«A minha mãe chora imenso porque vai nascer o primeiro neto homem e ela não lhe vai poder tocar». Sandra Almeida tem 42 anos e está grávida de 38 semanas. Dentro de pouco tempo será mãe pela terceira vez, de um menino muito desejado. Apesar de ser uma grávida de “terceira viagem”, esta gestação em nada se compara às restantes. A diferença mais gritante é que, quando nascer, o Leandro só vai poder conhecer a mãe.

Pela primeira vez, o pai não vai poder assistir ao parto de um filho, embora fosse esse o desejo expresso do casal, e a mulher estará impedida de receber visitas. Esta ausência, naquele que é considerado um dos momentos mais importantes da vida de uma mãe, será colmatada através de videochamadas, pelo menos até ter alta. Este testemunho é um retrato da dura realidade que atinge hoje em dia tantas famílias e que se deve às medidas de restrição impostas nos hospitais para prevenir a propagação do novo coronavírus.

Em conversa com O Portomosense, Sandra Almeida, residente nas Pedreiras, revela que esta foi uma gravidez «muito desejada, apesar de não ter sido planeada». Até aos quatro meses e meio, a sua condição é descrita como tendo sido «tranquila» mas tudo viria a mudar radicalmente com a proliferação de casos de COVID-19. Apesar de admitir que o início da pandemia na China lhe «passou um bocado ao lado», a partir do momento em que existiu uma aproximação a território nacional, os nervos e a ansiedade tomaram conta de si.

A COVID-19 tem obrigado a mudanças drásticas nas rotinas da sociedade e o acompanhamento às grávidas não foi exceção. Sandra Almeida conta que desde a entrada em vigor do Estado de Emergência, as consultas e análises que tinha agendadas foram «quase todas canceladas». Durante um mês e meio não teve qualquer tipo de contacto com o obstetra, no entanto continuou a ser seguida por um endocrinologista, especialista em diabetes, que realizou duas consultas via telefone, pois durante a gravidez «apanhou diabetes gestacionais».

Após o período de pausa, as consultas foram retomadas no passado dia 17, no Hospital de Santo André, em Leiria, onde se prevê que Sandra Almeida dê à luz. O momento de ter que se deslocar a uma unidade hospitalar foi por si vivido com algum receio, que rapidamente se extinguiu: «Aquilo está muito bem organizado e não havia aquela confusão que se verificava anteriormente», diz, referindo que uma das novas regras em vigor no hospital é a impossibilidade dos acompanhantes entrarem e da paciente estar obrigada a usar máscara de proteção. Além disso, assim que chegam à urgência de Obstetrícia, é-lhes medida a temperatura corporal.

Quase a dar à luz, Sandra Almeida faz um balanço positivo da gestação, apesar de haver um sentimento que a acompanha há meses e que perdura até aos dias de hoje. «Estou a viver as últimas semanas da gravidez, que é de risco, com muita ansiedade e muito medo», descreve. Como forma de contornar esse estado emocional, é à fé que se tem agarrado: «Acredito que melhores dias virão e que Deus tem algo de bom guardado para nós», sublinha.

Uma chegada ao mundo (quase) solitária

Eduarda Neto veio ao mundo no passado dia 16 de abril, no Hospital de Santo André, em Leiria, completamente alheia ao turbilhão de emoções que a sociedade hoje enfrenta. Em circunstâncias normais, passadas algumas horas, o seu berço estaria rodeado de pessoas com o objetivo de contemplarem o novo ser. Mas não foi isso que aconteceu. O inimigo invisível que há meses nos atormenta deitou por terra todos os planos que pudessem existir para esse momento, considerado tão especial.

«É muito triste não ter ninguém ali ao nosso lado, mais que não fosse só para fazer companhia. Não é que os médicos e enfermeiros não façam, mas eles têm muita gente para tratar. Senti-me só», desabafa Nádia Neto, de 37 anos, residente na Cabeça Veada. Com 2,655 quilos, a pequena Eduarda nasceu de cesariana às 10 da manhã, mas os seus familiares só souberam que tinha nascido às 18 horas, quando a mãe regressou ao quarto e pôde dar a boa nova. Estava longe de imaginar que a primeira vez que iria conhecer o pai, os dois irmãos e o resto da família seria através de um retângulo mágico.

O dia em que realmente se conheceram foi marcado por uma grande e comedida emoção. Na impossibilidade de o pai poder ir buscar a bebé, teve antes que entregar o ovo à auxiliar do serviço de Obstetrícia que tratou da logística de trazer mãe e filha para a porta do hospital. A receção da bebé a casa não poderia ter sido melhor. «Os manos ficaram muito contentes. Só querem pegar e acham muita graça», afirma. Mas nem todos os membros da família tiveram a sorte de poder tocar em Eduarda. «O meu irmão como trabalha aqui perto, veio à janela ver a menina», conta.

À semelhança de Sandra Almeida, também Nádia Neto admite que, até aparecerem os primeiros casos de COVID-19 em Portugal, o vírus lhe «passava um bocadinho ao lado». Depois de dois rapazes, Eduarda era a peça do puzzle que faltava a esta família. «Foi uma gravidez muito desejada e tranquila, sem vómitos, nem enjoos, até chegar a COVID. Aí foi quando comecei a ficar com medo», recorda.

Apesar do receio constante de que alguma coisa de mau pudesse acontecer, tentou sempre «não entrar muito em stress» e levar a vida da forma mais natural possível. Na sua ótica, esta maneira de olhar para o problema, que a todos tem afetado, poderá estar relacionada com o facto de ser auxiliar de saúde e de necessariamente ter que «lidar com muita coisa». Para isso e uma vez que o marido esteve sempre a trabalhar, contou com o apoio imprescindível da prima que, entre outras coisas, lhe ia buscar as compras ao supermercado, uma vez que o avançado estado de gestação a impedia de conduzir.

Passados 15 dias do seu nascimento, Eduarda é hoje uma «bebé calma e que apenas chora para avisar que tem fome». Neste período, Nádia Neto tem contado com o apoio essencial da sua mãe para auxiliar nas tarefas domésticas e que acaba por lá pernoitar. «Com três homens em casa não é fácil», refere, entre risos.