«Calculamos que a obra [de recuperação da Casa dos Calados, no Juncal] fique concluída daqui a um ano» e «o mais acautelado para podermos programar a inauguração é no primeiro trimestre de 2024», a informação foi dada pelo presidente da Câmara de Porto de Mós, Jorge Vala, ao final da manhã de hoje, depois de uma visita à obra, em que estiveram vereadores, o presidente da Junta de Freguesia do Juncal, arquitetos e representantes da empresa responsável pela empreitada. A obra foi adjudicada por cerca de 1,3 milhões de euros, mas o autarca frisa que os gastos, «com recurso apenas a capitais próprios do Município», ficarão «acima disso», já que, depois de concluída a remodelação, é necessário equipar todo o edifício. «O nosso grande objetivo é que a obra se concretize. Já aqui temos um bom princípio», salienta.


A Casa dos Calados passará, depois de concluída, a albergar «um conceito de residências artísticas, com inclusão de espaços de cowork e ateliês para ofícios, relacionados com a cerâmica e o junco […]. Serão, igualmente, recriadas atividades da antiga Real Fábrica do Juncal, bem como a realização de workshops que funcionarão em paralelo com uma biblioteca (mediateca) e um museu de louça e cerâmica. Está prevista, ainda, a construção de um FoodLab (laboratório alimentar) no antigo lagar. Será, também, criada uma sala ampla no edifício principal, designada de Salão Nobre, onde poderão ser realizados eventos e solenidades», referem documentos oficiais. O presidente da Câmara frisa que esta «é uma obra para o Juncal, mas que vai servir também o resto do concelho», já que se prevê que esteja «ligada àquilo que há de ser o centro tecnológico, ao FabLab, ao espaço de cowork, em Mira de Aire…». «É muito mais do que o espaço museológico, o que queremos trazer para o presente são as artes e as tradições do Juncal, dando-lhe um cunho de inovação», sublinha, acrescentando ainda que, «pelo menos numa primeira fase, o modelo de gestão caberá integralmente ao Município».

Jorge Vala lembra que este é um projeto que fez sempre parte dos seus planos e que acredita estar, com ele, «a criar oportunidades para os nossos jovens talentos poderem regressar à sua origem», salientando que «estes espaços não têm que existir apenas nos grandes centros urbanos». Relativamente à procura que um projeto desta dimensão pode ter, o autarca responde assertivo: «Se quisermos encontrar essa procura, temo-la. Em 2023, vai acontecer a segunda edição do Stone Art e vamos ter que encontrar soluções para os artistas que vêm para cá. Este seria um espaço ótimo, pelo menos para os artistas estrangeiros, a troco de fazerem outras coisas durante o tempo em que cá estão ou ficarem mais algum tempo», disse, a título de exemplo.

Arquiteto conhece história da casa

Um dos arquitetos responsáveis pela obra é Rafael Calado, um dos descendentes da família que deu nome à casa. O “guia” da visita começou por dizer que, para si, «foi um sofrimento ver a casa a degradar-se durante tanto tempo» – o edifício foi adquirido pelo Município em junho de 2002 –, mas terminou garantindo ser «muito satisfatório» não só ver aquilo em que a casa se tornará, mas também ter podido «contribuir» com o seu trabalho de arquiteto e com o que sabe «da história».

O arquiteto, atento e conhecedor das «várias camadas que a casa teve» – «a camada inicial da [Real] Fábrica [do Juncal], a camada histórica que foi a Revolução Francesa, que destruiu tudo; depois a parte agrícola e ainda a parte do abandono a que ficou», explicou, ao longo da visita, o que foi e o que será cada espaço, dando algumas notas de curiosidades históricas e garantindo que há pequenos apontamentos, quer na própria estrutura da casa, quer de objetos encontrados no edifício, que permanecerão depois de concluída toda a obra.

Rafael Calado, que nunca viveu na casa mas que diz ter passado lá temporadas, durante as férias, com a avó, mostra-se orgulhoso do trabalho que está a ser desenvolvido, sobretudo porque já considerava a casa «perdida»: «Pensei que com a venda ao Município, isto ia ser transformado numa coisa qualquer. Mas este projeto pode trazer uma vida fantástica. Há exemplos fantásticos de espaços como este, pela Europa fora», afirma. «Gostaria de ficar ligado à Casa, digamos que como conselheiro, de alguma maneira, continuando a contribuir, a dar ideias de projetos que podem ser aqui feitos», concluiu.

O diretor de obra, Jaime Coelho, que definiu também o trajeto da visita, durante a qual foi deixando algumas informações mais técnicas, salientou que a empresa responsável, Manuel Mateus Frazão, Lda., «tem procurado respeitar o mais possível todas as naturezas do conjunto edificado». «Este tipo de obras, e esta em particular, revela diariamente a necessidade de resolver problemas e adotar soluções técnicas que nem sempre são possíveis de preconizar na fase de projeto e para as quais tem que haver um empenho grande de todos os intervenientes – executantes, técnicos e responsáveis de decisão – para podermos, em conjunto, cumprir o objetivo», esclarece.

Fotos | Catarina Correia Martins