Quantas e quantas meninas já ouvimos dizer que um dia querem ser bailarinas? Seja pelos contos de fadas que veem na televisão, pela magia que toda a envolvência da dança lhes transmite ou pela indumentária utilizada, são muitas as crianças que têm o sonho de algum dia poderem vir a tornar-se numa. Quem hoje conhece o percurso de Margarida Gonçalves provavelmente poderá pensar que foi uma dessas meninas mas a verdade é que não. No seu caso, foram os pais, Elsa e Tomé, naturais de Mira de Aire, que tiveram um papel preponderante nessa descoberta. Foram eles que, inconscientemente, permitiram que descobrisse a sua verdadeira vocação, até então adormecida.

Embora, ao início, não tivesse sido um desejo evidente, ao longo do seu percurso de mais de 14 anos, a jovem tem somado muitas conquistas, tendo já pisado palcos em praticamente todas partes do mundo e marcado presença nas maiores competições internacionais. Margarida Gonçalves tinha apenas 3 anos quando dançou ballet pela primeira vez. Antes disso, chegou a experimentar natação e trampolins, cumprindo a vontade dos pais que queriam que praticasse algum desporto, mas foi o estilo de dança nascido nas cortes italianas durante o período renascentista que mais a apaixonou. Acabou por entrar no Conservatório Internacional de Ballet e Dança Annarella Sanchez, em Leiria, que desde essa altura tem sido a sua segunda casa. Foi aí que deu os primeiros passos de dança, não só de ballet, como de carácter, contemporâneo, hip-hop e jazz, e é aí que tem bebido de todo o conhecimento no que à dança diz respeito.

Hoje, Margarida Gonçalves vive para a dança, respira dança e toda ela é feita de dança. Com 17 anos, é um exemplo de perseverança, de disciplina e de alguém que se esforça para atingir os seus objetivos. Sendo o ballet uma arte tão exigente, ao nível físico e sobretudo técnico, obriga a que tenha ensaios regulares mas isso não a assusta. O seu dia é dividido entre as salas do Conservatório e a Escola Secundária Afonso Lopes Vieira, onde estuda e que tem uma parceria com a Academia para o ensino articulado. «De manhã temos aulas e à tarde, cerca das 14h30, vamos para a Academia onde começamos com uma aula de ballet e o resto da tarde ensaiamos», explica. Os ensaios só terminam por volta das 20h30 e depois de jantar aproveita para estudar no pouco tempo que lhe resta até ir dormir.

Margarida Gonçalves não vê nos seus dias extremamente preenchidos uma desvantagem, antes pelo contrário, prefere descomplicar. «O meu foco é a dança. Nós passamos o tempo todo na Academia e como os meus amigos também são de lá, passamos o dia todo juntos», afirma. Se no início a jovem admite que foi um «bocadinho difícil» gerir toda esta rotina «bastante exigente», hoje é algo a que já está acostumada. «Fui-me habituando, organizando e depois de saber o que tinha que fazer tornou-se cada vez mais fácil», garante.

Apesar de ser ainda bastante jovem, Margarida Gonçalves já sabe bem aquilo que deseja para o seu futuro. Dentro de poucos anos, vê-se a trabalhar no estrangeiro, preferencialmente na Europa onde, acredita, existe uma «maior estabilidade, mais segurança e melhores condições ao nível dos serviços de saúde». Sem ter, ainda, um sítio específico para onde queira ir trabalhar, de algo a jovem tem a certeza: «Estarei onde houver oportunidades». A bailarina aproveita ainda para deixar um conselho a todas as crianças ou jovens que, tal como ela, decidam enveredar por esta área: «Têm de ter a consciência que é um caminho que exige muito trabalho, muito foco, muita disciplina e que tem ser feito com o coração. Se não for feito com amor, não se consegue transmitir ao público o nosso próprio sentimento, que é o objetivo da dança».

Um reportório recheado de clássicos

Além de Portugal, a jovem bailarina já esteve em países como Estados Unidos da América (EUA), África do Sul, Cuba, Bélgica, Roménia e Alemanha, Inglaterra e França. Em 2019 foi uma das convidadas, juntamente com dois colegas da Academia, para marcar presença na Ballet School Stars, uma gala internacional de dança, que decorre em Roma (Itália), onde dançou Variação de Esmeralda, um bailado inspirado no romance Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo. «Foi uma das minhas experiências favoritas, talvez por ser um país diferentes, um público diferente e de um dos convites ter sido direcionado a mim», confessa.

Do seu reportório fazem parte ballets como Grand Pas de Quatre, a versão encenada pelo coreógrafo Anton Dolin; Les Sylphides; o conhecido Lago dos Cisnes ou Swan Lake – Pas de Trois; The Sleeping Beauty ou A Bela Adormecida, que tem sido recentemente apresentada. A estes soma-se um outro, Giselle, um ballet romântico muito popular. De todos os espetáculos dos quais já fez parte esse foi um dos que mais marcou Margarida: «Desempenhei o papel de Myrtha (Rainha das Willis), uma das personagens principais, e tive a oportunidade de aprender com a coreógrafa Maina Gielgud, uma das maiores referências no ballet» que foi convidada pela Academia em 2019 para encenar o espetáculo.

Em apenas 17 anos, já soma 27 prémios arrecadados

Pela quarta vez, Margarida Gonçalves voltou a estar na semifinal do Youth America Grand Prix (YAGP) 2022, um dos maiores concursos do mundo, que decorreu em Paris no mês passado. A sua prestação e a de Justin Popa com Le Corsaire, pas d´Esclave valeu-lhe um segundo lugar na categoria pas de deux, tendo ainda conseguido um lugar no top 12 em Solo Clássico, ficando apurada para a final que se irá realizar em abril de 2022 nos EUA. Também este ano esteve em Havana (Cuba) e trouxe para casa um primeiro lugar, a que se somam outros dois na sua participação na IDC – International Dance Competition, que decorreu em Portugal.

O ano passado arrecadou o primeiro lugar no South African International Ballet Competition (SAIBC), que aconteceu em Cape Town (África do Sul). Em 2019 esteve em Barcelona (Espanha) para participar na semifinal do YAGP onde conseguiu atingir várias conquistas. Ainda no mesmo ano, viajou até Vancouver (Canadá) para marcar presença no Global Dance Challenge e veio para casa com dois primeiros lugares, participou também no BBB – Ballet Billboards, em Montana (EUA), e ficou em segundo lugar em duas categorias.

Em 2018 participou nas finais da Dance World Cup, em Espanha, e trouxe dois primeiros prémios para casa. Esteve ainda na semifinal do YAGP, em Barcelona, onde também se destacou. Em Faro, no Dançarte Competition foi considerada a Melhor Solista e marcou presença na SAIBC onde conquistou um quarto lugar e uma menção honrosa.

Há quatro anos, marcou presença pela primeira vez na semifinal do YAGP, de onde trouxe três prémios. Rumou depois a Nova Iorque para participar na Yagp World Final, onde já havia estado dois anos antes. Em 2016 participou na Dance World Cup Finals, em Jersey, e arrecadou o terceiro lugar na categoria Solo Clássico.