Natural do Alqueidão da Serra, Martinho Saragoça, de 41 anos, tem no BTT uma das suas maiores paixões. Apesar de não fazer disso profissão e de garantir que «primeiro trabalha-se e depois é que vem a bicicleta», soma já várias conquistas na modalidade e 2021 tem-se revelado um ano “em cheio” no seu percurso. Ano esse em que, admite, não estava «muito virado» para a competição e pensava antes em «usufruir» da bicicleta com os amigos. No entanto, o «bichinho da competição» falou mais alto e acabou por o levar a participar em diversas provas, tendo conseguido, por quatro vezes, arrecadar o primeiro lugar em provas de Cross Country Olímpico (XCO) e de Cross Country Maratona (XCM), duas das modalidades existentes no BTT.

Uma dessas vezes sagrou-se campeão regional de XCO no campeonato da Beira Litoral que se realizou em Águeda a 20 de junho. Seis dias depois, o atleta alqueidanense voltou a subir ao pódio, desta vez, para ser distinguido como campeão nacional de Cross Country, na categoria de Masters 40 masculino, no Campeonato Nacional de Cross Country Olímpico (XCO) que decorreu na Serra da Gardunha (Fundão). Uma prova com a duração de uma hora mas «muito intensa» em que o coração «vai sempre a fundo». Martinho Saragoça confessa que este feito lhe dá uma «satisfação imensa» principalmente por encarar como um sinal de que o trabalho que tem feito, «tem sido bem feito», mas, também, pela exigência daquela que é vista como a prova «rainha do BTT». «Estas provas têm alguma dificuldade técnica, uma queda manda logo tudo por água abaixo. É preciso muita concentração e há que tentar não rebentar a nível físico, porque pode-se levar o corpo à exaustão e depois somos passados por outros colegas», adverte.

No fim de semana seguinte, um novo recorde. Noventa quilómetros feitos em 4h31 valeram a Martinho Saragoça o primeiro lugar no pódio na 2.ª Taça de Portugal XCM, algo que até então nunca tinha conseguido atingir. «Já tinha ficado em terceiro lugar, mas agora estou em primeiro lugar no ranking da competição», revela. Apesar do triunfo conseguido na prova que decorreu em Sendas do Almocreve (Marco de Canaveses), o atleta ressalva que «ainda falta tudo» para ganhar a taça, pois a competição é composta por seis provas. No passado dia 17 e 18 de julho, participou também em dois campeonatos nacionais, no de ciclismo de fundo foi campeão nacional e no de contrarrelógio ficou em 5.º lugar.

2018, um ano de viragem

A paixão de Martinho Saragoça por bicicletas começou quando tinha apenas 12 anos na Pista da Gateira, no Alqueidão da Serra. Foi aí que, de forma recreativa, fez as primeiras corridas de bicicleta e que juntavam um grande grupo de amigos. O gosto que, entretanto já estava entranhado, acabou por se acentuar ainda mais graças «a um senhor de Porto de Mós» que também partilhava do mesmo interesse. «Sempre foi um homem do desporto e começou a desencaminhar o pessoal para fazer umas brincadeiras de bicicleta», conta. Nessa altura, recorda, contavam-se pelos dedos de uma mão o número de provas da modalidade que existiam e até o número de pessoas que andavam de bicicleta. Porém, os que praticavam pareciam já estar muito à frente do seu tempo: «As pessoas até achavam estranho como é que nós já andávamos de bicicleta, de calções de licra justinhos e usávamos luzes para os passeios à noite».

Nessa altura, dificilmente imaginaria que vários anos depois iria participar numa das maiores provas do mundo na modalidade, a Transpyr Gran Raid. «A travessia dos Pirenéus» tem a duração de sete dias, começa no Mediterrâneo e acaba no Atlântico, numa ligação de 750 quilómetros, com 22 de desnível acumulado. Em 2015, ano em que participou, estavam representados cerca de 60 países e seis dos atletas eram portugueses. «É uma prova muito dura, quer pela duração, por serem sempre entre 120 a 130 quilómetros de BTT, quer pelo clima porque lá tanto pode nevar como fazer 40 graus», frisa. O atleta alqueidanense terminou em quarto lugar, mas houve quem tivesse sucumbido logo no primeiro dia. «Nesse ano fez muito calor e houve uma pessoa que morreu desidratada. Houve também três equipas que tiveram problemas com desidratação e desistiram logo», recorda. Apesar da dificuldade, o atleta já só pensa em voltar para aquela que diz ser uma «experiência para a vida» e garante que esse é um dos seus objetivos para 2022.

Há três anos, dá-se o momento de viragem, é quando reconhece que as coisas lhe começam a «correr melhor», algo que, acredita, se deveu ao facto de ter procurado «outro tipo de acompanhamento» através de um treinador. «Hoje em dia, mesmo nas provas que há nestas terriolas, já há muita competição. Quase todos já têm um treinador e um método de trabalho mais evoluído», justifica. Em 2019 os resultados da decisão que tomou começaram a dar frutos, conseguindo ser campeão nacional de maratonas e em 2020 tornou-se campeão nacional de rampa de estrada. Mesmo sabendo o «grande risco» que corre e que, por vezes, leva o corpo «ao limite», Martinho Saragoça não pensa em arrumar a bicicleta: «Acho que nunca vou deixar isto. Hei de andar até poder», assegura.