Quando o badalo do sino da igreja do Juncal fez soar as 19 horas, no passado dia 30 de maio, já vários fiéis aguardavam ansiosos por voltar a atravessar as portas da “casa” de Deus. Um momento há muito esperado, depois de mais de dois meses em que as missas estiveram suspensas devido à propagação do novo coronavírus e em que o acompanhamento das celebrações ficou restringido às novas tecnologias. Foi o caso de Filomena Martins, de 67 anos, natural do Juncal. «Voltar à igreja foi muito bom porque para quem tem, habitualmente, prática religiosa é um pouco estranho assistir às celebrações através da Internet ou da televisão», sublinha.

Envergando máscaras de proteção, conscientes do distanciamento social e de pequenas alterações no decorrer da celebração, dezenas de crentes quiseram estar presentes no regresso das cerimónias comunitárias, depois de o Governo ter autorizado o seu restabelecimento. Apesar das regras estarem bem definidas e da devoção a Deus ser grande, o medo e receio de possíveis contágios continuam a toldar a confiança no seio da comunidade: mesmo com a lotação reduzida a 50 pessoas, ninguém ficou à porta da igreja de São Miguel, no Juncal.

Uma hora e 15 minutos depois, começava a missa na igreja das Pedreiras, que hoje está limitada a 75 pessoas e que nesse dia deveria ter «cerca de 40». «Assim que passei as portas de igreja, senti-me bem e em paz. Nós, na igreja, estamos mesmo a participar, não é a mesma coisa que pela televisão», desabafa Rosário Vazão, de 52 anos. «Uma alegria», é desta forma que resume o regresso à igreja. Assim que chegaram, todos os fiéis, munidos de máscaras, tiveram que desinfetar as mãos e foram encaminhados por uma equipa de acolhimento para os respetivos lugares. «Foi pedido que se sentassem de cima para baixo, para encherem os lugares. Assim, a equipa que depois limpou a igreja no fim da missa só precisou de desinfetar os bancos que tinham sido preenchidos», conta.

Ainda antes do início da Eucaristia, o padre António Cardoso fez questão de recordar as novas regras que deviam de ser tidas em conta durante a celebração. Por isso, no momento da comunhão, que anteriormente era recebida, por muitos fiéis, na boca, já toda a gente sabia que agora seria dada exclusivamente na mão. «Antes de comungarmos desinfetamos a mão, depois tiramos a máscara de um lado e comungamos pela nossa mão. Não dizemos “ámen” e o senhor padre também não diz nada», explica Rosário Vazão. Depois disso, segue-se novamente uma desinfeção das mãos, a colocação da máscara e cada um segue para o seu lugar, de acordo com os circuitos marcados no chão.

Mas as novas alterações não se ficam apenas pela comunhão e acompanham toda a celebração. Se anteriormente, as leituras eram feitas por duas pessoas, hoje essa ação resume-se a apenas uma, que, no fim, desinfeta o ambão para que o «senhor padre possa continuar a ler o Evangelho». Durante toda a missa, o pároco utiliza máscara, à exceção de quando está no altar-mor. Também os elementos do coro fazem uso da mesma e são eles que cantam o salmo.

Com igrejas pequenas, a solução passa por missas drive-in

Nas restantes paróquias do concelho, também as missas voltaram, no final do mês, às várias igrejas, à exceção de uma: a paróquia de Porto de Mós que optou por fazê-las em formato drive-in em três pontos distintos, conforme anunciou através de uma publicação na página de Facebook. Quer isto dizer que as celebrações são feitas nesses lugares com as pessoas a assistirem dentro ou junto das viaturas. Caso alguém não tenha automóvel, refere a nota, «deve providenciar e respeitar as mesmas normas sanitárias e providenciar assento e local conveniente à participação na Eucaristia» e foi isso que aconteceu.

Em declarações a O Portomosense, o padre José Alves explicou que a razão que esteve na origem da celebração das missas de uma forma mais alternativa se deveu à pequena dimensão das igrejas da sua paróquia. «As nossas igrejas são extremamente pequenas e tendo em conta o número de pessoas que habitualmente iam à missa seria quase impossível controlar quem iria participar», explica. O sacerdote garantiu que, pelo menos, até dia 29 de junho, altura em que será feita uma reavaliação da situação da pandemia, as missas vão ser celebradas nesses moldes aos sábados, pelas 20h30, no largo da capela do Bom Sucesso, aos domingos, às 9h30, em frente ao edifício do Centro Cultural Recreativo Dom Fuas, na Fonte do Oleiro, e uma hora e meia depois, na Santa Casa da Misericórdia, em Porto de Mós.
Para Rosário Saldanha, de 65 anos, a primeira vez que assistiu a uma missa drive-in, foi no passado dia 31.

Faltavam cinco minutos para as 11 horas quando chegou ao largo da Santa Casa da Misericórdia de Porto de Mós. À sua volta estavam cerca de 30 a 40 viaturas com fiéis, uns no interior, outros juntos às mesmas, que, de máscara, aguardavam o início da missa dominical. Também ela chegou de carro e aí permaneceu até à comunhão. Nessa altura, admite que se ajoelhou «como se estivesse na missa» e foi, precisamente, o momento de receber a comunhão, em que o sacerdote a levava junto dos carros, o que mais emoção lhe causou. «Quem é católico praticante já estava ansioso por receber a comunhão. Comungar com Cristo era aquilo de que sentíamos mais falta porque ficamos mais ligados a Jesus. Sou uma pessoa de fé e esperança, e por isso, arrepiei-me toda no momento em que senti o espírito a entrar em mim», sublinha.

Durante o tempo em que não houve missas presenciais, o acompanhamento das celebrações foi feito pela televisão mas garante que «não é a mesma coisa»: «Estou sentada no sofá com as pernas levantadas porque tenho má circulação e, às vezes o meu neto chama-me ou toca o telefone da minha filha. Lá não. Estamos dedicados e com outra finalidade. Ouvimos mais a leitura da Bíblia e temos outro sentido, outro chamamento de Deus», frisa.

Jéssica Silva | texto
Paróquia do Juncal | foto
Isidro Bento | foto
Iolanda Nunes