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Maria Inácia Rezola: “Não é verdade que os portugueses estejam reconciliados com o passado ditatorial”

14 Dezembro 2023
Isidro Bento

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Isidro Bento

14 Dez, 2023

A Revolução de Abril: memória, mitos e debate público foi o tema que encerrou o ciclo de conferências “Ditadura e de Democracia: Que História? Que Presente? Que Futuro?”, promovido pelo Município de Porto de Mós no âmbito do programa das comemorações concelhias dos 50 anos do 25 de Abril. A apresentação desta oitava e derradeira conferência coube à historiadora leiriense Maria Inácia Rezola.

A docente universitária, que lidera a comissão nacional responsável pelas celebrações dos 50 Anos do 25 de Abril, começou por analisar como é que os portugueses olham hoje para essa data marcante na História de Portugal. Lembrando o historiador José Medeiros Ferreira, que tornou comuns expressões como “Antes do 25 de Abril”, “Só com o 25 de Abri” e Depois do 25 de Abril”, Maria Inácia Rezola disse que, de facto, esta divisão temporal, que expressa bem a importância do acontecimento, ainda «pauta muitos aspetos da nossa vida».

Os portugueses «muito pouco dados a comemorações e em participação pública continuam a celebrá-lo solenemente na Assembleia da República e em festa nas ruas», por considerarem que se trata de algo que deve ser recordado como um acontecimento que tem mais aspetos positivos que negativos e algo central na história de Portugal, como o mostram as sondagens mais recentes». E se é verdade que estas nos transmitem a ideia de que os portugueses são «um povo reconciliado com a sua história», a verdade é que «quando entramos no debate historiográfico, sobretudo na arena política, o que verificamos é uma realidade bem diferente», afirmou a docente, deixando três exemplos disso mesmo.

«Temos o célebre concurso Os Grandes Portugueses [em que o vencedor foi Salazar]; a polémica entre os historiadores Manuel Loff e Rui Ramos a propósito de uma eventual desculpabilização do Estado Novo na História de Portugal, coordenada por este último e publicada pelo Expresso. Finalmente, uma história que não está acabada, que é a musealização da escola de Santa Comba Dão para um museu de Salazar». Por tudo isto e muito mais, «a ideia de que vivemos muito bem com o nosso passado ditatorial e que estamos reconciliados com a História não é verdade», frisou.

Segundo Maria Inácia Rezola, no caso do 25 de Abril há uma nota dominante e que se repetiu a cada data redonda: a falta de união no momento de celebrar e que levou a que as comemorações logo ao início tivessem várias entidades a preparar a sua própria comemoração. «Se analisarmos as comemorações nas últimas quatro décadas, percebemos rapidamente que elas têm sido reféns do contexto político da altura, o que é uma pena», afirmou, dizendo ainda que, «como as disputas do presente vão gerar conflitos sobre as representações do passado, o 25 de Abril é um dos casos paradigmáticos a esse respeito». Por último, «uma outra tendência que se tem agravado em prejuízo da história e do conhecimento da mesma são as disputas entre história e memória, com uma tendência crescente para a memória querer suplantar a história», alertou.

Ensinar aos jovens a importância da liberdade conquistada

Já na fase de diálogo com o público, a historiadora defendeu que «o desafio que nós temos é conseguir interessar ou motivar os mais novos para a forma como a democracia se conquistou em Portugal e para a importância de conhecerem este processo para valorizarem e serem mais intervenientes na democracia». Como povo, «se não nos preocuparmos em estudar, em criticar e apresentar problemas, arriscamo-nos a mumificar os vivos sem conseguir, obviamente, ressuscitar os mortos».

«O haver cada vez menos gente a votar e serem os mais novos os que menos votam leva-nos a questionar se as nossas práticas eleitorais democráticas não deviam ser revistas e já há muitos estudos e propostas a esse respeito», referiu a historiadora, afirmando, ainda, que, neste caso, «o que nos pode chocar é isto estar a acontecer numa democracia tão recente, uma vez que a situação não é sequer exclusiva de Portugal. Neste contexto, a ideia que temos de transmitir é que a nossa democracia foi conquistada nas ruas, nas fábricas, nos campos e que foi preciso lutar para a ter». Portanto temos de «valorizar muito mais essa conquista de direito ao voto e de liberdade de voto, coisa que não acontece».

Questionada se a falta de participação cívica e política dos portugueses será ainda resquício de quase meio século de ditadura, a historiadora disse que, embora saibamos que «as questões de cultura e de mentalidade são as que demoram mais tempo a mudar», a questão da «repressão das liberdades não justifica a ausência de envolvimento na política. Passaram 50 anos, é uma nova geração que já não tem essas memórias», frisou.

Vítor Crespo, figura central do 25 de Abril

Muitos portomosenses já o sabiam, mas Maria Inácia Rezola (à semelhança de outros oradores deste ciclo de conferências) reforçou-o: o almirante Vítor Trigueiros Crespo, natural de Porto de Mós, «foi uma figura ímpar e central no antes, no durante e no depois do 25 de Abril, em especial desde os primeiros movimentos do Movimento das Forças Armadas (MFA) e sobretudo durante a revolução. No Conselho da Revolução, no pós 11 de Março, ele conseguiu garantir a integração de figuras que as alas mais radicais queriam afastar, como Melo Antunes, que era um moderado no meio daquele processo, e depois foi fundamental no Conselho da Revolução. Depois de um dos elementos do público ter recordado que foi em casa de Vítor Crespo, a dois passos do edifício da Câmara de Porto de Mós, que decorreu a reunião que ditou o fim do Conselho da Revolução, a académica destacou «essas reuniões na “casa cor de rosa” [que fizeram manchete em todo o país] como tendo sido determinantes para esse momento da retirada dos militares da política ativa».

Foto | Isidro Bento

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