A eventual atribuição do nome de Nuno Álvares Pereira à renovada Escola Secundária de Porto de Mós leva-me a uma reflexão que vai além da designação propriamente dita. Estou um pouco dividido em relação a essa escolha e nem tem a ver com o facto de no país encontrarmos desde escolas básicas, preparatórias e, pelo menos, um agrupamento com o mesmo nome ou “similar”.
Pela importância que a Batalha de Aljubarrota ou Batalha Real teve não só como episódio histórico mas por tudo aquilo que representou para Portugal, e nela, a figura de Nuno Álvares Pereira, penso que só por aí seria uma boa justificação mas a verdade é que como portomosenses falamos pouco do “Condestável”. Aliás, fala-se muito mais do Condestável, clube “lendário” de São Jorge, que do Condestável guerreiro, herói de Aljubarrota e, para os católicos, agora santo. Diz mais a um portomosense, D. Fuas Roupinho, personagem histórico de quem não se sabe muito, havendo, inclusive, alguns (poucos) que o preferem ver mais como lenda, que D. Nuno Álvares Pereira, de quem se sabe tanto.
Não sei se será possível recuperar nomes já usados anteriormente mas para mim fazia sentido pensar-se também no incontornável D. Fuas Roupinho e em Manuel de Oliveira Perpétua. O primeiro por dizer muito aos portomosenses e o segundo pela ação direta que teve na abertura das portas da aprendizagem, do conhecimento e da cultura, a tantos jovens desta terra que, de outra forma, muito dificilmente conseguiriam chegar lá. Professores, médicos, engenheiros e tantos outros profissionais de valor nas mais variadas áreas que se o são muito a ele devem porque sem meios para pagar os estudos dificilmente conseguiriam chegar onde chegaram (e alguns, como é público, chegaram bem longe, seja a nível nacional, seja como profissionais de referência nas suas áreas de especialização tendo ocupado ou ainda a ocupar cargos de relevo).
Qualquer que seja a escolha, acho fundamental que à boleia da atribuição do nome à escola, se aproveite depois para “transferir” ou recordar conhecimento. Que esse seja o mote para se voltar a falar da personalidade escolhida, quer em iniciativas a desenvolver no ano de atribuição, se ainda se for a tempo, quer no futuro e sob as mais diversas formas. Agora o que não faz sentido é atribuir o nome de alguém a algo e não se explicar às pessoas quem é que foi e a importância que teve a nível local, regional e/ou nacional. O CIBA é um excelente lugar para se ouvir falar de D. Nuno Álvares Pereira (se for o escolhido para patrono) e fá-lo muito bem mas será sempre pouco se se ficar apenas por aí. Se viermos a ter uma escola denominada D. Nuno Álvares Pereira tanto a comunidade escolar como a portomosense em geral têm de saber muito bem quem foi esta pessoa, senão, será quase, só mais um nome…
A terminar não resisto a uma nota. É cada vez mais comum e desconfio que a situação não tenderá a alterar-se, depararmo-nos com decisões de fundo tomadas apenas por um grupo restrito de pessoas embora possam estar totalmente legitimadas para o efeito. Para mim, pelo papel simbólico e real que a ESCOLA tem numa comunidade, faria sentido que antes do Conselho Geral, do Agrupamento de Escolas, do Município ou de quem tiver poderes para sugerir à tutela o nome de um patrono, a discussão fosse aberta, mesmo que de modo informal, à comunidade local. Há decisões que o poder autárquico ou “institucional” só tem a ganhar se as partilhar ou, pelo menos, discutir, previamente, com todos, sem prescindir de ter, naturalmente, a última palavra.


