O despertar começou mais cedo do que o habitual, não fosse esse um dos requisitos de um pastor. Estávamos prontos para viver a experiência Pastor por um Dia, ou melhor, por umas horas. A iniciativa, em Serro Ventoso, começou há um mês e meio e desde então já mais de uma centena de pessoas acordaram com o mesmo propósito. O grupo era pequeno – além do pastor, Odair Jefferson – participaram na experiência, Rui Cordeiro, presidente da associação Vertigem promotora desta atividade (servindo também de guia) e mais três mulheres de nacionalidade americana, mas a viver há vários anos em Portugal. Mochilas às costas, sapatilhas nos pés, prontos para fazer um percurso de quatro quilómetros.

O “protocolo” está definido, antes de partir promove-se o contacto entre uma cria e os participantes, um momento que habitualmente “faz as delícias” das crianças. Depois dos cajados distribuídos pelo grupo, o pastor começa a deixar o rebanho sair da cerca e faz-se ao percurso. Só depois de os animais estarem todos cá fora é que os participantes podem seguir o rebanho. Numa manhã de sol e de temperatura acima do que fevereiro nos devia oferecer, as subidas da serra pareceram ainda mais exigentes e uma lição todos tiram: há que ter uma condição física razoável para ser pastor. Um dos comentários que mais se ouvia entre as participantes é o facto desta ser uma experiência imersiva na Natureza. Os animais são difíceis de acompanhar, é preciso andar a ritmo acelerado, pelo menos até chegar aos locais com mais largueza, onde ficam mais minutos a pastar, um dos quais a Faixa de Gestão de Combustível, a “grande obra” deste rebanho.

Cabras previnem incêndios

A «sensibilização para o projeto de Prevenção e Defesa da Floresta contra Incêndios» é precisamente um dos motes para esta iniciativa, explica Rui Cordeiro. As cabras “chegaram” a Serro Ventoso em 2016 com este objetivo claro de prevenção, uma ideia da Junta de Freguesia à qual a Vertigem se associou, por ter também uma vertente ecológica. No entanto, apesar deste não ser um projeto com o «intuito de dar lucro», a manutenção destes animais acarreta despesas e era necessário encontrar soluções para a gestão financeira. Inicialmente, essa gestão estava a ser conseguida de duas formas: «Através da venda de composto como fertilizante e depois pedindo aos supermercados locais para disponibilizarem restos de legumes e frutas para alimentar os animais». Mais tarde chegou-se à conclusão de que não era suficiente. «Tínhamos de criar qualquer coisa diferente e foi assim que surgiu o Pastor por um dia que está a ter uma adesão fantástica», refere Rui Cordeiro.

Até ao momento a maior percentagem das pessoas vem da cidade, nomeadamente de Lisboa e também de algumas zonas do distrito de Leiria. São, na sua maioria, «famílias com crianças, pais na casa dos 40 ou 50 anos». Curiosamente, «não têm existido muitos participantes do concelho de Porto de Mós» e para isto pode contribuir, acredita Rui Cordeiro, o facto de já «estarem familiarizados com a serra». «As pessoas adoram e querem sempre voltar, já recebemos uma média de 25 pessoas por domingo, não podemos ter mais gente. Isto é um turismo para grupos pequenos», frisa. A iniciativa é habitualmente promovida aos domingos de manhã, mas quando os grupos não têm disponibilidade, se for possível, adapta-se data e horário.

«Pôr Serro Ventoso no mapa» foi uma das consequências positivas no entender do presidente da Junta, Carlos Cordeiro, que já resultou desta iniciativa que tem tido amplo destaque nos meios de comunicação. Esta não é, contudo, a mais importante: «O mais importante é aproximarmos as pessoas do mundo rural e da realidade dos animais e isto é para todos, já cá tivemos todas as gerações», salienta. A juntar a isto, o autarca lembra de novo a questão da sensibilização, «para que as pessoas vejam a importância da pastorícia na prevenção dos fogos. Faz-se a prevenção através de máquinas, com gasto de combustível e poluição e esta é uma prevenção altamente ecológica e que ainda traz valor acrescentado», sublinha.

Ao longo dos quatro quilómetros o grupo vai seguindo o rebanho e vendo de que forma o pastor vai mantendo os animais perto uns dos outros. O seu papel é trazer de novo ao rebanho os que se afastam e aqui o seu cajado é um aliado para “manter a ordem”. Pernas um pouco mais doridas, mas com a mente mais tranquila, volta-se de novo ao ponto de partida mas a experiência ainda não acabou. Agora é a vez de degustar alguns produtos feitos a partir do que é endógeno: licores, queijos, mel e doces. Aqui, asseguramos, todos os paladares foram conquistados.

Pastor… por acaso

Fomos em busca de uma experiência única, mas encontrámos um pastor também ele com uma história de vida que nos parece digna de destaque. Odair Jefferson é pastor apenas há sete meses, antes disso o contacto que tinha tido com animais (tirando os de companhia) tinha sido praticamente nulo. Foi através de uma empresa de trabalho temporário que foi chamado para este emprego, até agora uma experiência que está «a amar». «É uma experiência nova, já adquiri muitos conhecimentos tanto no trabalho em concreto como na Natureza», explica.

Está em Portugal há dois anos, vindo do Brasil, onde trabalhava na área da reciclagem e onde fazia animação, com trampolins, algodão doce e este tipo de diversões. Passava por uma depressão quando decidiu que precisava de sair do seu país e o que era para ser uma estada de apenas um mês, prolongou-se. Homem de fé, diz que até agora Deus só lhe «colocou trabalhos bons pela frente» e garante que nunca o estigma de que «os estrangeiros só fazem o que os portugueses não querem» se aplicou a si.

Um dos aspetos que mais gosta neste trabalho é a liberdade de tempo. Quando soube que ia ser pastor, a primeira coisa que fez foi «comprar uma guitarra» para alimentar a sua paixão pela música, porque enquanto vai acompanhado o rebanho, vai-se deixando inspirar pela Natureza. O outro aspeto que o conquistou é a relação que se vai estabelecendo com os animais. «Ganhamos amor aos animais, até porque acompanhamos o parto de cada um», frisa. Os primeiros partos que viu na vida foram precisamente enquanto pastor e garante: «O primeiro nunca se esquece».

Ainda quer estar muitos anos em Portugal e nesta profissão mas pensa um dia voltar ao Brasil. Quando voltar não quer deixar morrer o que aqui aprendeu. «Quero ter condições de morar num sítio onde possa criar uns animais», antevê. Este futuro já está a ser construído a pouco e pouco, uma vez que com o que aqui ganha e consegue poupar, já conseguiu abrir um negócio ligado à mecânica no Brasil. Agora, Odair Jefferson, só quer continuar a deixar-se levar pela Natureza.

Fotos | Jéssica Moás de Sá