A guerra na Ucrânia e o papel deste conflito na construção de uma nova ordem mundial foi o mote para a quarta conferência – a primeira presencial – inserida no ciclo de debates SeDesTalkings – Conversas à Beira do Lis desenvolvido pela Sedes – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social. O portomosense Luís Amado, ex-ministro da Defesa Nacional e de Estado e dos Negócios Estrangeiros, foi o protagonista da sessão que teve lugar no passado dia 28 de maio no Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota (CIBA), em São Jorge. A conferência contou ainda com a presença de Álvaro Beleza, presidente da Sedes, Alexandre Patrício Gouveia, presidente da Fundação Batalha de Aljubarrota, Paulo Carreira da Silva e Nádia Piazza, ambos membros da Sedes de Leiria.

Ao longo de mais de duas horas, Luís Amado explicou o impacto que a guerra, que caracteriza como «um dos piores episódios da história», poderá ter na redefinição da geoestratégia global e começou por fazer uma reflexão: «A última coisa que a humanidade precisava era de uma crise destas dimensões», disse, lembrando o facto de o mundo ainda estar a recuperar dos efeitos nefastos causados pela pandemia. Com uma vasta experiência nas lides políticas, o portomosense revelou que o conflito a que hoje assistimos já era previsível há 20 anos por «quem estava em atividade com responsabilidades políticas na cena internacional», como foi o seu caso. «Em 2007, era eu responsável por um pequeno país periférico que tem acesso a muito menos informação que qualquer potência europeia e, para mim, era claro que se o caminho continuasse a ser ligado numa dinâmica displicente, teríamos, seguramente, uma dificuldade extrema em dominar a besta do lado de lá da antiga cortina de ferro», recorda Luís Amado, que na altura era ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros. Por isso, critica a «falta de realismo» na forma como o mundo tem sido «gerido» nos últimos tempos. «Esta é uma guerra que podia e devia ter sido evitada. Devíamos ter prevenido que isto acontecesse», sublinha. «A ponderação devia de ter sido feita há 20 anos e agora estamos a pagar essa displicência», acrescenta, alertando para a possibilidade de «dentro de pouco tempo esta guerra estar na esfera social e passar para a esfera política».

Perante uma guerra que dura há mais de três meses, Luís Amado não tem dúvidas de que a Europa nunca esteve numa «situação tão perigosa» como agora e apela à ação dos dirigentes europeus: «É preciso que comecem a pensar na paz e em negociar. Se esta guerra se prolonga para lá do inverno podemos esperar tempos de grandes dificuldades». E se tal acontecer não tem dúvidas de que o sistema europeu «será abalado». «É preciso pará-la rapidamente», alerta.

Como será o mundo depois da guerra?

Se há quem acredite que é possível negociar com a Rússia para que, de alguma forma, se possa colocar um ponto final à guerra na Ucrânia, Luís Amado é perentório quanto a essa possibilidade: «Esta guerra não tem solução definitiva se o regime de Moscovo se mantiver, ou seja, se não houver uma queda do regime, será sempre difícil de negociar. Enquanto Putin estiver no Kremlin não haverá acordo de paz». O antigo ministro lembra que a Rússia tem «o maior arsenal nuclear do mundo» e considera «muito difícil» conseguir aplicar as sanções de que tanto se fala. «A única solução que eu vejo se o regime em Moscovo não cair nos próximos meses é que haja, de facto, uma capacidade no terreno de realizar a repartição da Ucrânia, oriental e ocidental, duas realidades eslavas mas com genéticas diferentes, onde a tensão civilizacional sempre se manifestou», acrescenta. Ainda assim, e tendo em conta os desenvolvimentos de alguns episódios da história recente, acredita que a Rússia irá sofrer as consequências da invasão à Ucrânia. «Os erros estratégicos pagam-se caro e a Rússia vai pagar este a longo prazo», frisa.

Luís Amado expôs ainda a sua perspetiva sobre como será o mundo depois desta guerra, cuja ordem será «muito diferente» daquela que até então conhecíamos e que, aliás, já começa a fazer-se notar. «Para surpresa de muitos, voltamos a ver os Estados Unidos da América (EUA) com uma função hegemónica», afirma, garantindo que a ordem existente antes do eclodir da guerra «demorará muito tempo» até que seja novamente estabelecida. Por outro lado, o antigo ministro antevê que no futuro o mundo será «bipolar do ponto de vista ideológico e multipolar em termos de funcionalidade económica face às interdependências geradas pela globalização nos últimos 30 anos»: «O sistema está a orientar-se para uma lógica bipolar entre dois blocos ideológicos», assegura. Já na reta final da conferência, o antigo ministro fez ainda referência ao papel dos EUA e da Ásia e partilhou algumas das suas visões sobre como será o mundo nestas parte do mundo daqui para a frente. «Vamos ter crises muito sérias nas zonas mais desfavorecidas e teremos dificuldades em gerir as tensões», antecipa.

Foto | Jéssica Silva