Com o regresso da velha ferramenta de transmissão de conhecimento, a telescola, agora denominada #EstudoEmCasa, O Portomosense procurou recordar a história da telescola do Alqueidão da Serra e, principalmente, ouvir as experiências e o sentir de quem lá exerceu boa parte da sua vida profissional, neste caso, o professor Carlos Vieira, e de quem ali fez 5.º e 6.º anos, aqui representado pelas antigas alunas, Ivone Rodrigues e Teresa Saragoça.

Quando aprender pela televisão era a única solução

Entre 1968 e 2004, a televisão teve um papel fulcral no processo de aprendizagem de «largas centenas de crianças» do Alqueidão da Serra. Era o tempo da telescola. Ao longo de décadas, a escola chegava em parte, através da caixinha mágica e permitiu que em todo o país milhares de crianças dos sítios mais recônditos completassem os 5.º e 6.º anos de escolaridade, o que de outra forma, dificilmente, conseguiriam fazer.

No concelho, Pedreiras e Juncal também ofereceram esta forma de ensino, no entanto, a telescola do Alqueidão da Serra foi a que se manteve durante mais tempo sendo das últimas, a nível nacional, a encerrar portas. Concebida graças a um esforço entre a paróquia e um grupo de pais, só nos anos 1970 é que passou para a alçada do Ministério da Educação, tornando-se num dos primeiros postos oficiais do país.

Com a sua entrada em funcionamento, não só existiu um rejuvenescimento no sistema de ensino como se assistiu a uma mudança de oportunidades. «Naquela altura, foi a única maneira de fazer chegar o ensino além do quarto ano, a todo o país. Caso contrário, não era possível», sublinha Carlos Vieira, professor da telescola durante mais de 30 anos, na área das letras.
Transmitidas na RTP2 para todo o país, entre as 14 e as 19 horas, as aulas, a preto e branco, duravam entre 25 a 30 minutos. Após a visualização, o professor acompanhava os alunos na realização de atividades. Havia normalmente dois professores, um da área de ciências e outro de letras que trocavam ao «intervalo da merenda». O resultado desta forma de ensino não poderia ter sido mais frutífero. «Os alunos interpretavam muito bem a mensagem porque os professores tinham uma linguagem muito acessível. Os alunos estavam muito atentos e dedicavam-se muito à escola», afirma.

Com a convicção de que, por causa da distância até à sede da freguesia, os alunos dos lugares em redor durante muito tempo «se ficavam pela quarta classe», Carlos Vieira sentiu que deveria de fazer alguma coisa para inverter esta realidade. Depois de mantido um diálogo com o Ministério da Educação, conseguiu implementar um sistema de transportes que trouxe inúmeras vantagens para a comunidade: «Os alunos da freguesia passaram a conhecer-se todos e acabaram as rivalidades. Houve um intercâmbio espetacular, porque cada um trazia os seus costumes, tradições e hábitos de falar. E isso enriqueceu-nos bastante», sublinha.

As inspeções regulares e a telescola do futuro

Carlos Vieira recorda que, na altura, os professores eram «altamente bem preparados para a função», sendo obrigados a participar em ações de formação a cada período. Além disso, era bastante comum terem um inspetor na sala a assistir às aulas, sem data ou hora marcada. Uma realidade que considera fazer «muita falta» hoje no ensino. «Éramos avaliados e chamados à atenção consoante isso», afirma, garantindo que não via essas ações de forma negativa: «Ajudava-nos imenso e puxava muito por nós».

Sobre o “ressuscitar” da telescola, Carlos Vieira sublinha a necessidade de poder contar com professores «muito competentes e bem preparados» que precisam de «saber descer às várias linguagens porque vão falar para um país inteiro». Mas não descarta a possibilidade de poder vir a ser uma boa experiência: «A telescola que, na altura, era um bocado desprestigiada e até de certo modo ridicularizada, afinal parece que resultou e poderá continuar a resultar, adaptando-se aos diferentes tempos e públicos», conclui.

Alunas que a telescola ajudou a instruir

Ivone Rodrigues, de 56 anos, natural do Alqueidão da Serra, é hoje professora do 1.º Ciclo. No entanto, têm ainda bem frescas as memórias do tempo em que ela própria estava a ser ensinada, com recurso à telescola. «Era como se fossemos uma família. Enquanto as aulas estavam a ser ministradas, o professor garantia que estávamos atentos e depois, ajudava-nos a consolidar os conteúdos», recorda.

Apesar da ideia pré-concebida existente na altura, de que os alunos vindos da telescola não iam tão bem preparados, a realidade revelou-se diferente. «Éramos crianças dedicadas e, hoje, a maioria são todos bons profissionais», refere. Quem partilha da mesma opinião, é Teresa Saragoça, 56 anos, também ela antiga aluna da telescola do Alqueidão da Serra. «Não havia diferença nenhuma entre os nossos e os resultados dos outros alunos, muito pelo contrário. Os alunos vindos da telescola tinham resultados muito bons», sublinha.

Hoje psicóloga escolar, Teresa Saragoça, salienta o papel do professor no processo educativo dos alunos. «Os meus professores eram excelentes, quer a nível da aprendizagem, quer da relação connosco. Esclareciam aquilo que aprendíamos através da televisão e fazíamos as tarefas propostas. Acho que era um complemento mais importante do que a própria aula da televisão», refere.

Velho recurso, novas abordagens

Questionada sobre a implementação da telescola para o próximo período, Ivone Rodrigues, não esconde várias interrogações: «Onde é que fica aqui o papel do professor? Quem é que vai consolidar esses conteúdos com as crianças?». Apesar de concordar que a telescola é a opção mais viável, a professora primária mostra-se pessimista, pois considera que é apenas uma forma de camuflar o problema.

Já Teresa Saragoça argumenta que nunca poderá ser a telescola nos moldes antigos, pois com o sistema de flexibilidade curricular, existem escolas vizinhas que podem ter parado em conteúdos diferentes. «O Ministério não pode dar os conteúdos ao mesmo tempo para toda a gente, é impossível», frisa.

«Uma espécie de telescola ao contrário, com os professores a darem trabalhos e a televisão a servir de complemento» é o modelo que defende e, por aquilo que se ficou a saber já depois da conversa com professor e antigas alunas, é provável que assim seja.