Os coachs, as trends e o peso das redes sociais

15 Janeiro 2026

Bem sei que a 15 de janeiro, escrever as palavras Natal, Ano Novo, prendas e época festiva já devia ser proibido, mas promete-vos que vou escrever algumas delas apenas como transição para outros tópicos. A verdade é que o mês de dezembro tanto pode ser maravilhoso, mágico (se assim o virmos, e é perfeitamente natural se assim não for), de espírito de união e… comida boa, como pode ser profundamente nostálgico, introspetivo, e até cansativo. Toda a logística que as “festas” implicam, a imposição do consumismo, que mesmo que lhe procuremos fugir sentimos sempre o seu impacto, as reuniões familiares que podem ser maravilhosas ou levantar fantasmas e questões adormecidas, a quase obrigatoriedade de ser e estar feliz, e que nos pesa muito. Há tanto em dezembro: a árvore de Natal, o Pai Natal, comprar os presentes, fazer listas de ingredientes para as refeições, etc etc… que quando chegamos a janeiro, por vezes, sobra-nos um vazio. 

Quem somos nós neste mundo se não partilharmos nas redes sociais a nossa mesa XPTO de Natal? Quem somos nós neste mundo se não fizermos 50 mil resoluções para o Ano Novo? Quem somos nós se não fizermos um balanço do que foi o nosso ano? Bem, eu acho que continuamos a ser humanos, com menos umas horas gastas nas redes sociais, e perfeitamente normais. Mas a verdade é que hoje em dia é muito fácil deixar de acreditar nisto. Somos bombardeados com estímulos, ideias, opiniões que não nos deixam tempo para sermos. Não há muito tempo, entre empregos, lides domésticas, ir buscar os filhos à escola, levá-los ao futebol ou outras mil atividades, tratar das burocracias e “berbicachos” que nos vão aparecendo, com mais umas horas de redes sociais por dia, para refletirmos: Quem sou eu no meio de todas estas ideias que recebo? O que me faz mesmo feliz? Que posicionamento quero tomar nesta questão? Será que eu tenho mesmo grandes resoluções ou quero tão simplesmente continuar o caminho? Mais grave: Por mais seguros que estejamos de algumas opções que tomamos, pomos-nos mais vezes em causa, porque somos profundamente invadidos por uma coisa tão humana como a comparação. Mesmo que ela venha de um sítio sem maldade, seja apenas pôr em perspetiva aquilo que queremos. Não, não temos todos casas brancas e beges, imaculadamente arrumadas, com uma luz radiante. 

As redes sociais têm muito de bom. Há partilhas de histórias bonitas, inspiradoras, sugestões úteis, partilha de conhecimento fidedigna. As redes sociais aproximaram as famílias e amigos que vivem longe. São um espaço onde podemos partilhar para comungar dos mesmos sentimentos que outras pessoas e isso pode ser incrível. Mas na medida que nos aproximam, também nos podem afastar. Se lhes dermos peso de vida real. Se não percebermos que alguma romantização da vida que por lá encontramos e que é muito necessária, e que eu acredito que deve ser constante para viver, tem de permitir espaço para amar as pequenas rotinas não partilhadas, os dias duros, as nossas circunstâncias. 

Os coachs ou trends podem fazer-nos muito mal por isto. Os coachs dão-nos, muitas vezes, a ideia de que controlamos todos o nosso destino, somos nós que não estamos “a investir em nós”, esquecendo muitas das nossas circunstâncias e as trends (algumas delas) são feitas para mostrar, muitas vezes, caminhos de glória, mesmo que mostrando como foi difícil esse caminho, acabam sempre por ter a conquista como fim. E é por isso que, nas redes sociais, como na vida real, é preciso selecionar quem queremos “seguir”, viver perto, a energia que queremos para a nossa vida, e ser nela que nos apoiamos. Mais do que coachs, acredito, precisamos de terapia, precisamos de nos conhecer e combater os nossos próprios desafios internos. Um mundo com mais terapia seria um mundo onde não seriam necessários coachs.