Pedro Santos: De uma das zonas “mais pobres” da cidade invicta para Porto de Mós

Pedro Santos nasceu há 38 anos numa das zonas «mais pobres» da cidade do Porto, um bairro social, em Campanhã, uma freguesia onde, assegura, se vivia com «bastante dificuldades». As características desse local fizeram com que, desde muito novo, se começasse a interessar pelo «bem comum» e pelas dificuldades que muitas pessoas tinham que enfrentar no seu quotidiano. Com 7 anos, perdeu os pais, de forma prematura. Com poucas ou nenhumas referências, a partir daí teve que aprender a crescer e a viver, contando apenas consigo mesmo. «Os valores que tenho, obtive-os olhando à volta e são esses valores que quero transmitir. O importante é que as pessoas não passem dificuldades, preocupo-me um bocado com isso», admite.

Casado e pai de duas filhas pequenas, foi há quase três anos que decidiu mudar o rumo da sua família e mudar-se para as Pedreiras, freguesia de onde a esposa é natural. «No Porto, com duas crianças perdia muito tempo nas rotinas diárias. Eu sentia que isso era tempo que estava a perder no crescimento das miúdas e já que aqui [Porto de Mós] tinha condições para dar uma vida melhor às minhas filhas decidimos vir para cá», conta. Embora tenha deixado a cidade invicta para trás, a paixão que Pedro Santos possui pela sua terra natal ainda hoje se mantém. «Sempre que tenho tempo livre, pego nas minhas filhas e rumo ao Porto, é o meu refúgio», revela.

Até a chegada da pandemia sempre exerceu a profissão de empregado de mesa, mas depois de ter sido despedido do local onde trabalhava viu-se obrigado a repensar a sua atividade profissional. Acabou por optar pela indústria fabril e hoje trabalha no ramo mobiliário. O encontro com a política aconteceu, de forma espontânea, depois de ter participado na Festa do Avante, organizada todos os anos pelo Partido Comunista Português (PCP), que acontece na Quinta da Atalaia, no Seixal. «Cheguei à política através da grandeza da Festa do Avante. Eu e um colega decidimos ir de férias, nem sabíamos para o que é que íamos mas decidimos ir lá e apaixonámo-nos», conta.

Faz parte da CDU – Coligação Democrática Unitária (PCP-PEV) mas não se considera político prefere antes a designação de ativista ou «voz do povo». «Não me sinto como político. Primeiro está o trabalho. É uma vida normal mas a dar um pouco de mim à sociedade e à política», esclarece. Para si, convém que tudo esteja «interligado» e por isso, separar a vida política da vida pessoal não é sequer uma opção: «Tem de haver uma ligação entre trabalho, política e família. Tem de haver a compreensão da família e apoiarem naquilo em que estou metido», defende.

António Alves: O homem dos sete ofícios que “nasceu no meio dos cacos”

Nascido no seio de uma família da Moitalina, freguesia de Pedreiras, com fortes ligações à olaria tradicional, António Alves tinha apenas 4 anos quando começou a ajudar o pai a vidrar loiça e a «passar peças». «Nasci no meio dos cacos», recorda, entre risos. Aos 12 já cozia loiça à lenha o que, reconhece, era um trabalho «perigosíssimo», principalmente para uma criança daquela idade. Tornou-se oleiro e ceramista mas os anos passaram e com eles a vontade de aprender e conhecer. António Alves considera que foi sempre um bom aluno e por isso, o desejo de continuar a estudar era um objetivo que o acompanhava. Embora o pai «não concordasse muito» com essa ideia e achasse que deveria de ficar a trabalhar decidiu ir estudar para Coimbra, juntamente com um amigo, onde se viria a licenciar em Psicologia e Ciências da Educação. Nesse tempo, admite que já tinha um «desejo imenso» de «mexer na música» e assim que conseguiu começou a aprender guitarra clássica. Mais tarde, criou o projeto musical Sacerdotes de Alquimia baseado na Mensagem de Fernando Pessoa que editou em 1997.

Durante o tempo em que esteve à procura de emprego na área foi trabalhando na empresa dos pais e quando estava prestes a conseguir o seu objetivo foi chamado para cumprir o serviço militar obrigatório na Base Aérea Nº2 na Ota, onde esteve durante dois anos. «Fiz a recruta, aprendi a ser militar e depois fiquei como psicólogo num serviço de formação de professores», recorda. No regresso a Porto de Mós o seu irmão mais velho, que tinha um projeto para aumentar a empresa dos pais, propôs-lhe que formassem uma sociedade e juntos construíram a Val do Sol Cerâmicas, uma empresa que hoje emprega perto de 300 pessoas. «Comecei por me ocupar das áreas de organização, dos clientes, de pessoal mas fazia de tudo e mais alguma coisa», conta. «Correu o mundo» a vender loiça e marcou presença nas maiores feiras internacionais da área, chegou inclusive a estar preso no Zimbabué por não ter o visto. «Trabalhava de manhã à noite, só tinha prazer a trabalhar, não gostava de férias e acabei por ter uma espécie de burnout», uma situação que acabou por despoletar a sua saída da empresa.

Entre 2001 e 2019 deu formação profissional nas áreas da psicologia, em grupos de formação de adultos e ao mesmo tempo criou várias associações, entre as quais a Associação de Artesãos das Serra de Aire e Candeeiros, a ACMÓS – Associação Desenvolvimento Comunitário de Porto de Mós e o Juncateatro.

Com um «grande amor» assumido pelo canto no início da pandemia tornou-se cantor de rua e desde então já marcou presença em vários pontos de Portugal, como Lisboa, Figueira da Foz, Caldas da Rainha, Vigo e Algarve. «Tem sido uma experiência humana muito forte. Alguns veem como uma coisa miserabilista eu vejo esta partilha de autenticidade como a coisa mais nobre que existe», frisa. Juntamente com a atual companheira, também cantora lírica, António Alves canta grandes temas da ópera entre três a quatro vezes por semana. «Esta é uma atividade altamente agressiva para a voz», garante. Entretanto tem em carteira duas peças de teatro musical que escreveu e que espera que possa apresentar em breve em Porto de Mós.

João Salgueiro: A participação no 25 de Abril e o dia em que comeu caviar pela primeira vez

Filho de agricultores com «muita honra», João Salgueiro tinha apenas 10 anos quando os pais emigraram para França e ficou à guarda de uma avô, na altura com 80 anos. Desde muito cedo que foi obrigado a desenvencilhar-se sozinho, e é por isso que recorda na perfeição as dificuldades que sentiu durante a sua infância e juventude: «Fui evoluindo e crescendo quase sozinho, com a minha inteira responsabilidade. A minha avó fazia o que podia mas estava muito limitada face à idade que já tinha».

Embora João Salgueiro tenha vivido praticamente toda a sua vida na freguesia das Pedreiras, na verdade não foi aí que nasceu. Aos 68 anos, reconhece que ainda hoje muita gente tem dúvidas da sua naturalidade e, garante, há mesmo quem chegue a apostar quanto às suas origens. No caso de ser alguém que já se sentiu tentado em apostar mas ainda não o fez, aqui fica o esclarecimento: «Eu nasci na freguesia de São João Batista de Porto de Mós, no lugar da Portela da Ribeira de Cima», revela João Salgueiro. Viveu na terra natal durante apenas dois meses até a sua casa estar concluída e mudou-se depois para as Pedreiras.

Não considera que tenha sido um excelente aluno, antes razoável. Ainda assim, aos 11 anos a sua professora primária reconheceu que tinha «algumas condições» para estudar e que seria «uma pena» não dar continuidade aos estudos. Perante tal insistência, acabou por entrar na Escola Técnica de Alcobaça para onde se deslocava a pé diariamente e que significava ter que percorrer um total de seis quilómetros. «O meu grande problema não era a distância mas sim ter que fazer aquele percurso sozinho, muitas vezes de noite, e por zonas que tinha medo», confessa. Mais tarde, tirou o curso industrial em Alcobaça, fez as secções preparatórias em Leiria e as boas notas que aí obteve permitiram-lhe entrar no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra.
Em janeiro de 74 teve de cumprir o serviço militar obrigatório e tirou o curso de oficial miliciano de infantaria. Desse tempo guarda variadíssimas recordações, nomeadamente o facto de ter assistido de perto ao 25 de Abril. «A minha equipa tomou de assalto o quartel da GNR de Mafra e posteriormente ocupámos a sede da Legião Portuguesa, onde ficámos uma semana. Foi a primeira vez que comi caviar», lembra.

Com uma vida profissional dedicada a projetos de construção civil trabalhou numa empresa de pré-fabricados na Cruz da Légua durante 17 anos até ingressar na vida política. Primeiro como vereador e depois como presidente da Câmara Municipal de Porto de Mós, cargo que exerceu durante 12 anos. A honestidade foi um dos valores que herdou do pai e que ainda hoje preza. Casado, pai de três filhos e avô de quatro netos, João Salgueiro reconhece que a família é um dos seus principais suportes. Tem na fotografia o seu principal hobbie, a par das atividades ligadas à agricultura onde ocupa grande parte do seu tempo. Adora viajar e garante que é apaixonado pela Guiné-Bissau, um país que faz questão de visitar sempre que pode: «Sinto-me muito bem naquela cultura e paisagem. Todo aquele ambiente me fascina».

Jorge Vala: O tempo de “limpar a cabeça” é passado na horta

Nos últimos quatro anos exerceu a função de presidente na Câmara Municipal de Porto de Mós. Durante esse tempo, era a si que cabia tomar as decisões mais importantes para o concelho e que, eventualmente, poderiam influenciar o seu rumo. Agora procurámos saber um pouco de Jorge Vala, além da pessoa por trás do fato e gravata com que, por vezes, se apresenta.

Em 1953, a Fonte do Oleiro foi o seu berço. Foi aí que nasceu e cresceu, até ter 13 anos e ir viver para Porto de Mós. «A minha infância foi sempre ligada à família e à atividade profissional dos meus pais, que tinham um comércio de sapatos», recorda. Com essa mudança, a ligação que foi tendo ao concelho passou a ser cada vez «mais forte» e aos 16 anos decidiu integrar a corporação dos Bombeiros Voluntários de Porto de Mós. «Tenho muito orgulho nessa fase da minha vida. Senti-me verdadeiramente importante», admite.

Com a entrada no mundo do trabalho, esteve ao serviço de uma empresa como administrativo, no entanto, a vontade de estar mais perto de casa e da família falou mais alto e fê-lo voltar. No regresso ainda chegou a trabalhar com os pais até que surgiu a possibilidade de ir para a banca, um desafio que abraçou de imediato. Foi bancário na Caixa Agrícola de Porto de Mós durante 15 anos e no decorrer desse tempo foi criando uma relação de proximidade «muito grande com a população»: «Em muitos casos nós acabamos também por ser um pouco psicólogos, os confessores, os ouvintes». Findo esse período, passou a exercer funções de diretor na direção regional de Santarém do Montepio que foi sendo interrompida pelos cargos autárquicos, o primeiro deles como vereador e o mais recente como presidente da Câmara. «Durante estes quatro anos eu deixei de ter família, deixei de ter quase tudo para dedicar a tempo inteiro a esta vida pública. Eu quando abraço estes desafios sou assim, não consigo ser diferente», reconhece.

Hoje em dia, garante que desligar o chip é uma tarefa «completamente impossível». O tempo livre que dispõe é quase sempre escasso, ainda para mais porque gosta de estar bem preparado e faz questão de estudar os dossiers, algo que o obriga a «queimar muitas pestanas». Ainda assim, sempre que pode é na agricultura que encontra o seu maior escape para desanuviar. «Eu habitualmente, quanto tenho um tempinho, ajudo a minha mulher porque ela gosta de fazer agricultura nas horas vagas. O nosso tempo de limpar a cabeça passamo-lo na horta. O resto do tempo livre, estou em família, vou passear, leio ou estou a descansar», revela.

Casado e pai de três filhos, Jorge Vala embora reconheça que por vezes não tem o tempo de que gostaria para dedicar à sua família garante que esta é um pilar fundamental na sua vida. «A família está permanentemente comigo. São filhos que toda a gente gostava de ter, são pessoas extraordinárias, de uma compreensão absoluta sobre aquilo que são as opções. Fazem sempre parte da decisão», sublinha.