10 de maio de 2026. Este dia fica para a história dos bombeiros do concelho como aquele em que, pela primeira vez, uma mulher assumiu o comando de um corpo de bombeiros.
A presença de mulheres nas corporações locais é bem menos recente e daí que a tomada de posse de Carolina Rosário como comandante dos Bombeiros Voluntários do Juncal se torne quase um “feito”: há uma presença feminina antiga e cada vez mais numerosa em Porto de Mós, Mira de Aire e Juncal mas só agora é que temos uma mulher no topo da hierarquia.
As razões não devem ser muito diferentes daquelas que, durante anos, mantiveram as mulheres fora da esfera do poder, nas mais variadas áreas, obrigando-as a um esforço acrescido para demonstrarem o seu valor, nomeadamente as suas capacidades de liderança.
Há mulheres nas corporações de bombeiros do país há muito mas a primeira a assumir o cargo de comandante e, mesmo assim, de forma interina, foi Maria Fernanda Lopes, dos Bombeiros do Sátão (Viseu), isto em 2006, portanto, há, apenas, 20 anos. Sendo que a primeira a chegar a esse cargo no distrito de Leiria, Patrícia Reis, está há escassos dois meses como comandante em efetividade de funções depois de em 2025 e, já este ano, ter ocupado o cargo de forma interina.
Carolina Rosário faz parte desse restrito grupo de mulheres na liderança mas arriscar-me-ia a dizer que será, talvez, aquela que maiores desafios terá de vencer nos primeiros tempos. Não se espera que vença uma guerra quando os soldados são da paz mas a luta pela afirmação e pelo confirmar que está no cargo por mérito próprio estarão, acredito, bem presentes.
Com, apenas, 26 anos de idade e estando na corporação há escassos oito anos, essas duas características certamente que vão ser muito evocadas por aqueles que desconfiam, à partida, da capacidade dos jovens e/ou dão grande valor à experiência (ou falta dela) numa área difícil como é a do socorro e da proteção civil.
Depois, Carolina Rosário é filha do presidente da Associação Humanitária e, claro, a sua nomeação levanta interrogações perfeitamente normais em muitos que não conhecem de perto o seu trabalho. Será que tem, de facto, qualidades para o cargo ou é uma escolha direta de alguém com quem mantém laços familiares muito próximos e que por isso poderá não ter tido o melhor discernimento? Sim, não tenhamos dúvidas que essa é outra pergunta que muitos fizeram e ainda fazem e também aí a jovem Carolina vai ter de saber dar resposta no dia a dia com o seu trabalho.
Acresce, entre outras dificuldades, a aceitação entre pares e se dentro do corpo de bombeiros, por aquilo que vi na tomada de posse, há grande satisfação por o grupo ganhar esta nova líder, fora, o processo julgo que poderá ser mais moroso tendo aqui, possivelmente, que haver também como que uma prova de valor técnico e de comando até existir uma “integração” plena. Quem me disse? Ninguém, mas com cerca de três décadas de acompanhamento regular desta área tão complexa julgo já conseguir interpretar com relativo sucesso alguns silêncios e outras tantas ausências.
A terminar esta já longa reflexão renovo os parabéns já dados a Carolina Rosário pelo complexo e exigente cargo no qual foi empossada e desejando-lhe as maiores felicidades. O seu sucesso será o sucesso dos Bombeiros do Juncal e do concelho e também um estímulo a que mais mulheres venham para a vida pública contribuir para uma sociedade melhor e mais equilibrada.
A última palavra, vai para o Oficial Bombeiro de 1.ª José Silva, figura central e incontornável dos Bombeiros do Juncal durante longos e, acredito, difíceis anos. Com uma impressionante humildade e reconhecida eficácia esteve sempre no lugar para o qual foi chamado pela direção pouco ligando à posição ocupada porque o mais importante era o seu corpo de bombeiros. Na altura da passagem de testemunho foi igual a si próprio – humilde e trabalhador, empenhado numa causa maior – e na mesma cerimónia ouviu dos principais responsáveis nacionais e regionais o elogio e o reconhecimento disto mesmo. Merecidos, sem dúvida!


