Os muros do nosso contentamento

by | 18 Set 2020

Não sei como é que viram a candidatura dos Muros de Pedra Seca ao concurso 7 Maravilhas da Cultura Popular. Eu encarei-a como uma excelente oportunidade de promoção do concelho e nesse sentido foi um êxito. Não conquistou o almejado título mas aquilo que se ganhou, em termos de projeção de um património e do próprio concelho, é imenso.
Um minuto em televisão vale bem aquilo que é pedido em troca. Aqui não foi um minuto, foram horas em dias diferentes e sem ter que pagar fortunas, o que tem um valor imenso.
Houve custos? Claro, mas o que podemos vir a beneficiar com esta promoção, torna-os residuais. Quem está à frente dos destinos do concelho soube aproveitar a oportunidade e, no final, deu um sinal de maturidade e de bom senso ao parar na altura certa. Podia, como algumas câmaras o fizeram, investir largos milhares de euros na votação final, comprando, pacotes de votos – sim, já há empresas que prestam esse serviço – quando se percebeu que as coisas estavam “tremidas” mas preferiu não ir por esse caminho. Ainda bem porque aos autarcas o que se lhes pede é responsabilidade e uma avaliação exigente. Afinal, há coisas que a partir de um determinado patamar deixam de fazer sentido e de investimento passam a despesa pura.
Em termos de estratégia a candidatura esteve bem. A escolha da madrinha causou surpresa e na verdade não terá sido a mais feliz para o tipo de concurso a que se destinava. Guta Moura Guedes é o rosto de eventos de enorme prestígio a nível nacional e internacional, mas pouco conhecida do cidadão comum e é esse que vota. Será melhor apostar em alguém mais conhecido do público mesmo que a sua ligação a Porto de Mós seja remota. Descontando o artigo publicado na revista do Expresso, um ou dois vídeos e uma ou outra aparição pública não fizeram de Moura Guedes a madrinha que se esperava.
Já a promoção nas redes sociais, em outdoors e até na imprensa foi interessante de seguir. Os muros de pedra seca, coisa a que não dávamos atenção, são agora conhecidos e acarinhados por todos e em vez de separar, uniram o concelho e até a região. As pessoas partilharam fotos nas redes sociais, trocaram experiências, recordaram vivências. Empresas e juntas de freguesia empenharam-se também a sério. O ego portomosense inchou de orgulho e os muros foram o famoso fator de coesão social.
É claro que temos de saber relativizar as coisas. Não se trata de uma competição muito exigente e com um júri altamente especializado. No final, ganha quem tiver mais votos, numa eleição feito pelo telefone, o que acaba por ser, nalguns casos, uma injustiça, mas é inegável que é um excelente veículo promocional. Não tenho a mínima dúvida de que ainda hoje as Grutas de Mira de Aire beneficiam com o facto de terem sido consideradas uma das 7 Maravilhas Naturais de Portugal, e acredito também que o mesmo aconteça à pastelaria de onde saem os pastéis de Mós, apesar de não ter conseguido chegar tão longe.
Voltando à estratégia, a ideia de colocar personalidades públicas, desde presidentes de câmara e de junta, a atores e desportistas a apelar ao voto foi interessante e, no geral, bem executada.
Digo no geral porque se foi inteligente dar um cunho regional e até nacional à candidatura (ideia reforçada com autarcas da região e da ilha do Pico), faltou ali o testemunho de outros autarcas locais e de portomosenses que, em Portugal e no estrangeiro, dão cartas nas suas áreas de atuação.
Outro pormenor a ter em conta é, não só desafiar as tais personalidades a darem o seu testemunho, mas a partilharem-no porque se assim não for, afagam o ego portomosense mas poucos mais votos acrescentarão.
Interessa agora dar substância ao que se defendeu. Nessa medida, seria interessante pensar-se num incentivo financeiro, mesmo que simbólico, para quem conserve os seus muros de pedra seca ou queira construir novos. Candidatura a Património Mundial? Devemos mantê-la na agenda, mas encarando-a como um projeto a longo prazo.