Dia 4 de fevereiro, assinalou-se o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro. Atualmente, há quem considere que face aos novos casos que surgem todos os anos, esta pode ser vista como a “doença do século”. No entanto, é importante não esquecer que progressivamente, a taxa de sucesso tende a ser maior. Nesta página, O Portomosense procurou dar voz a dois testemunhos que possam, de alguma forma, servir de inspiração a alguém que tenha recebido o diagnóstico recentemente ou que já esteja nessa luta há mais tempo.

“O cancro veio à minha vida para me ensinar muitas coisas”

No dia 30 de março de 2016, Sónia Leirião recebeu o diagnóstico que ninguém deseja: tinha um carcinoma mamário triplo-negativo invasivo, um atípico cancro de mama, dos mais agressivos, que também invadiu a axila. É psicóloga clínica no Hospital de Leiria e foi precisamente lá que abriu o email que lhe viria a mudar a vida. «Chorei e gritei muito. Vim-me embora do serviço a chorar. De Leiria a Porto de Mós, chorei tudo o que havia para chorar», recorda. No dia anterior tinha assinado o divórcio. A certeza de que algo não estava bem, teve-a meses antes, durante a sua «palpação» semanal em que detetou um nódulo na mama esquerda. O passo seguinte foi realizar a mamografia e a ecografia mamária que confirmaram a sua suspeita.
O momento em que decidiu contar aos pais ficou marcado pela desvalorização do problema: «Eles disseram logo que me tinha enganado», refere Sónia Leirião. No seu entender, esta fase de negação deveu-se ao facto de já terem perdido uma filha com 20 anos, devido a um Linfoma de Hodgkin. «Para eles era muito difícil aceitarem aquilo como uma verdade e terem que passar por tudo outra vez», confessa.
Depois de transmitida a notícia, refugiou-se em casa: «Quis estar sozinha. Sentei-me e pensei: “Sónia, amanhã é outro dia. Levanta a cabeça e tudo vai correr bem”». Hoje, afirma: «O cancro veio à minha vida para me ensinar muitas coisas». Psicóloga há 19 anos, explica que não pode existir outra maneira de lidar com a doença: «Ou encaramos, ou encaramos. Não há meio termo», confessando que se ia sentir «uma fraude» se não colocasse em prática o que diz diariamente aos doentes.
Depois de saber os resultados das biópsias, seguiram-se seis ciclos de quimioterapia, uma cirurgia de mastectomia radical em que «tiraram a maminha esquerda» e um «esvaziamento axilar». «Se eu sobreviver à quimio, vou sobreviver ao resto», foi este pensamento que a norteou quando soube que teria de fazer quimioterapia. Ainda antes de iniciar os tratamentos e apesar de confessar que o cabelo «nunca a incomodou», Sónia Leirião decidiu cortá-lo para se «ir preparando a vê-lo curto». Um momento que partilhou com o filho, Simão, que também quis rapar.
Durante os sete meses que esteve fora do serviço, fazia caminhadas sozinha, lia muito, fazia meditação e tirou um curso de costura. À quinta-feira tinha aula de zumba, uma atividade que passou a coinciliar com os tratamentos: «Cheguei a vir da quimio e ir para o zumba. A professora chamava-me maluca», conta, justificando a atitude: «Se cansarmos o corpo, a oxigenação celular é mais rápida e a quimioterapia vai-se libertando do organismo com mais facilidade».

Viver com uma “espada em cima da cabeça”

Hoje com 43 anos, Sónia Leirião é o exemplo de alguém que soube retirar de uma experiência penosa, uma lição de vida. A psicóloga acredita que a «prevenção é a chave» e que a sua «sorte» foi ter detetado o problema a tempo. «Tinha um nódulo com 2,3 centímetros, que ao fim do primeiro tratamento já era do tamanho de um grão de areia», conta.
Aquando de uma consulta de risco-familiar, os testes revelaram que havia «grandes probabilidades» de aparecer um tumor na outra mama e/ou nos ovários. Perante isto, não pensou duas vezes: retirou a mama direita e os ovários. «Eu sei que há uma espada em cima da minha cabeça mas também sei que isso é apenas uma parte de mim. Eu sou muitas outras coisas», acredita. Quando se recebe um diagnóstico difícil, o importante é «reagir de forma positiva» e esse, é «meio caminho» para enfrentar a doença. Atualmente, é uma mulher que olha para a vida de uma forma mais descontraída. «O cancro é uma doença crónica que vai estar connosco para sempre, por isso temos que a integrar em nós», reflete.

“Quando soube que tinha um tumor, entrei em negação”

Para Bruno Rafael, de 43 anos, natural da Ribeira de Cima, a vida sofreu um revés em maio de 2014, quando lhe surgiu um «alto na virilha» e estava a trabalhar no Algarve. Apesar das dores nunca decidiu recorrer a um médico. Duas semanas depois, o incómodo manteve-se e por isso, deslocou-se às urgências. Lá, disseram-lhe que se tratava de uma hérnia inguinal e foi a «essa esperança» a que se agarrou quando foi ao médico. Depois de examinado, aconselharam-no a fazer uma ecografia. Bruno Rafael não desconfiava, mas essa consulta iria mudar a sua vida: «Quando o senhor começou a fazer a ecografia, deixou de falar de um momento para o outro», recorda.
Sem entender muito bem o que se estava a passar mas ciente que de alguma coisa «estaria a correr mal», Bruno Rafael voltou para o trabalho e regressou ao final do dia para recolher o exame. Ficou em «estado de choque» quando abriu e leu o que estava escrito: “possível massa tumoral”. «Estive três dias sem dizer nada, não contei a ninguém. Entrei em negação», confessa, acrescentando que «não queria acreditar que não fumando, nem bebendo bebidas alcoólicas pudesse vir a ter um tumor».
Depois de mais exames infrutíferos, em junho de 2014, através de uma biópsia, o diagnóstico final chegou: lipossarcoma mixóide dos tecidos moles. Passados três meses foi operado, em Lisboa, para a retirada do tumor mas a intervenção cirúrgica não correu como esperado: Danificaram o nervo femural, o que se traduziu na perda da sensibilidade desde a virilha até ao pé. «No dia seguinte, quando me mandaram colocar em pé, caí», recorda.

Um longo caminho para a recuperação

Sem imaginar os momentos conturbados pelos quais ainda teria que passar, Bruno Rafael fez 33 sessões de radioterapia. Desse período, tem as piores memórias e recorda o estado frágil em que se encontrava: «Ao fim de duas semanas, comecei a piorar bastante. As dores eram tantas que já não me conseguia levantar da maca», refere. Quando os médicos se aperceberam da gravidade da sua condição, encaminharam-o para um psicólogo e para um psiquiatra que diagnosticaram «depressão devido à dor».
Já foi intervencionado duas vezes devido a uma infeção. A primeira, para a colocação de drenos com o objetivo de retirar líquidos e a segunda porque o tecido estava em necrose. Hoje em dia, a vigilância é anual e feita através de um TAC. De seis em seis meses, tem que fazer massagens de drenagem linfática e pressoterapia para a retirada de líquidos porque a perna pode chegar a ter «mais oito quilos em relação à outra». De tudo com que teve que lidar, tirou uma lição: «A vida é muito curta. Hoje estamos cá mas amanhã já podemos não estar».