O Portomosense

Manuel de Jesus “História de um combatente morto em combate”

31 Jan 2019

Trouxeram-me para cá não me levaram nem tão pouco me vieram buscar, por aqui ficou meu pobre corpo eternamente a repousar.

Mais de cinquenta anos então passados, meus ossos continuam aqui enterrados. Fui morto em combate aqui no Ultramar por cá me deixaram enterrado e abandonado, sem direito a uma simples flor sobre a terra onde estou enterrado e em vez de flores a natureza fez nascer em cima da terra que me cobre arbustos e eras, que tapam completamente o sítio onde meu esqueleto jaz perfurado e estilhaçado sem direito a uma inscrição: Aqui jaz um português morto em combate.

Para aqui fiquei esquecido, talvez já nem faça parte da lembrança dos meus camaradas de armas que ainda estão vivos, mas, sei que faço parte de muitos combatentes que aqui morreram e não voltaram às suas terras, às suas famílias, e que por aqui ficaram debaixo de um monte de terra africano, sei que faço parte dos combatentes que defenderam Portugal no Ultramar, sei que faço parte dos que sofreram sem saberem porquê, sei que faço parte dos que foram obrigados a matar para não morrer ainda que fosse uma causa perdida, mas, perdida ainda não está a esperança, de todos os que voltaram desta guerra, de ouvir dizer um dia.

Regressaram à pátria todos os que tombaram e não mais se levantaram e onde agora em qualquer cemitério de suas terras repousam os restos mortais e sobre suas campas existem algumas flores e uma lápide dizendo: Aqui jaz um mártir morto em combate que não foi esquecido.

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