Catarina Correia Martins

O comodismo e o civismo

9 Ago 2022

Talvez em final do ano de 2020, acreditava-se que o mundo seria melhor, que a pandemia e os consequentes confinamentos trariam mais consciência às pessoas, torná-las-iam mais humanas, mais solidárias, mais atentas ao outro e mais compreensivas com os problemas alheios. Dizia-se que ia “ficar tudo bem” e ninguém sabia muito bem o que era esse “tudo”, mas era confortável acreditar que seria algo significativo. Hoje, tenho dúvidas que os movimentos como “caixas solidárias” ou outros que tais se repercutam no dia-a-dia das pessoas, questiono-me se, de facto, alguém ficou melhor com a pandemia, se ainda olhamos para dentro de nós ou se já só julgamos o exterior dos outros.

Toda esta reflexão inicial para falar de uma forma de desrespeito tão válida como qualquer outra. Se o comportamento de cada um ao volante refletir aquilo que é a essência da pessoa, então não aprendemos nada com a COVID-19. O comodismo continua a suplantar o civismo e se o lugar disponível está a mais de meia dúzia de metros, então o melhor mesmo é estacionar em segunda fila, num lugar destinado a pessoas com mobilidade reduzida, encostado a um portão, tudo sítios impróprios, porque “são só cinco minutos”, porque “é num instantinho”, porque “não está a estorvar”. Mas está. Porque naquele momento, pode haver alguém a atrasar-se para uma consulta, um tratamento, o trabalho ou a escola porque tem ocupado o lugar que lhe está destinado, porque as ambulâncias de transporte de doentes podem ter de perder cinco ou 10 minutos a apitar até que o dono do carro mal estacionado se digne a vir mudá-lo de lugar, porque em vez de passar tranquilamente, é preciso que cada condutor tenha de fazer manobras ou passar devagar, devagarinho para ter a certeza que conclui a viagem com o carro intacto e os dois espelhos retrovisores laterais no devido lugar.

O estacionamento é só um dos problemas. Os sinais de STOP obrigam a parar, os de cedência de passagem aconselham a abrandar e a avaliar a situação antes de avançar, o semáforo amarelo não indica que se deve acelerar para passar antes de chegar o vermelho… É por estas e por outras que, meia volta, há acidentes estúpidos e desnecessários.
Agora esperam-nos tempos um pouco mais calmos. Entrámos em agosto, há menos gente a trabalhar e nas escolas e por isso, normalmente, o trânsito acalma e os lugares de estacionamento vagos abundam. Vamos ver se, com essa condição, quem quer ir à estação dos correios, no centro da vila de Porto de Mós, se importa um pouco menos de estacionar a mais de três passos da porta e passa a parar o carro em lugares devidos.

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