Este ano, as comemorações do 25 de Abril, em Porto de Mós, tiveram o seu arranque na apresentação do livro Quotidianos da Revolução: o 25 de Abril no concelho de Porto de Mós. O livro é escrito em co-autoria pelo historiador portomosense Kevin Soares; pelo também portomosense João Pedro Feteira, licenciado e mestre em História de Arte; Maria João Laranjeiro, gestora de ciência, natural do Alqueidão da Serra; e Marco António Cosme, mestre em História. Contou ainda com a colaboração de vários funcionários camarários, nomeadamente da área da Cultura e do Arquivo Municipal, com principal destaque para a arquivista Fernanda Sousa, que é referida como co-autora de três capítulos do livro. A obra que, além da parte teórica, conta ainda com o testemunho de 22 portomosenses, tem prefácio do ex-ministro Luís Amado.

Kevin Soares tomou da palavra para explicar o conteúdo do livro, que surgiu a convite da Câmara Municipal, em particular do vereador da Cultura, Eduardo Amaral. «Em janeiro de 2019», aquando de uma reunião para preparação de uma outra atividade, «foi-me perguntado se eu tinha alguma ideia para comemorar o 25 de abril. O objetivo inicial era preparar uma exposição que, na altura foi para o Café Milá», começa por explicar o historiador. A sua resposta foi pronta: «Mais importante do que pensar num resultado, ainda que fosse importante, era encontrar um projeto onde pessoas que fossem representantes das várias paisagens humanas, naturais e na diversidade típica do nosso concelho, pudessem vir e contar as suas histórias. Pareceu-me que isto era um imperativo de consciência até, para a comunidade que somos hoje e para as gerações futuras», afirma. Soube depois, aquando da exposição, em abril desse mesmo ano, que a sua ideia viria a dar um livro, no qual seriam trabalhados os vários «lados da revolução», no período compreendido entre 25 de abril de 1974 e dezembro de 1976, a «altura das primeiras eleições autárquicas».

Tudo começou, então, com a recolha de testemunhos. «O que queríamos não era a História do 25 de Abril, a Câmara não tinha contratado um juiz que agora ia dizer quem eram os bons e os maus, queríamos ouvir testemunhos que nos trouxessem a realidade do nosso concelho e deste acontecimento importante, na primeira pessoa», salienta.

O livro e a sua divisão

A obra, que deveria ser trazida a público em abril do ano passado não fosse a pandemia, tem como «eixo prioritário a necessidade de preservar memória, de sermos agentes ativos desta conservação». A primeira parte, mais teórica, conta com quatro capítulos. O primeiro, da autoria de Kevin Soares e Fernanda Sousa, serve para «caracterizar o concelho» à época, fator que o historiador considera preponderante para que, quem não viveu a revolução, entenda o panorama concelhio naquela altura e, assim, consiga compreender melhor os factos. O segundo tem a mão de João Pedro Feteira e versa sobre arquitetura. O autor escolheu «três edifícios que foram construídos durante o Estado Novo» e procurou «chamar a atenção para as suas particularidades», deixando, no final, a porta aberta para «uma eventual classificação municipal futura». Este foi um contributo que Kevin Soares considerou «de toda a importância num concelho que não tem quase estudos sobre História de Arte».

No terceiro capítulo volta a entrar em campo Kevin Soares, acompanhado de Fernanda Sousa, para «demonstrar os momentos mais importantes da atividade política em Porto de Mós, naquele período», destacando «dois momentos da memória coletiva que estavam particularmente vivos»: «A destruição da associação 1.º de Maio, que todos recordam e de que todos falaram nas suas entrevistas. E, por outro lado, uma célebre cena de pancadaria que houve em torno da hipótese de Licínio Moreira da Silva continuar a ser, ou não, presidente da Câmara», refere. «Destacámos estes momentos, mas enquadrámo-los numa atividade política mais vasta», remata. O quarto capítulo é uma cronologia conjunta, de Maria João Laranjeiro, Marco António Cosme e Fernanda Sousa que, com base em jornais regionais (A Voz do Domingo e O Mensageiro), jornais nacionais (A Capital e a República) e na correspondência da Câmara Municipal, estabeleceram uma linha do tempo no que à política concelhia diz respeito.

A segunda parte traz então partes dos 22 testemunhos de portomosenses. «Este livro conseguiu juntar pessoas que participaram na Revolução nas suas múltiplas dimensões, os que estavam em movimentos mais próximos da revolução e do espírito revolucionário; mas também aqueles que estavam mais próximos de movimentos conservadores e que, na altura, fizeram alguma resistência», revela Kevin Soares, que se diz «alegre» por, 47 anos depois, ser possível ter «uma obra em que estas vozes convivem com bastante tranquilidade».

Celebrar Abril

A cerimónia, que teve lugar a 24 de abril no Cineteatro, foi aberta pela presidente da Assembleia Municipal, Clarisse Louro, que recordou que esta comemoração versa sobre «um acontecimento ímpar na nossa história» e que os historiadores afirmam que é preciso recuar ao período entre 1383 e 1385 para «encontrar um outro marco de tamanho envolvimento e empolgamento popular». A autarca acrescentou ainda que, nos tempos que hoje vivemos, «sabe bem recordar estes verdadeiros fenómenos de participação coletiva que fizeram um povo, uma nação e uma pátria».

Jorge Vala encerrou a sessão lembrando que «faz sentido continuar a recordar e a assinalar o 25 de Abril, até porque entre os mais novos são muitos os que não entendem o significado histórico da data». Depois de afirmar que em Porto de Mós «se cumpriu Abril», referiu que «agora passa a documentar-se Abril», com o relato «dos 22 portomosenses que nos transmitem uma perspetiva única desse tempo», a que se junta «o conhecimento científico, a descrição histórica e os documentos de arquivo, numa compilação que perpetuará os acontecimentos antes e depois do 25 de Abril no concelho».

Foi ainda aberta a exposição com o mesmo nome do livro, na Praça Arménio Marques, e que vai estar patente até ao dia 23 de maio. Para evitar aglomerações não houve inauguração formal, tendo apenas Kevin Soares explicado que é composta por partes do livro e parte da exposição que já esteve no Café Milá.

Com Isidro Bento