Com 29 anos, Maria Pereira é a segunda jogadora com mais internacionalizações da seleção portuguesa de andebol feminino. Durante a sua infância, a jovem, natural da Calvaria de Cima, sempre dispensou bonecas mas o mesmo não se pode dizer da bola. Aos 6 anos, começou o seu percurso na modalidade, por recomendação do médico de família que sugeriu que experimentasse um desporto por ser uma criança «muito inquieta» e a convidou a juntar-se à União Académica da Maceira, onde era dirigente. Maria Pereira gostou tanto que foi aí que treinou até o clube fechar portas, em 2002, altura em que se mudou para o Batalha Andebol Clube. «Foi bom para ganhar disciplina. O desporto ensina bastante a controlar as emoções, a cooperar e a ter respeito pelos colegas», defende. Hoje, vive na Alemanha onde, de manhã, veste a bata de fisioterapeuta e à tarde vai treinar com a camisola do Bad Wildungen, um clube pertencente à Bundesliga, a primeira liga alemã.

“É difícil explicar o que o desporto transmite”

Aos 14 anos, juntou o futsal ao andebol mas a escassez de tempo inviabilizou a continuação em ambas as modalidades. Três anos mais tarde decidiu dedicar-se em exclusivo ao andebol e assinar pelo Colégio João de Barros, nas Meirinhas. Desde cedo que integrou seleções jovens de andebol e que a ambição de experimentar a modalidade a nível profissional e a vontade de ir para fora a acompanhavam. Porém esta sua paixão nem sempre foi vista com bons olhos pela família, que queria que terminasse os estudos. «Sou a única pessoa ligada ao desporto da família. É difícil explicar a alguém o que o desporto transmite, essa foi uma grande batalha», desabafa, acrescentando que hoje as coisas «estão mais que ultrapassadas».

Sem nunca deixar de jogar, acabou por prosseguir estudos e tirar o curso de Fisioterapia. Durante um ano, que descreve como «muito duro», dividiu o seu tempo entre o andebol e o trabalho como fisioterapeuta em Porto de Mós. «Acabava por estar muito cansada e não tinha tempo, nem força, para fazer treinos minimamente bons», recorda. Aos 23 anos, surge a oportunidade pela qual tanto ansiava: recebe um convite dos franceses do HAC Le Havre. Não esconde que sentiu medo na hora de embarcar para a Normandia, principalmente por ir sozinha. «Decidi ir por achar que era a altura, mesmo em termos de evoluir como atleta, as coisas em Portugal seriam muito difíceis», justifica.

Ao chegar a França, estava longe de imaginar que esse seria um dos períodos mais conturbados por que teria que passar. O choque cultural não demorou a atingi-la e confessa que se sentiu como se tivesse caído de um paraquedas. «Fui numa altura em que emocionalmente a equipa não estava bem e em termos competitivos a época estava a correr mal», recorda. A andebolista esteve no clube durante seis meses e apesar das adversidades garante que não se arrepende.

“Em Portugal ainda não há muito a cultura desportiva”

De França partiu para a Islândia, onde esteve ao serviço do Haukar. Contrariamente à experiência anterior, desta vez, a adaptação, foi «muito mais fácil». Volvidas quatro épocas e embora admitindo que irá sempre sentir «um carinho muito grande» pela Islândia, a jogadora decidiu que estava na altura de viver uma nova experiência e rumou à Alemanha para integrar a equipa do Bad Wildungen, onde joga há duas épocas como central. «Tenho que organizar o jogo e gerir as minhas colegas. É necessário aprender rápido a língua para conseguir comunicar, esse é o principal desafio da posição», explica, reconhecendo que ainda não consegue «dominar realmente» o alemão.

Hoje em dia, concilia a sua função de jogadora profissional de andebol com a de fisioterapeuta, algo que, frisa, seria impensável em Portugal onde ainda «não há muito a cultura desportiva». «Acabo por conseguir trabalhar e jogar ao mesmo tempo. É muito bom. Em Portugal, se vais trabalhar em part-time e dizes que precisas de ir ao ginásio treinar, porque faz parte do teu plano de treino, acham que estás a fazer uma piada», considera. Maria Pereira reconhece que na clínica onde trabalha existe uma «flexibilidade» que lhe permite marcar presença em jogos durante a semana ou ter treinos de manhã.

Desde 2015, altura em que saiu de terras lusas, que a andebolista tem vivido diferentes experiências, mas agora já só pensa em regressar em definitivo a Portugal e permanecer na zona de onde saiu há seis anos em busca de outros voos. «A minha perspetiva é voltar e já daqui a uns meses. Enquanto conseguir e o corpo aguentar vou tentar trabalhar e jogar», adianta.

“Quando se ouve o hino é uma emoção muito forte”

Desde os 18 anos que integra a seleção portuguesa de andebol feminino, tendo sido recentemente convocada para o play-off do Campeonato do Mundo 2021. No entanto, a jovem descarta glorificações e garante que representar a equipa já faz parte do seu trabalho. Porém confessa que ainda sente o peso da responsabilidade no momento de entrar em campo: «Quando se está a representar Portugal e se ouve o hino é uma emoção muito forte». Portugal nunca tinha marcado presença nesta competição e esse era um dos principais objetivos, contudo a equipa das quinas acabou por ficar pelo caminho depois de ter sido derrotada pela seleção alemã na segunda mão. A jogadora reconhece que a equipa teve «algumas falhas» e assume que o sentimento de desilusão se abateu sobre as atletas: «Foi duro. Trabalhámos bastante para estarmos na melhor performance e depois acabou por não se concretizar, mas faz parte». Agora, a equipa já só pensa no futuro e na oportunidade de poder vir a participar numa «grande competição», seja europeia ou mundial.