A 21 de janeiro, o primeiro-ministro anunciava que as escolas fechavam portas no dia seguinte e pela segunda vez, milhares de crianças e adolescentes voltavam para casa de mochilas às costas. Apesar do ensino à distância continuar envolto em controvérsia, com muitos a duvidarem da sua eficácia e sabendo que as dificuldades são transversais a todos os níveis de ensino, quisemos perceber junto de duas educadoras de infância quais as dinâmicas que criaram para adaptarem as suas atividades a crianças com idades em que se pressupõe que sejam mais dependentes de terceiros.

Há 12 anos que Ana Pereira é educadora de infância na Associação de Apoio Infantil de Pedreiras (AAIP), uma creche «relativamente pequena» frequentada por 38 crianças, entre os 4 meses e os 3 anos. Com a instituição encerrada e mesmo estando em lay-off decidiu a «título pessoal», juntamente com duas colegas, manter a ligação com o seu grupo de meninos. «Nós fazêmo-lo porque consideramos que é importante e não porque nos tenha sido pedido ou exigido pela instituição», garante.

Ainda antes da chegada da pandemia, já todas as salas da AAIP tinham um grupo restrito de Facebook, onde os pais das crianças tinham acesso a fotografias e vídeos das atividades executadas no dia-a-dia. Agora, sem o contacto físico essa passou a ser principal ferramenta de comunicação. Porém, a educadora de 36 anos defende que é necessário manter o equilíbrio no uso das tecnologias: «Tentamos manter esta relação mas sem exagerar. Não queremos estar já a agarrar crianças tão pequeninas a toda a hora a um ecrã». É nesse grupo que vai lançando «desafios e brincadeiras», como gosta de lhes chamar, aos seus 18 meninos, com idades entre os 2 e os 3 anos e onde «quase todos participam», apesar de não haver carácter obrigatório. «Diariamente, gravo um vídeo a contar uma história e coloco lá. Uns veem, outros não porque nem sempre estão para aí virados», refere.

Além disso e apesar de estar ciente da dificuldade que é para alguns pais «gerirem tudo», todas as semanas lança uma «pequena atividade». «Aquilo que sugiro são sempre coisas na base do lúdico, em que as crianças desenvolvem as aprendizagens motoras, plásticas e dramáticas», explica. Ana Pereira admite que são as brincadeiras ao ar livre que mais privilegia porque, acredita, é aí que está a maior riqueza: «Brincar nas poças ou na lama, brincar com pedrinhas ou pauzinhos, todas essas coisas são muito mais importantes do que qualquer atividade direcionada».

Objetivo é “não perder o elo de ligação”

É no Jardim de Infância de Calvaria de Cima que podemos encontrar Esperança Macedo, de 61 anos, educadora de infância, onde é responsável por um grupo de 18 crianças, dos 3 aos 5 anos. Agora com o infantário fechado, conta, o contacto presencial foi substituído por chamadas telefónicas regulares: «Ligo para saber se está tudo bem. É muito importante que saibam que eu e a escola estamos sempre a pensar neles e que não há esquecimento».

Em cada semana existe um plano de trabalho, enviado por e-mail aos encarregados de educação, um procedimento que é transversal a todo o departamento de educação pré-escolar do concelho. Contudo, cada educadora tem uma página privada, onde coloca a atividade diária e que, garante, foi preparada com «todo o cuidado» para que «não haja constrangimentos» na participação, nem acarrete «acréscimo de despesas»: «São atividades muito simples, exequíveis em contexto familiar com materiais que possam existir em casa». A educadora faz um balanço positivo daquela que tem sido a adesão dos pais e, acredita, é bastante importante «dar valor» àquilo que vão fazendo e incentivando com «palavras positivas», apesar de saber que muitos acabam por deixar de participar.

Paralelamente, uma ou duas vezes por semana, são feitas sessões síncronas através de vídeochamada Zoom, para que «não se perca o elo de ligação da escola com as crianças». «Levo sempre preparada uma canção ou uma história, mas o mais importante é eles verem-nos», assegura. Ainda assim, Esperança Macedo não tem dúvidas de que «nada substitui a escola» e, considera, que «nestas idades é fundamental»: «A educação pré-escolar não é obrigatória, mas é muito importante na estruturação das crianças e das famílias», sublinha.