Desde o início do mês de dezembro que os novos casos de COVID-19 registados no concelho de Porto de Mós têm crescido a um ritmo acelerado. Mas será que esse aumento tem tido repercussões nos “soldados da paz”, que são também um dos inúmeros rostos que têm estado na linha da frente do combate à pandemia? A resposta é sim, embora a quantidade de infeções registadas, entre elementos das três corporações de bombeiros do concelho, seja residual como foi possível apurar junto dos comandantes que as representam.

Depois de meses a enfrentar o chamado inimigo invisível, a chegada do último mês do ano havia de trazer uma «preocupação acrescida» aos Bombeiros Voluntários de Porto de Mós: a confirmação de «três casos positivos», entre elementos profissionais da associação. Após ter sido descoberto o primeiro, os testes de despistagem efetuados a «todos os profissionais» acabaram por revelar que mais dois bombeiros estavam positivos para o novo coronavírus. O comandante, Elísio Pereira, admite que a partir do momento em que teve conhecimento do primeiro caso de COVID-19 e «ainda sem a saúde pública decretar» tomou a iniciativa de colocar em isolamento profilático «algumas pessoas» que tinham estado em «contacto direto» com os infetados. A rapidez na tomada de decisões, acredita, travou a existência de um maior número de casos: «Conseguimos identificar e estancar rapidamente os contactos próximos e automaticamente tomámos as medidas que nos pareceram mais adequadas».

Quinze dias depois do diagnóstico, os três elementos já foram considerados recuperados da doença. Agora tudo está «tranquilo e normalizado», garante o comandante dos Bombeiros Voluntários de Porto de Mós, ressalvando que, atendendo ao número de elementos que compõem o corpo profissional, 24, em comparação com os cinco profissionais que estiveram «ausentes» nessa altura, o socorro à população «nunca foi posto em causa». Apesar de estar ciente de que a situação de um momento para o outro poderá «inverter de sentido», Elísio Pereira mostra-se satisfeito com o comportamento dos elementos que, defende, têm sido exemplares no cumprimento das regras: «As pessoas têm esse rigor e os resultados estão à vista. De certo modo, estou descansado com a forma como tem corrido toda esta planificação».

Surto no lar da Cruz da Légua com efeitos nos bombeiros do Juncal

Mesmo com o «reforço da limpeza» e de «todos os cuidados» para impedir que a COVID-19 entrasse no corpo dos Bombeiros Voluntários do Juncal, o vírus SARS-CoV-2 acabaria por conseguir furar a barreira de proteção e infetar «três elementos» no início do mês de dezembro. «As infeções foram derivadas da cadeia de surto que houve no lar da Cruz da Légua», afirma o comandante da corporação, José Silva. O primeiro alerta foi dado por uma profissional quando comunicou que a mãe tinha testado positivo para a COVID-19. Seguiu-se uma ronda de testes, feita exclusivamente aos «elementos do quadro profissional» e cuja decisão é justificada por ser nesse setor onde teria existido uma «exposição de alto risco». «Nos voluntários isso não acontece porque não se cruzam», acrescenta.
O resultado da testagem revelou «três casos» positivos do novo coronavírus: dois elementos do quadro profissional e o terceiro, voluntário, «o marido da bombeira». Dois deles já se encontram ao serviço e o terceiro irá apresentar-se «dentro de dias». Apesar do susto, José Silva revela estar «tranquilo» por ter a consciência de que os casos positivos na associação se deveram a «situações exteriores» à corporação e que vieram a «apanhar elementos» que «por acaso são bombeiros». «Se fosse uma situação de dentro para fora, estaria preocupado porque isso significava que algo tinha falhado e que todos aqueles procedimentos e regras instituídas não tinham surtido efeito», confessa.

Corporação de Mira de Aire sem registo de qualquer caso positivo

Contrariamente às duas outras corporações do concelho de Porto de Mós, os Bombeiros Voluntários de Mira de Aire ainda não registaram qualquer infeção por COVID-19. «Felizmente, até hoje, não houve nenhum caso positivo. Tivemos seis elementos em isolamento profilático, uns devido a contacto com um utente positivo e outros por contacto com um caso positivo no seio familiar», refere o comandante, Hélder Gonçalves, adiantando que «todos testaram negativo». Mesmo com a redução de efetivos durante o período de quarentena, garante, o socorro à população nunca foi colocado em causa, «muito pelo contrário»: «Acabámos por dar algum apoio ao nossos colegas aqui da vila ao lado, Minde».
À semelhança dos restantes corpos de bombeiros, também os de Mira de Aire se viram obrigados a eliminar todos os serviços particulares considerados «não urgentes», passando a assegurar apenas «emergências e serviços inadiáveis», como é o caso das hemodiálises e dos tratamentos de doentes oncológicos. «Em cada chamada de socorro urgente, todos os serviços são realizados com Equipamento de Proteção Individual. Todo este material, mesmo que seja reutilizável é deitado fora. Não desinfetamos nada», revela Hélder Gonçalves.

 

Bombeiros já gastaram milhares em EPI

A redução de serviços a que acresce o investimento feito em Equipamentos de Proteção Individual (EPI) têm causado forte impacto nas associações de bombeiros. Desde o início da pandemia, os Bombeiros Voluntários de Porto de Mós tiveram uma quebra de receita «na ordem dos 60 mil euros», por causa do cancelamento de consultas e tratamentos. A piorar a situação está o gasto com proteções para a COVID-19, cuja fatura anda «à volta de 18 mil euros» e que tem acentuado a situação de vulnerabilidade da instituição. Porém, os «custos acrescidos» provocados pela pandemia não se ficam por aqui. Elísio Pereira explica que se anteriormente um carro com nove lugares poderia levar sete doentes e dois bombeiros, atualmente essa lotação ficou reduzida a 50%, o que motiva a que, por vezes, tenha que ir «um carro atrás do outro» para levar, por exemplo cinco doentes que antes transportariam em apenas uma viatura. A somar a isso, está a inflação de preços registada em algum tipo de material. «Antes da pandemia, comprava luvas a 1,80 euros e agora estou a comprá-las a 12 euros», revela.
«Quase que pagamos para trabalhar», reforça Hélder Gonçalves, frisando os custos que cada saída de emergência médica pressupõe: «No mínimo, gastamos 40 euros em material para equiparmos os dois bombeiros». Apesar dos valores «acentuados», o comandante da corporação de Mira de Aire, descarta a ideia de baixar a guarda: «Jamais poderemos descurar a segurança dos nossos bombeiros. Se o fizermos o profissional poderá contrair a COVID-19 e propagar a todo o corpo de bombeiros o que, por sua vez, poderá comprometer o socorro da população», lembra.