Começam a surgir cada vez mais exemplos de pessoas que escolheram ou têm a possibilidade de trabalhar sem horário. Não têm um emprego das 9 às 18 horas como grande parte da sociedade e trabalham as horas necessárias em função do volume de trabalho. Isso não significa que trabalham menos horas, mas que adaptam os seus horários às tarefas e à vida pessoal. Muitas vezes não estão também dependentes de um local fixo para trabalhar e por isso, têm poder de escolha. Ana Paula Costa e Pedro Sereno são dois testemunhos disso mesmo.

Deixar uma carreira de 20 anos para trás

Ana Paula Costa era professora primária há 20 anos quando decidiu deixar esta carreira para se tornar distribuidora da FM World, uma empresa polaca de produtos de beleza e nutrição. Não é de Porto de Mós, mas há 16 anos que vive cá, na Calvaria de Cima, por questões pessoais e profissionais. Nos últimos anos de ensino foi professora no Juncal e apenas uma reviravolta na sua vida a fez abandonar esta profissão: «De há cinco anos para cá que fiquei sozinha com os meus filhos [depois do divórcio]. Sempre gostei muito daquilo que fazia, mas muitas vezes a felicidade também vem com a estabilidade financeira», frisa. A nível financeiro estava a ser difícil “aguentar o barco”, uma vez que ficou com as despesas que tinha enquanto casal, apensas centradas em si. «O projeto da FM já me tinha sido apresentado em 2014, mas na altura a minha situação financeira era confortável e por isso a possibilidade que me ofereceram, nessa altura, não fez sentido para mim. Só fez sentido quando a minha situação financeira também mudou».

Foi em 2017 que a antiga professora decidiu então mudar de profissão: «Ouvi a minha vizinha, que já me tinha aliciado para o negócio, a falar ao telemóvel sobre o projeto e pensei que tinha que saber exatamente o que era aquilo porque talvez fosse bom para mim». «Nesse mesmo dia ela explicou-me a oportunidade e eu identifiquei-me muito com aquilo que a empresa faz», recorda. Ainda esteve dois anos na escola, dividindo-se entre as duas atividades, mas sabia «que a uma determinada altura, com os objetivos que tinha, teria de optar». Esse momento chegou e começou a etapa em que era Ana Paula a responsável por definir os seus próprios horários e metas: «Não foi fácil quando fiquei em casa pela primeira vez e me vi com o tempo todo disponível. Eu já tinha a minha rotina e o meu tempo livre estipulado. Senti-me um bocadinho perdida», admite. No entanto, as coisas correram logo bem: «O negócio foi sempre crescendo». Apesar do embate inicial, Ana Paula Costa só vê «vantagens» em trabalhar assim: «É desafiante, porque passamos a ser donos do nosso tempo e a responsabilidade acresce mas é por ser desafiante que eu gosto. Crescemos a muitos níveis, criamos disciplina e organização», salienta. A empreendedora diz também que permite uma liberdade de escolha «incrível». «A qualquer hora podemos e devemos, por exemplo, ir beber café. Às vezes podemos descansar mais um bocadinho. Se gerirmos bem o tempo, conseguimos ter pausas», sublinha. Ana Paula Costa acredita que as pessoas «crescem uma vida inteira automatizadas» para um padrão de trabalho que obriga a cumprir um horário estipulado e que por isso nem «sempre percebem» esta opção. Não está «arrependida», admitindo mesmo que hoje tem «a vida que sempre» sonhou. Além de ter encontrado um emprego que lhe permite viver desafogadamente, encontrou também uma paixão: «Nós transformamos as vidas dos outros, aparecem-nos por exemplo situações muito graves de obesidade e nós mudamos a vida dessas pessoas. É muito gratificante». «Hoje é essa a minha missão, transformar a vida dos outros, quer seja em termos financeiros e de tempo, porque as pessoas ganham tempo quando deixam os seus empregos e se juntam a nós, quer seja pelos programas de perda de peso», conclui.

Adaptar o trabalho ao relógio biológico de cada um

Pedro Sereno também não é natural do concelho, mas é cá que vive desde 2016, com a sua mulher, natural de Porto de Mós. É licenciado em Gestão e tem um Master Business Administration (MBA), ou seja, é especializado em administração empresarial. Trabalhou em vários ramos da indústria, desde as bebidas aos brinquedos e admite que, fruto da área em que trabalha, nunca teve um verdadeiro trabalho, das 9 às 18 horas, até por estar dependente dos diferentes horários dos seus clientes. Atualmente, através da sua empresa unipessoal faz consultoria em gestão, sourcing e trading, o que “trocando por miúdos” e de uma forma simplista, significa que Pedro Sereno ajuda os seus clientes «a avaliar e a gerir os seus gastos e a planear de uma forma estruturada os passos dados para atingir uma eficiência financeira, além de assumir a procura de materiais/fornecedores e de novos canais de distribuição».

Tem clientes em todo o mundo e de diversos fusos horários e por isso, encontra «muitas vantagens» no trabalho deslocalizado em termos territoriais e sem horário. «Tenho clientes no Brasil, fornecedores na China, ambos com fusos horários diferentes. À meia-noite, hora local em Portugal, começam a trabalhar na China, em contrapartida acabam de trabalhar no Brasil às 22 horas de Portugal», exemplifica. A juntar a isto, o gestor invoca razões de ordem biológica: «Cada pessoa tem o seu ritmo biológico. Há tarefas que exigem maior concentração ou mais delicadas, tudo o que implica pensar estratégias, ser criativo, funciona melhor de acordo com o relógio biológico de cada um», salienta Pedro Sereno, que acredita que o timing de maior produtividade de cada pessoa deve ser respeitado. «A ideia é adaptar o trabalho à pessoa e a pessoa ao trabalho. É não vivermos acorrentados com um relógio, permitirmo-nos ter uma vida própria e familiar que é cada vez mais escassa. Se quisermos ir a um banco, não conseguimos se tivermos um trabalho das 9 às 18 horas. Se quisermos marcar uma consulta médica, estamos muito limitados», realça. Esta seria também uma forma de «atrair talento», diz Pedro Sereno, que acredita que certas pessoas que se recusam trabalhar em alguns locais por considerarem menos atrativos, poderiam aceitar trabalhar desta forma: deslocalizados.

Para conseguir trabalhar neste modelo e com sucesso, Pedro Sereno aponta algumas regras essenciais: «Exige criar objetivos que têm de ser métricos e bem quantificados, uma tremenda capacidade de adaptação e é fundamental que a pessoa saiba bem os deadlines, para criar os seus métodos». Estará Portugal preparado para esta forma de pensar o trabalho? «O nosso país e sobretudo o tecido empresarial ainda não estão preparados. Tem que haver uma forte ligação e grau de confiança entre o colaborador e a entidade patronal que não existe. Existe aquele culto do controlo, muitas vezes o controlo da hora do trabalho e não da qualidade», responde o gestor. Pedro Sereno acredita ainda que existe «um tremendo preconceito»: «Se estás a tomar um café com um amigo, que até pode ser um parceiro de negócios, às 15 horas num sítio público, surgem logo ondas de comentários. Se calhar as pessoas não sabem que a essa hora, a pessoa já trabalhou 10 ou 12 horas».

Este modelo de trabalho traz outra vantagem às empresas: «Se não podem dar um aumento a alguém, mas essa pessoa gasta 100 euros em gasolina, se lhe for reduzida a carga de trabalho presencial, está-se a aumentar o rendimento líquido da pessoa». Para quem trabalhe por conta de outrem, Pedro Sereno defende um sistema «híbrido»: «Por exemplo, em que a segunda-feira seja um dia presencial para definição de objetivos. Há coisas que na câmara não conseguimos ver: as reações, a linguagem não-verbal que permite avaliar o grau de comprometimento dos colaboradores», frisa. Nos outros dias, o escritório, seria “onde e quando o homem quisesse”.