras pessoas», afirma, e é por isso que tenta ajudar sempre que pode: «Não podemos alimentar toda a gente, isso é impossível, ajuda-se um, ajuda-se outro e essa pequena ajuda, para mim pode ser uma coisa mínima, mas para eles faz uma diferença enorme», considera.
No ano passado, após a passagem do ciclone Idai, Pedro Crespo sentiu-se impelido a ajudar. Depois de se ter envolvido num movimento local, em Maputo, de recolha de alimentos, acabou por contactar diversas ONG para se voluntariar para ir para a Beira, uma das cidades afetadas. Recebeu então uma proposta da Oikos, uma ONG portuguesa, para ser coordenador de operações. Durante três meses teve à sua responsabilidade toda a logística que envolvia a criação de uma equipa, a receção das ajudas internacionais e depois a distribuição dos bens. «Mexe connosco e abana-nos. Não é só ver pessoas carenciadas e pobres, isso entendíamos. O problema é que há pessoas que se aproveitam da desgraça do vizinho para roubar. Essa luta, em termos emocionais, é muito mais exigente do que o trabalho em si», revela.

«O país é imenso. Havia pessoas que faziam 200 metros, mas havia outras que faziam 15 quilómetros a pé para recolher as ajudas. Se o que recebem for cinco litros de óleo e 30 quilos de arroz, têm que sair com aquilo às costas. Achamos isso uma violência brutal, mas esse não é o drama. O drama é que podem ser assaltados no caminho, e muitos eram», conta. De acordo com Pedro Crespo, uma experiência como esta «é uma situação de tensão do princípio ao fim», porém acredita que faz a diferença na vida das comunidades locais. Não sabe quanto tempo mais vai ficar em Moçambique, terra que já é um pouco sua, mas o seu coração continua a ser portomosense. «Sinto muito orgulho na nossa terra, o nosso castelo anda sempre comigo. É típico dos portomosenses andarem com o castelo atrás, para não perderem as torres de vista, como costumamos dizer», afirma, acrescentando que se sente um embaixador do concelho e que tudo o que faz, faz bem «de propósito para as pessoas saberem que foi um português e uma pessoa de Porto de Mós que fez aquilo».