Peão, torre, cavalo, bispo, rainha e rei – 32 peças, 16 para cada jogador. Um tabuleiro e também um objetivo: os jogadores procuram fazer xeque-mate ao rei do adversário. Falamos de xadrez. Parece fácil? Mas não é. Dizem os entendidos que é um jogo onde a estratégia é fundamental. Os factos históricos conhecidos sobre o xadrez dizem que este jogo de tabuleiro surgiu na Índia e os primeiros registos literários sobre o jogo datam do século VI. E se durante algum tempo este foi “mais um” jogo, em 2020 passou a ser “o jogo” do momento, tudo por causa da série da Netflix, Gambito de Dama que conta a história de uma enigmática super-jogadora de xadrez.

Elizabeth Harmon, nome desta personagem, diz, a certa altura que «o xadrez nem sempre é competitivo, pode ser lindo». Esta série e talvez o espírito destas personagens foi uma das motivações para que Miguel Ferraria “levasse” o xadrez para o café da sua mãe, Manuela Ferraria. O Amigos do Tasco, na Ribeira de Cima já era ponto de paragem para muitos vizinhos, pessoas de passagem e colegas de longa data, mas esta foi uma forma de o passar a ser, ainda mais, de uma forma vincada. «Tudo começou na passagem de ano do ano passado, quando vimos a série. A minha namorada não sabia jogar, eu conhecia as regras minimamente. Começámos a jogar, ela ganhou interesse, eu também e ao início começámos por jogar numa aplicação do telemóvel», explica Miguel Ferraria. Depois, as coisas foram escalando naturalmente. «Convenci o meu irmão, o meu tio e outros colegas e conhecidos daqui a jogar, muitos deles que já sabiam», recorda. Se ao início jogavam num tabuleiro «muito “pequenino”», com o aprimorar da “jogatana”, aprimoram-se as condições. «Um dos jogadores vê um bocadinho mal e quando queria mexer uma peça, mexia duas ou três, decidi então comprar um xadrez maior. Começou cada vez mais a aparecer um e outro jogador e juntou-se um grupo engraçado», conta, entre risos.

Mais habituados a ver nos cafés um jogo de setas ou de cartas (principalmente a sueca), se calhar foi por isso que a proprietária do café não acreditou logo que o xadrez ia conquistar os seus clientes. «Pensei que era uma brincadeira, que duraria uma semana ou pouco mais, era “fogo de vista”», lembra. A verdade é que a “brincadeira” prolongou-se «pelo verão todo» e isso levou a que se criasse um torneio. A ideia foi do outro filho de Manuela, Igor Ferraria. Open de Inverno – é este o nome da competição amigável que no fundo é para «dar aso às picardias» entre jogadores, admite Miguel Ferraria acrescentando que «jogar por jogar não tem tanta graça». A mãe e o filho contam que se geram discussões «muito engraçadas» entre os jogadores, principalmente entre quem está “na bancada”: «Às vezes estão umas sete ou oito pessoas a ver possíveis jogadas que os dois que estão a jogar não estão a ver e começam a dizer “devias ter jogado para ali”. Supostamente não se pode falar mas acaba sempre por falar».

Neste torneio todos vão jogar contra todos três vezes: a vitória é um ponto, o empate meio ponto e, naturalmente, a derrota não acrescenta qualquer ponto. Todos terão direito a um troféu de participação e o vencedor a um troféu um pouco maior.

Não há prazo para acabar o torneio porque os jogos vão se realizando tendo em conta a disponibilidade dos jogadores. A “hora de ponta” no café é a partir das 18 horas depois das pessoas saírem do trabalho. «O objetivo principal nunca foi o xadrez, é quase uma desculpa. Eu gosto muito de jogar computador e quando saía do trabalho ia para casa jogar. Assim é uma “desculpa” para passar aqui, jogar xadrez, conversar e beber uma mini», explica Miguel Ferraria.

A caminho podem estar também os torneios de sueca, mas tanto Manuela como Miguel querem que o Amigos do Tasco passe a ser conhecido pelo café onde se joga xadrez e assim atrair outras pessoas. «Há cada vez mais pessoas a dizerem-me que sabem e que gostam de jogar, por isso de certeza que vamos continuar com o xadrez», garante o jovem. Por sua vez, um dos objetivos da proprietária é aliar aos torneios, os petiscos, juntando o útil ao agradável.

Afinal quem é o melhor jogador?

Perguntámos quem era o melhor jogador e o nome de Miguel Ferraria foi mencionado, justificado também pelo facto de ser, neste momento, o líder do torneio. Há quem não concorde. «Sou o melhor jogador, isso não há dúvidas», garante Raimundo Palmeira entre risos. Natural da Ribeira de Cima e habitual cliente, acredita que esta é «uma iniciativa muito boa»: «Passamos aqui umas horas boas a jogar e a competição ajuda, uma pessoa motiva-se mais».

Ricardo Ferraria não está a competir no torneio, mas é uma das pessoas que tem jogado xadrez desde que chegou ao Amigos do Tasco. «No meu caso só sabia as regras, mas achei interessante [a ideia de trazer o xadrez para o café] por ser um jogo que requer alguma inteligência, não é como o jogo das damas. Achei engraçado pessoal novo dedicar-se tanto e pesquisar na internet jogadas para, eles próprios, desenvolverem as suas capacidades para jogar este jogo», frisa. Para o facto de estar fora da “competição”, aponta, em jeito de brincadeira, o motivo: «Foi receio da competição porque quando eu me dedico a algo é mesmo para ganhar».

Ambos os jogadores acreditam que este pode ser um chamariz para trazer mais pessoas ao café e fazer crescer o torneio. «Acho que é um nicho de mercado a ser explorado até, porque se calhar há mais gente que até gosta de xadrez mas que não tinham com quem jogar e que ainda não sabem que há um sítio de convívio onde têm colegas para jogar», acredita Ricardo Ferraria. Já Raimundo Palmeira diz que era bom que viesse mais gente para dar alguma luta», porque até agora não tem tido competição que lhe faça xeque-mate.