Se há vantagem que a imprensa leva nestes tempos difíceis, revestidos de angústia e incerteza para toda a sociedade, é que já estava habituada a esta corda-bamba. Há décadas que os jornais e as rádios regionais vivem no fio da navalha, à mercê de anunciantes que compreendam a importância de investir nos media, de investidores que respeitem a liberdade de informar – e percebam que um órgão se torna tanto mais respeitado e forte quanto maior for a independência face aos poderes instituídos.

Não é fácil alcançar esse equilíbrio, sobretudo na imprensa local e regional. Porque é muito tentador ceder à pressão do autarca, do empresário, do administrador, que (percebendo a fragilidade) usa das armas que tem para fazer vingar o que lhe dá jeito: uma imprensa que passe a mensagem, que anua mais do que questiona, que seja “colaborante”. Portugal está repleto de exemplos em que vinga o registo do “quem não é por mim é contra mim”, num erro crasso do que deveria ser um território desenvolvido, também a esse nível.
Por isso é tão importante sublinhar as exceções à regra; valorizar os jornalistas que não se vergam a troco (tantas vezes) de amigáveis pancadinhas nas costas, os administradores que têm a coragem de não ceder às pressões, fazendo respeitar um legado que deveria ser intocável: uma imprensa livre, a liberdade de imprensa e de expressão, por princípio.

Mas por estes dias há outras ameaças à sobrevivência dos media. E essas nascem de gente como nós, atravessam o auto-proclamado “jornalismo do cidadão” e desembocam, não raras vezes, no labirinto das notícias falsas. O conceito de jornalismo-cidadão pode ser encarado como parte do retrocesso civilizacional a que assistimos nos últimos anos, em várias áreas. Como a matéria-prima do jornalismo são factos, histórias e pessoas, é fácil confundir a mensagem com o mensageiro.

Em Portugal o fenómeno está (ainda) relativamente controlado, no que respeita à dimensão. Noutros países da Europa são vários os sites e blogues que se dedicam ao que chamam também de “jornalismo colaborativo”. A democratização das redes sociais, acompanhada da massificação das ferramentas digitais, deu ao cidadão competências de comunicação que, por vezes, são confundidas com o jornalismo.

É fácil fotografar um acidente, filmar um incêndio, até uma agressão na via pública que envolva agentes da autoridade e disseminar pela internet. É fácil criar uma página no Facebook que se chame “Notícias de Alguidares de Baixo” e fazer crer ao público que ali são publicadas notícias. Com uma grande diferença: as notícias, feitas por jornalistas, confrontam, aferem da veracidade dos factos, enquadram e escrutinam. As publicações de cidadãos disfarçados de jornalistas não o fazem. Nem é suposto que o façam. Ao cidadão comum não passa pela cabeça aderir ao conceito “ensino do cidadão” ou à “medicina do cidadão”. Mas no jornalismo criou-se a ideia de que qualquer um pode recolher informação e passá-la como se fosse um profissional do setor. Não pode. Por isso, estimem os vossos jornais. Os vossos jornalistas. Longa vida a O Portomosense, património vosso e nosso, há 38 anos.