[email protected]: Avaliação do risco nutricional de utentes idosos em serviço de apoio domiciliário da região Centro – este é o nome de um estudo feito em 2019 pela nutricionista Matilde Silva e que foi posteriormente apresentado no congresso Envelhecimento como um Todo– Ageing congresso 2020 promovido pela Associação Nacional de Gerontologia Social. Por si só, este estudo é de interesse geral, mas para o concelho é por uma razão especial, uma vez que foi feito em parceria com Centro de Apoio Social Serra D’Aire e Candeeiros (CASSAC), avaliando os utentes da instituição. «Este estudo surgiu no âmbito do meu estágio profissional de acesso à profissão feito no CASSAC», explica Matilde Silva que ainda hoje trabalha na instituição. «Consistiu em avaliar o risco de desnutrição dos idosos. Agendámos visitas domiciliárias em parceria com o cuidadores ou familiares e fizemos questionários que avaliam uma série de fatores», acrescenta ainda a nutricionista. Ao contrário do que se possa pensar, estes fatores não se ficam apenas pela parte da alimentação: «A idade, doença prolongada, condições progressivas crónicas (por exemplo demências), fatores sociais (pobreza, isolamento social), fatores físicos (locomoção, mastigar e engolir, perda de cheiro, incapacidade de cozinhar)», são aspetos tidos em conta. Depois de recolhidos e analisados, estes dados permitiram obter um score (pontuação) que permitia perceber, então, o risco de desnutrição do utente.

Os estudos deste género «eram escassos na altura» e por isso Matilde Silva não tinha «meios de comparação» dos resultados. Ainda assim, a nutricionista revela que 48% dos utentes estavam «sob risco de desnutrição». Embora estes utentes sejam acompanhados pelo CASSAC, há muitas nuances que escapam à instituição. «É preciso ter em conta que o estudo foi feito num contexto de serviço domiciliário, há muitas outras refeições ao longo do dia que não conseguimos controlar, ou seja, estes resultados não podem ser equiparados a um resultado de um hospital ou de um lar onde as pessoas passam 24 sobre 24 horas e têm um acompanhamento permanente», frisa. Também a diretora técnica da instituição, Margarida Pires, reforça a ideia: «A Matilde avaliou todos os nossos utentes, mesmo aqueles que a alimentação não era da nossa responsabilidade. Existem os utentes que têm alimentação fornecida por nós, a ementa é feita pela nutricionista e confecionada por pessoal da instituição. Há utentes que são autónomos na toma das refeições, que inclui almoço e jantar como principal. Depois, há utentes que não têm este serviço das refeições connosco», explica. O facto de alguns utentes serem autónomos na toma das refeições não permite ter a «a garantia que o utente comeu exatamente aquilo que é deixado da maneira certa». «Há utentes que ajudamos no almoço mas não ajudamos no jantar, acabamos por não saber se ao jantar comeram tudo certinho, se deixaram a sopa, se deixaram os legumes, se não acrescentaram sal, etc…», refere Margarida Pires.

Planos personalizados e mutáveis

Combater «a margem de erro», sensibilizar os idosos para a importância de uma alimentação equilibrada, ter planos adaptados foi, não só o objetivo do estudo como este como também a razão pela qual Margarida Pires considera importante ter uma nutricionista a trabalhar no CASSAC. O estudo que Matilde Silva fez é o reflexo do que procura fazer todos os dias na instituição, «avaliar e perceber as necessidades dos utentes», porque as realidades dos utentes vão mudando e é preciso «ir adaptando os planos alimentares» ao novos contextos. Mas com base no exemplo do estudo que fez, como definiu as estratégias a adotar na alimentação dos utentes? «Com os resultados obtivemos então o score, os utentes que tiveram os maiores scores foram os primeiros onde interviemos, nomeadamente os utentes acamados, fazendo planos personalizados», recorda. A partir desse momento têm vindo a ser feitas avaliações e adaptações conforme necessário, nomeadamente algumas mais genéricas: «A diminuição de sal na cozinha, o aumento do consumo de legumes e hortícolas». «Ultimamente até tenho usado cores nos planos para facilitar na cozinha, também temos esse papel, ajudar a que tudo corra bem na cozinha, porque temos de fazer a gestão de várias dietas e garantir que são cumpridas. A forma como empratamos e comunicamos com o utente também vai ser muito importante para a sua fase de gestão de refeição», salienta Matilde Silva.

«Acho que o estudo foi muito importante até porque a nível científico foi reconhecido. Foi um reconhecimento da Matilde e nosso também porque aceitámos fazer o trabalho, para podermos definir por onde vamos, o que podemos fazer melhor, onde é que precisamos intervir da educação para a saúde, para a nutrição», refere a diretora técnica.
Margarida Pires considera que a nutricionista é uma mais-valia na instituição a vários níveis: «Permitem garantir a segurança e qualidade alimentar»; «ter a consciência de que o CASSAC tem uma ementa que cumpre todos os requisitos, porque existem normativos na elaboração de uma ementa»; «permite ter uma equipa multidisplinar em cada área para dar o seu contributo e no fundo melhorar o serviço no geral», salienta. «Se eu posso prestar mais e melhor serviço aos utentes, se posso ter fichas técnicas adequadas que a cozinheira pode solicitar sempre que tenha uma dúvida, que eu posso enviar para o utente para poder verificar o que está a comer, quais a calorias, claro que o farei», acrescenta.

Tanto a nutricionista como a diretora técnica acreditam que o futuro passa cada vez mais «por antecipar problemas através da alimentação que é a base de tudo». «Ainda existem muitos mitos associados à alimentação, nomeadamente o não existirem refeições entre as refeições principais e a Matilde iniciou esse trabalho, de explicar os benefícios deste tipo de coisas», explica Margarida Pires. «Agora não teremos muitos, mas tínhamos utentes, sobretudo na fase de admissão que não comiam sopa, ou comiam mas comiam sopa com carne e era o único prato que faziam. Os utentes perceberem que têm uma sopa, têm o segundo com uma composição adequada e depois têm a fruta, tudo isso não era para eles a prática habitual», frisa. «Acho que o resultado tem sido muito positivo, seja para os utentes como internamente para a instituição mas é um trabalho que nunca acaba. Hoje um plano é adequado, amanhã se o utente tem um problema de saúde já não permite que o plano seja desta forma, mas a ideia é continuar sempre a fazer este caminho», conclui Margarida Pires.