O médico cardiologista portomosense, David Durão, até há pouco tempo diretor do serviço de Cardiologia do Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT), foi destituído do cargo, segundo o próprio, «por incapacidade de contratar prestadores de serviço para colmatar as falhas» na especialidade. A decisão «inédita», que lhe terá sido comunicada «por telefone pelo presidente do Conselho de Administração (CA)», apanhou-o de surpresa. «O CHMT considerou que a minha incapacidade em contratar impedia a minha continuidade, quando no meu contrato não diz que tenho de contratar médicos», sublinhou em declarações à comunicação social. Por não ter havido «qualquer processo disciplinar por irregularidades», o médico considera que se trata de uma decisão com forte componente política, criticando os «conselhos de administração que se veem na disposição de demitir alguém de funções que não foi nomeada politicamente, mas por concurso público». «Desde que assumi o cargo, em 2020, nunca se fizeram tantas consultas, nunca se procedeu a tantos implantes de dispositivos médicos na história do CHMT», frisa.

Em setembro, dois cardiologistas rescindiram o vínculo de trabalho com o CHMT e, no dia 21 de outubro, David Durão fez o mesmo. O CHMT ficou apenas com três cardiologistas no quadro para dar apoio aos hospitais de Abrantes, Tomar e Torres Novas, o que leva o clínico a presumir «o pior para o Serviço de Cardiologia». O Portomosense procurou ouvir David Durão mas o médico escusou-se a prestar declarações, remetendo-nos para o comunicado do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), que já lhe prestou solidariedade pública. De forma irónica, o SIM dá os parabéns ao CA do CHMT por «conseguir o extraordinário feito de fazer com que o ex-diretor fosse forçado a rescindir, tal como aliás dois outros cardiologistas». O SIM lamenta que a administração continue «sem assegurar escalas corretas das urgências de Cardiologia e permita médicos sem especialidade fingirem que resolvem problemas», antevendo que «os doentes cardíacos irão ser menos acompanhados». «Antes deste ex-diretor, esperavam mais de 18 meses por uma consulta, meses para terem pacemaker e semanas para procedimentos de diagnóstico urgentes», salienta o sindicato.

A versão do CHMT

Em comunicado enviado à nossa redação o CA do CHMT sublinha que David Durão «não foi destituído por não conseguir arranjar médicos». «Esse argumento, repetido à exaustão pelo visado na comunicação social, é completamente falso», alega a instituição. O CHMT diz também que esta decisão lhe foi «transmitida pessoalmente» e não por telefone e que o médico teve acesso à «fundamentação da deliberação» de forma «totalmente transparente». «É, no entanto, uma constatação indesmentível que foi no mandato do diretor de Serviço destituído que surgiram constrangimentos nunca sentidos nos recursos humanos na especialidade de Cardiologia», refere o CHMT. A instituição fala de «uma deficiente gestão das escalas do apoio da especialidade de Cardiologia ao Serviço da Urgência Médico-Cirúrgica da Unidade de Abrantes, através de médicos externos, prestadores de serviços, cuja gestão, contratualmente definida, compete às funções do diretor de Serviço». O CHMT afirma que estes problemas não se tinham verificado antes, apenas no «mandato» do agora ex-diretor e que «foram o resultado do desalinhamento profundo da estratégia assistencial que o responsável pretendia impor, à revelia da estratégia assistencial preconizada pelo CA, em cumprimento das deliberações da tutela». O CHMT acusa, ainda, David Durão de, nas reuniões, «não apresentar qualquer proposta ou estratégia para reverter a degradação dos cuidados prestados, tendo sido apenas oferecido como solução o encerramento da enfermaria de Cardiologia e um apoio de consultadoria médica por telefone ao Serviço de Urgência Médico-Cirúrgica». A instituição confirma a receção do pedido de rescisão do contrato e refere que comunicou ao médico «que contava com a sua continuidade enquanto profissional».