Em dezembro último, apresentámos-lhe Carla Vitorino. Natural do Alqueidão da Serra, mas a residir em Valverde, procurava um dador de medula, para poder realizar um transplante e assim curar-se de um linfoma que a acompanhava há 12 anos. À época, já havia alguém compatível, mas que se verificou não poder ser dador devido a uma doença no sangue e, por isso, havia sido organizada uma iniciativa de recolha e de registo de novos dadores, que inscreveu 200 novas pessoas na lista, a Operação Garimpo.

Dias depois, poucos antes do Natal, Carla Vitorino recebeu a resposta que esperava: apesar de não ter resultado do evento que se realizou em Leiria, havia um dador para si, proveniente da Alemanha. «Foi a melhor prenda que podia ter recebido», afirma, acrescentando que «esta notícia foi mais um milagre» na sua vida.

O dia escolhido foi 14 de fevereiro. «Que melhor dia para fazer um transplante de amor?», questiona Carla Vitorino, com a sua habitual positividade acerca de todo o processo. «Foi um dia muito emocionante, ainda que em termos médicos não tenha nada de espetacular, é uma transfusão de sangue, no fundo. Eu não senti nada fisicamente, mas senti muita coisa emocionalmente. Quando olhei para o saquinho, comecei a chorar porque sabia que estava ali o que me ia salvar a vida», recorda, tecendo elogios a toda a equipa do IPO de Lisboa, onde é acompanhada. «Filmei o percurso do sangue, desde que começou a sair, até que entrou em mim. Foi um dia muito especial», afirma.

Atravessado esse processo, «o grande desafio seria depois». Tanto os médicos como Carla Vitorino precisavam de esperar para perceber se o corpo da paciente aceitava a medula transplantada, se não havia qualquer rejeição e «se não acontecia uma coisa que é frequente, que é a doença de enxerto contra hospedeiro». «Estive sempre super vigiada, medições de febre, de tensão arterial, constantemente a perguntarem se eu estava bem… Sempre me senti bem, nunca senti nada de anormal», refere.

A chegada da COVID-19

Se todo este processo já seria complicado em tempos normais, mais se tornou em tempos de pandemia. «Apareceu a COVID-19. Ainda não se falava muito, mas todos tínhamos medo, porque somos uma população muito frágil. Eu não tenho imunidade ainda. As coisas estão a correr bem, mas ainda vou ter que levar as vacinas todas, estou completamente desprotegida de tudo. Isto assustou-me bastante», conta. Carla Vitorino estava, com a filha, a viver numa residência para doentes, no IPO, a partilhar o edifício com diferentes pessoas, o que a deixou ainda mais apreensiva, sentimento partilhado com a sua médica: «Tinha um mês de transplante. Mandar-me para casa era complicado porque o meu marido saía [para trabalhar] e podia trazer alguma infeção», lembra. A solução foi encontrada numa casa de alojamento local que Carla Vitorino tem na Nazaré e que estava vazia. «Tive mesmo que sair do IPO, porque houve uma suspeita no edifício onde eu estava e fui para a Nazaré com a minha filha», conta.

Carla Vitorino teve de comprometer-se com a médica de que cumpriria todas as indicações à risca: «Toda a medicação que eu fazia endovenosa, passou para a via oral, com o meu compromisso de que faria tudo como deve ser em relação às alimentações, medicação, ingestão de água… Éramos abastecidas pelo meu marido, que levava [as compras] até à porta e nós íamos buscar. Durante todo esse tempo só vi a minha família pela janela, não havia abraços, não havia beijos, nada…», recorda. Como as análises foram apresentando resultados positivos, Carla Vitorino foi autorizada a sair para pequenos passeios e mais tarde a regressar à sua casa. «Vamos tentar preservar-nos o máximo possível porque continuo frágil, apesar de estar tudo bem», aponta.

Daqui a menos de um mês, fará seis meses de transplante e, então, realizará um exame que lhe dirá se há ainda células cancerígenas no seu corpo. «O do terceiro mês deu negativo, mas não quer dizer que não possa acontecer alguma coisa. Durante um ano sou uma doente de risco, tenho consciência disso», afirma. Com o decorrer do tempo, vai «retirando medicamentos e vendo como é que o corpo reage», mas sabe que é «transplantada, uma doente especial por isso»: «Se me acontecer alguma coisa, tenho que dizer logo que sou transplantada, mas a pior fase está passada», conclui.

A fé como âncora

Já na primeira conversa que teve com O Portomosense, Carla Vitorino tinha relevado a importância da fé na sua vida. Desta vez, essa faceta torna-se também evidente: «[No hospital] recebia a visita diária do padre, a meu pedido, e recebia a comunhão diária». Também aí os cuidados eram redobrados: «Tinha que estar tão protegida que a hóstia tinha que ser congelada, num saquinho. Depois o senhor padre chegava e dava-ma dentro do saquinho e eu é que a tirava de lá de dentro, porque o risco de infeções é muito grande», explica.

De acordo com Carla Vitorino, ao longo de todos estes anos, a fé foi onde foi buscar forças: «A força humana, a determinada altura, esgota-se, por muito fortes que sejamos. Eu andava em tratamento há três anos e não seria humanamente possível lidar e suportar isto sozinha», considera. Carla Vitorino diz, recorrentemente, a seguinte frase: «Sou mais feliz desde que sou doente». «Pode parecer irracional, mas não é. Tem como base a fé. Eu sinto hoje uma paz, uma serenidade, sei lidar com o medo disto e de outras coisas correrem mal, sou uma pessoa completamente diferente, porque sinto que estou verdadeiramente suportada por Alguém», afirma.

Operação Garimpo é para continuar

Carla Vitorino caracteriza como «incrível» a onda de solidariedade que se gerou em torno da busca pelo seu dador. «Fiquei muito emocionada e mesmo que o dador não aparecesse, já tinha valido a pena», afirma. O material enviado de Lisboa para a recolha não foi suficiente para as cerca de 200 pessoas que, naquele dia, se inscreveram como dadoras de medula. Agora, Carla Vitorino admite reativar a plataforma que existe em formato de grupo do Facebook. «Tenho sido contactada por pessoas que têm a mesma doença ou doenças similares e que procuram falar comigo», explica. Alguns desses casos precisarão de transplante e, «se for necessário», a plataforma de ajuda será reativada: «Deixa de ser para ajudar a Carla, mas para qualquer um que venha a precisar de um transplante de medula. A ideia é sensibilizar as pessoas para a importância que isto tem, porque pode salvar vidas. Salvou a minha», conclui.