«Não tem sido fácil», é a expressão mais utilizada por quem viu as rotinas familiares viradas do avesso, por consequência da pandemia de COVID-19. Por esse país fora, são milhares as famílias que há semanas se encontram confinadas em casa e que tiveram que aprender a viver com esta nova realidade. Entre teletrabalho, apoio aos filhos e tarefas domésticas há que encontrar estratégias para que o quotidiano seja o menos desgastante possível.

Operária fabril, Daniela Pedroso, de 42 anos, está hoje em casa a tomar conta dos três filhos: Joaquim, Alice e Francisco, com 10, 8 e 4 anos, respetivamente. O arranque do 3.º período, complementado com as emissões do #EstudoEmCasa tem sido um desafio constante no seio desta família de Alvados. «O mais pequeno, às 9 horas, tem aulas na RTP2 e à mesma hora a Alice, que anda no 2.º ano, tem aulas na RTP Memória. Por acaso tenho duas televisões, mas como é que vou conseguir ajudar os dois ao mesmo tempo?», questiona.

As aulas presenciais deram lugar ao ensino à distância e as novas tecnologias passaram a ser imprescindíveis, apanhando quase todos desprevenidos. «Só tenho um computador e fui comprá-lo a correr, porque o que tinha era muito velho e lembrou-se de avariar mesmo agora», conta. Mesmo assim, parece ser insuficiente, face à quantidade de trabalhos que Joaquim e Alice têm de realizar. No entanto, adquirir outro é uma decisão que está em segundo plano: «Já comprei este, não estava a fazer conta de comprar outro mas era o que precisava».

Com a «felicidade» de ter uma casa com jardim e quintal, Daniela Pedroso refere que além das tarefas escolares há ainda espaço para brincadeiras na rua com a bicicleta, patins ou no baloiço. Contudo, estipula um limite que parece sempre demasiado curto aos olhos das crianças. Apesar do esforço constante para trazer alguma normalidade às rotinas, a tarefa revela-se árdua: «Nós tentamos impor horários mas é um bocado difícil porque estão em casa onde há sempre distrações que na escola não têm», justifica.

Também Paula Cordeiro, de 44 anos, enfrenta vários desafios na sua rotina. «Professora de alma e coração», como se intitula, há mais de 18 anos no Instituto Educativo do Juncal, hoje divide o seu tempo entre lecionar aulas de Português e Espanhol à distância e dar apoio ao seu filho, Manuel, de 11 anos, sem descurar as tarefas domésticas.

«Um caos», é desta forma que descreve as primeiras duas semanas de isolamento em casa, porque «ninguém estava habituado a este tipo de ensino». Hoje em dia, a professora faz um balanço «muito positivo» da implementação desta nova forma de ensinar, apesar de reconhecer que teve que alterar a maneira de trabalhar. «São aulas completamente diferentes do que estava habituada, eu gostava muito do contacto com os alunos», refere.

Embora esteja diante do computador durante «muitas horas», tenta ainda dar apoio ao filho que está no 6.º ano. «Apesar de ele não gostar muito que eu o ajude e eu também não, há disciplinas às quais posso ajudar», afirma. Tendo consciência que o telemóvel e a televisão são um fator de «distração imenso», Paula Cordeiro garante que é flexível no que aos tempos livres diz respeito, desde que o filho tenha as tarefas cumpridas.

A acrescentar ao trabalho e auxílio ao filho, junta-se ainda a gestão das lides domésticas, uma tarefa nem sempre fácil. «Tem-me custado um bocadinho fazer as compras porque tenho estado muito tempo em casa. Há sempre algumas coisas que ficam por fazer, como limpezas, mas isso é se calhar o que menos importa», refere.

Sabendo que o confinamento pode ser sinónimo da inexistência de regras, ainda assim, Paula Cordeiro, faz questão que sejam cumpridas. «Tento que ele respeite as refeições, porque é um momento em que se promove o diálogo», garante. Ao final do dia, mãe e filho costumam fazer caminhadas nos pinhais em redor da habitação. «É uma maneira de sairmos de casa, sem contactarmos com mais ninguém», adianta.