Foto: Isidro Bento

«Cerca de metade da população escolar com dificuldades educativas especiais tem dificuldades de aprendizagem mas, apesar disso o problema continua a não ter a atenção que merece». A denúncia foi feita por Vítor Cruz, professor da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, no âmbito das III Jornadas promovidas pelo Gabinete de Apoio à Família e Comunidade, da Associação Serviço e Socorro Voluntário de São Jorge, que tiveram lugar a 13 de outubro.

«Estas crianças continuam a ser marginalizadas, apresentadas como desatentas e acusadas de não se esforçarem, quando, no fundo, estão a fazer muito mais que os outros para aprender mas como não o estão a conseguir e o esforço não é reconhecido, isso gera desmotivação», disse o especialista em educação especial.

Para Vítor Cruz, a biologia explica muita coisa mas não explica e tudo e daí que seja insuficiente justificar o insucesso escolar, unicamente por dificuldades de aprendizagem específicas (como dislexia ou déficit cognitivo). Por outro lado, é redutor atribuir culpas apenas «ao elo mais fraco» de uma cadeia em que entram também a escola e a família. Aliás, o aluno é, no seu entender, «o menos responsável de todos». «Se a criança não está a aprender isso não tem a ver só com ela, pode ser da forma como está a ser ensinada. Quando lhe apontamos o dedo e dizemos “tu não estás a aprender”, estamos recordados que temos, pelo menos, três dedos a apontar para nós? E tu, estás a ensinar? E como é que estás a ensinar?», questionou.

Do lado do aluno, um dos fatores que mais podem interferir é a motivação. «Está motivado para aprender? E se não está, qual a razão e como é que o motivamos? A motivação é como o código postal, meio caminho andado. Não garante mas é um princípio para que as coisas possam acontecer», disse.

A família é também outro elemento importante e o problema pode começar logo pela falta de recursos económicos. «Por vezes, os pais não vão mais longe, não porque não tenham cultura ou porque não saibam como ajudar, mas porque não têm dinheiro para pagar explicações aos filhos». O tempo de qualidade que pais e filhos passam juntos e os laços emocionais que criam entre si, a ligação da família com a escola e o valor que atribui a esta, acaba por contribuir para o sucesso ou o fracasso escolar, refere.

No entender de Vítor Cruz, o professor é também uma peça fundamental, se não a mais importante, nomeadamente pela metodologia de ensino que utiliza, o modo como faz a gestão da sala de aula, se tem em atenção a forma diferenciada como cada pessoa aprende, e como gere as suas expectativas em relação aos alunos. «Com frequência aparecem as profecias auto-realizáveis em que eu profetizo que aquele aluno não vai ser capaz e como tal não invisto nele e como não invisto, ele não é capaz e no final digo que já sabia que não iria conseguir», explicou, defendendo a necessidade dos professores passarem mais tempo com quem tem mais dificuldades. «Indicamos o não caminho mas não o caminho. Dizemos para não ir por aí mas não explicamos o porquê nem apontamos alternativas e muito menos incentivamos a criança a repetir quando faz algo de bem», exemplificou.

Outro aspeto importante é o que é ensinado. Assim, «devemos ensinar às crianças tudo o que há para ser ensinado ou ajudá-la a selecionar a informação que lhe pode ser útil?». O docente universitário disse, ainda, que os futuros professores aprendem algumas coisas que nunca vão ensinar mas pouco aprendem como ensinar, faltando mais pedagogia e didática na sua formação.
Em suma, «o aluno é o menos responsável pelo insucesso e, ao mesmo tempo, o mais prejudicado e na hora de encontrar responsáveis ninguém quer assumir a responsabilidade pelo insucesso, sendo mais fácil apontar para os outros», frisou.

Em jeito de sugestão, Vítor Cruz disse que é fundamental que os professores consigam identificar bem em que ponto da aprendizagem está a criança e onde era suposto estar. «Sabendo onde está, o que sabe fazer e quais as dificuldades, o passo seguinte é definir estratégias personalizadas para a ajudar a chegar ao ponto que se quer, sendo que o maior desafio é criar atividades que sejam desafiadoras mas exequíveis». O ideal seria termos «um alfaiate ou um pronto-a-vestir da Educação para que cada um tivesse uma resposta à sua medida», defendeu.

Os pais não se devem substituir aos filhos nas tarefas escolares

Outro dos oradores, Paulo Costa, psicólogo do serviço de Pediatria, do Hospital de Leiria, defendeu que, ao invés de se estimular a competição, «deve-se respeitar o ritmo de cada aluno e nunca cair no erro das generalizações ou comparações. O dizer a uma criança “tu és sempre um mau aluno” ou “nunca vais conseguir isto” é terrível». Deve-se encorajar o aluno a ter ideias, e elogiá-lo e não criticá-lo. Devemos promover a autoestima e a autoeficácia por via do esforço, afirmou. «No caso dos trabalhos escolares, os pais devem procurar ser mais espectadores que intervenientes. Ensinar a saber aceitar os erros e a aprender pela insistência e pela perseverança, são outras atitudes a ter. Os bons comportamentos devem ser estimulados e os maus alvo de retirada de privilégios e de repreensão para que as crianças percebam que há regras a cumprir e que não podem fazer tudo aquilo que querem. Os pais não devem, portanto, demitir-se da sua função de educar e é mportante também que não esqueçam que o exemplo é tudo.