A 25 de março de 2007 nascia Nuno Pereira, no Hospital de Santo André, em Leiria. Foi nesse mesmo dia que a mãe, ao mudar-lhe a fralda, reparou num «altozinho ao fundo das costas». O diagnóstico não demoraria a chegar: Spina Bífida. Uma malformação congénita que constitui um defeito na formação do tubo neural e que no seu caso se apresentou com uma «ferida fechada».
As limitações que o impedem de andar não foram, no entanto, uma condicionante para que desde muito cedo começasse a incluir o desporto na sua vida. E foi precisamente esse gosto e persistência pela prática desportiva que levou O Portomosense a entrevistá-lo. De sorriso tímido mas simpático, é desta forma que Nuno Pereira chega à redação acompanhado pelos seus pais, naturais da Marinha da Mendiga.

Numa viagem ao passado, Aida Pereira, a mãe, recorda que foi aos sete meses que se apercebou que o filho não levantava os pés. Aos nove, com uma ressonância magnética deteteram que o caso «era mais grave» do que se previa. A operação só aconteceu aos 3 anos e aí surgiu uma outra revelação: Nuno Pereira não tinha «três vértebras e meia». A cirurgia teve que ser «interrompida à pressa» depois do menino entrar em paragem cardiorespiratória.

O médico confessou à família que nunca lhe tinha acontecido algo idêntico, assim como nunca tinha visto uma medula igual à dele. A mãe adianta que este caso foi «raro logo de início», uma realidade que leva o menino a brincar com a situação: «Ele costuma dizer que é filho de um alien porque, no seu caso, foi tudo fora do normal», explica. Atualmente, não tem sensibilidade dos joelhos para baixo e os «pés estão mortos».

Passados 12 anos desde o seu nascimento, Nuno Pereira é o exemplo de alguém que apesar da tenra idade e das suas características físicas, nunca desistiu de perseguir os seus sonhos. A natação foi o ponto de partida. Depois disso, já jogou futsal, ténis de mesa e desde há dois anos e meio que a Associação Portuguesa de Deficientes (APD) na Maceira é a sua segunda casa, local onde pratica basquetebol e andebol.

«Sempre gostei muito de desporto mas tive de deixar de jogar futsal porque as talas começaram a ferir-me os pés», desabafa. O que parecia uma sentença para que o desporto deixasse de fazer parte da sua vida, acabou por não interferir na sua persistência. O rapaz conta que tudo mudou quando um dia nas Festas de São Pedro, em Porto de Mós, um jovem ao vê-lo em cadeira de rodas, procurou estabelecer uma ligação com ele. Mais tarde, na Batalha, encontrou-o novamente e foi então que surgiu o convite para que fosse assistir à disputa da final de basquetebol em cadeira de rodas, em Alcobaça, em que a equipa da APD Leiria era uma das participantes. Depois, teve a oportunidade de experimentar a modalidade e por lá ficou até aos dias de hoje. Começou por aventurar-se no basquetebol mas atualmente pratica também andebol. Aida Pereira, de 48 anos, explicou que isso só se tornou possível depois de ter assinado um termo de responsabilidade porque a «Federação de Andebol só aceita maiores de 15 anos». Depois de alguma insistência, o menino confessa que «ficou muito contente» quando soube que estava autorizado a jogar e vai mais longe: «Se eu podesse escolher só um desporto, era o andebol».

“Uma vez, um árbitro perguntou-me: Porque é que tens as caneleiras na parte de trás das pernas?”

Com a experiência de ter praticado futsal em pé, graças a umas talas próprias, foi com alguma estranheza que Nuno Pereira começou a fazer desporto numa cadeira. «A primeira vez que fiz desporto sentado foi muito fixe mas, ao mesmo tempo, estranho e diferente porque estava habituado a jogar em pé», confessa Nuno Pereira adiantando que, num primeiro momento, foi atravessado por um sentimento de medo devido à alta estatura dos colegas mas que depois «tudo correu normalmente».

A equipa onde joga é composta por 15 elementos. Nuno Pereira é o mais novo, já o mais velho tem 64 anos. O rapaz explica que «todos são inscritos em ambas as modalidades», apesar de uns gostarem mais de uma e outros de outra. Com treinos duas vezes por semana, e a estudar na Escola Secundária de Porto de Mós, no 7.º ano, precisa de fazer uma boa gestão do tempo para conciliar o desporto com as tarefas escolares, e daí ir apenas uma vez por semana.

Os fins de semana são praticamente todos preenchidos devido aos jogos, o que faz com que Nuno Pereira e a família já tenham percorrido vários locais por esse país fora. Ainda no tempo em que jogava futsal, através da utilização de talas, o rapaz recorda uma situação caricata: «Uma vez um árbitro perguntou-me: Porque é que tens as caneleiras na parte de trás das pernas? E eu respondi: Calma, isto não são caneleiras! São talas», conta. Desses tempos, Aida Pereira recorda ainda o bom ambiente vivido: «Nós íamos aos jogos e as claques das outras equipas apoiavam-no muito porque parecia que ele se partia todo».

O poder do desporto para o bem-estar físico e psicológico

No passado mês de outubro, Nuno Pereira foi submetido a uma intervenção cirúrgica com o objetivo de «soltar a medula», que o obrigou a uma paragem forçada e o impediu de participar pela primeira vez numa competição. «Se não fosse operado ia participar num Torneio Internacional de Andebol em Portimão. Ficou cheio de pena», explica a mãe.

Apesar disso, Nuno Pereira não se agarrou à tristeza e até aproveitou para brincar com a situação. «Tive três semanitas sem ir às aulas, de férias», refere entre risos. Mas desengane-se quem pense que isso o obrigou a ficar parado em casa. «Vou pela estrada, andar de cadeira, o que faz com que ganhe mais força muscular e fique mais ativo», conta.
Passeios de vários quilómetros que, às vezes, se prolongam demasiado o que leva à preocupação de pessoas que se cruzam com ele, como conta a mãe: «Houve um dia em que ele foi andar cinco quilómetros e o professor de Educação Física encontrou-o e perguntou-lhe se eu sabia onde é que ele estava». Com um temperamento tão próprio da idade, Nuno Pereira intervém e apressa-se a justificar: «Oh mãe, encontrei pessoas no caminho e estive a jogar futebol. A culpa não foi minha!»

Desde muito cedo que Nuno Pereira está ligado ao desporto. Aida Pereira reconhece os benefícios que a prática desportiva tem na vida do filho: «Ele com o desporto anda feliz, alegre e bem disposto. Nós tentamos fazer de tudo para ele andar assim», confessa, emocionada.

Neste momento, o rapaz que já praticou diversas modalidades tem em vista uma outra: handbike. Um tipo de bicicleta que é pedalada com as mãos, em posição sentada ou deitada e que segundo Alda Pereira custa cerca de «sete mil euros». Apesar desta vontade, a mãe é perentória: «Ele quer experimentar, anda com esse sonho porque não gosta de estar parado mas isso está fora do nosso alcance», conclui.