Sustentabilidade – para uns apenas mais uma palavra do dicionário português, para outros, um estilo de vida. Para alguns apenas uma palavra com 16 letras, para outros, o modo de sustento. Para muitos um objetivo, para outros, uma realidade. Apesar do grau de familiarização com as práticas sustentáveis, a verdade é que todos nós, de uma forma ou de outra, já sabemos que é preciso que estas comecem a fazer, cada vez mais, parte do nosso dia-a-dia. Os recursos do mundo estão a esgotar-se, mas se isso não está a acontecer a uma velocidade ainda mais vertiginosa, muito se deve a exemplos como os que trazemos aqui hoje.

«Trabalhar com a natureza em vez de contra ela», é este o mote do trabalho de Filipe Vieira e Rute Gabriel, um jovem casal do concelho. «Éramos dois miúdos normais, conhecemo-nos na Escola Secundária de Porto de Mós, fomos para a faculdade e encontrámo-nos naquela fase em que não estávamos a conseguir emprego», explica Rute, natural do Alqueidão da Serra. Foi por este motivo que acabaram «emigrados no Canadá», durante cinco anos e foi neste período que despertaram para a sustentabilidade: «Estávamos iludidos com a emigração, percebemos que o ordenado mínimo lá dava para o mesmo que aqui em Portugal». Começou aqui a busca pelo melhor de dois mundos, encontrar uma profissão que fosse simultaneamente uma paixão. «Encontrámos vídeos, pessoas variadas e séries que falavam da sustentabilidade e também de Permacultura [já lá vamos mais à frente] e isso despertou-nos a atenção». Nasceu uma horta no 25.º andar de um apartamento, no meio da cidade de Toronto e as técnicas que estavam a começar a fazer parte do dia-a-dia deste casal, começavam a dar frutos.

Estava na altura de regressar ao país, aprender mais sobre o tema e lançar um projeto, eram estes os objetivos de Filipe e Rute, que achavam Portugal o país ideal para o fazer: «Nós temos um clima fantástico, temos mais possibilidade de soberania alimentar que o Canadá, não só pelo tamanho do país, como pelos recursos que temos». Nasceu assim o projeto Liberta-te, que tinha como grande alicerce os princípios da Permacultura. Mas afinal, o que quer dizer exatamente este conceito? «É um design sustentável para humanos em harmonia com a natureza, satisfazendo as nossas necessidades. É tentar otimizar todos os recursos da natureza», explicam. Dizem não ser fundamentalistas, sabendo que é muito difícil reduzir totalmente o impacto negativo das ações humanas, no entanto, há uma regra que tentam aplicar: «As nossas ações têm que ter um impacto positivo, com o menor nível de energia possível. Se fizermos uma viagem de carro, tem que ser altamente rentável para que o impacto negativo justifique».

Além da vertente de Permacultura, este projeto tem como objetivos explorar a parte de desenvolvimento pessoal e também de empreendedorismo. O casal disponibiliza, pessoalmente (agora em pausa devido à COVID-19) e através da sua página (www.liberta-te.com), várias formações gratuitas para quem quer aprender mais sobre as técnicas da Permacultura, mas também sobre como «começar um projeto próprio». Desde 2016 que o casal vive apenas deste projeto, sem um «trabalho das 9 às 18 horas» tão padronizado, vivendo não só daquilo que produzem, como também dos designs sustentáveis que criam para os seus clientes. Seja no campo, na cidade ou dentro de casa, o que Filipe e Rute fazem é ajudar a potenciar os espaços das pessoas: «Por exemplo, na policultura misturamos vegetais que combinam uns com os outros para que haja uma maior biodiversidade na horta e consequentemente para que a produção tenha mais retorno, se tudo estiver biodiverso, nós vamos ter também mais biodiversidade nos insetos, logo mais polinização, logo mais produção. Existe muito detalhe em tudo o que fazemos».

Viver do que se ama

“Esse não é um trabalho a sério”, ainda é comum o casal conviver com este tipo de conceções. Assim foi quando decidiram contar aos familiares e amigos que queriam viver da Permacultura, embora tenham recebido sempre apoio, sabem que nem sempre são percebidos e isso, acreditam, tem que ver com o desconhecimento: «A partir do momento em que temos de explicar o que somos, não estamos a ter um trabalho a sério». «Somos muitas coisas ao mesmo tempo, agricultores, bloggers, consultores, jardineiros, designers, formadores e acaba por espalhar o que é a Permacultura», explicam, acrescentando que é possível, dentro desta área, especializar num determinado setor. «Há quem se especialize em construção natural com casas com pegada ecológica zero, quem se especialize em agro-florestas, produção energética para casas, basta pensar em tudo o que o ser humano precisa para viver».

O casal vive numa casa «com estruturas novas», mas tudo «o que está à volta» está assente nos princípios sustentáveis. «Temos uma casa para os animais que é feita de terra e materiais naturais reciclados. O telhado é um jardim e quando chove, rega as plantas que temos lá», exemplifica Filipe. Neste momento têm também um bosque de alimentos em construção, uma horta e um «sistema de aproveitamento de água dos telhados» e estes são apenas alguns dos exemplos da forma como rentabilizam o espaço.
Sonhos e metas por cumprir? Não têm dificuldade em responder. «Eu gostaria que a Permacultura se tornasse mainstream, que deixasse de ser um movimento marginal. É mesmo importante que seja algo tão comum como o nosso estilo de vida convencional», assume Rute Gabriel que acredita que só assim poderá ser alargado aos grandes proprietários agrícolas e espaços comerciais com políticas ainda «muito insustentáveis». Já Filipe Vieira admite ter o sonho de transformar um espaço em Bosque de Alimentos «para que pudesse ser um sítio para as famílias irem, aprenderem, terem formação sobre como produzir e colher a sua própria comida, que fosse um supermercado vivo. Era um bom programa para o domingo de manhã. Poderem, por exemplo comprar o mel feito pelas abelhas que ajudaram a polinizar os produtos agrícolas». «Ainda há muita pedra para partir em Portugal», frisam, no entanto, este casal, é exemplo de que, muita dela já está bem cimentada e as metas, estão apenas a alguns passos.

Uma viagem à Ásia mudou tudo

Sofia Figueiredo, natural do Juncal, sempre reciclou e esteve ligada à terra, até, acredita, «por ser escuteira», mas foi uma viagem de seis meses à Ásia que mudou por completo a sua forma de encarar a sustentabilidade. Tirou um curso com o qual pouco se identificou e foi depois de terminar esta etapa da sua vida, que decidiu que estava na hora de conhecer um novo continente. «A viagem foi um ponto-chave para pensar sobre como estava o mundo e sobre a diferença que podemos fazer nele», explica. A jovem de 27 anos destaca algumas diferenças entre a realidade que conhecia e a asiática: «Nós cá temos um sistema de recolha de resíduos, na Ásia, na maioria dos países que visitei, não há nada disso. O que mais me chocava era andar pelas ruas e ver lixo em todo o lado, sendo eu uma pessoa que vai à praia e que leva um saco de plástico para apanhar o lixo. Apesar de terem passado seis meses, quando me vim embora ainda não me tinha conseguido habituar», conta. Mas nem tudo foi mau, Sofia encontrou nestes países pessoas «muito ligadas à terra, que tinham quintas e produziam de forma biológica», frisa. Retrato disso foi uma ecovila que conheceu na Turquia: «Um grupo de amigos que vivia isolado nas montanhas e produzia os seus próprios alimentos. Tentavam viver de um modo o máximo sustentável, a energia que havia era produzida por painéis solares e só dava para carregar o computador e os telemóveis», explica.

De regresso a Portugal, Sofia queria aplicar aquilo que viveu e aprendeu e foi assim que criou um projeto de agricultura biológica e formações, do qual hoje já não faz parte, por motivos pessoais. Para poder arrancar com este projeto, tirou o curso de Design em Permacultura. «Quando me afastei do projeto a parte das formações tinha sido lançada há pouco tempo, mas nós tínhamos muita gente interessada», conta a juncalense que diz que sempre sentiu que conseguia influenciar de alguma forma as pessoas à sua volta. Apesar de já não fazer parte deste projeto em específico, continua a pôr em prática os ideais: «A minha família sempre cultivou e criou animais, por isso eu continuo a produzir, acabando por dar continuidade à produção biológica, porque nós não usamos químicos».
Sofia implementa este minimalismo de consumo em vários setores da sua vida. «Eu raramente compro roupa. Muitas das roupas que utilizo já têm vários anos, é até se esgotarem», salienta. Os presentes de aniversário e de Natal são muitas vezes feitos por si mesma: «Sempre fui de agarrar no que tinha em casa para criar presentes». A jovem acredita também que mais importante do que ir «comprar a garrafa de vidro de última moda», é dar o máximo de ciclo de vida aos produtos. «Eu pratico desportos radicais e tenho uma garrafa de plástico que é ultra resistente, para mim faz sentido aquela garrafa que pode andar aos trambolhões. É mais sustentável eu manter essa garrafa que já tenho há anos do que ir comprar uma de vidro nova».
Se ainda há muito a fazer em Portugal? Sofia Figueiredo acredita que sim, mas que passo a passo, muitas coisas estão a mudar. «Eu tenho um exemplo muito bom disso, há uns anos quando comecei a usar os meus sacos de rede e de pano para ir aos supermercados convencionais, cheguei a levar negas de que não podia usar os meus sacos. Aquilo deixava-me revoltada, às vezes recusava-me a levar os produtos e hoje em dia todas as grandes superfícies são a favor e até disponibilizam sacos de rede aos clientes».

Não é «perfecionista da sustentabilidade», porque acredita, citando uma grande defensora do movimento Desperdício Zero que «não precisamos de uma mão cheia de pessoas a praticar o desperdício zero perfeitamente, precisamos é de milhares de pessoas a praticá-lo imperfeitamente». «À medida que conseguimos fazer um check na nossa lista de mudanças em prol da sustentabilidade, estamos a evoluir. Acho que não devemos ficar frustrados se não conseguimos atingir logo um objetivo grande», diz Sofia Figueiredo que no entanto, tem «sempre o pensamento de melhorar».

Conceitos importantes

Sustentabilidade:

Modelo de sistema que tem condições para se manter ou conservar, tendo a capacidade de satisfazer as nossas necessidades no presente sem comprometer a capacidade de as gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades.

Compostagem:
Processo biológico que consiste em deixar fermentar e decompor resíduos orgânicos (agrícolas, florestais, domésticos ou urbanos), misturados ou não em terra vegetal, para obter um material rico em nutrientes e minerais e composto, usado como adubo natural.

Agricultura Biológica:
É um modo de produção que visa produzir alimentos e fibras têxteis se forma sustentável e com impacto positivo no ecossistema agrícola. Na Agricultura Biológica, não se recorre à aplicação de pesticidas de síntese sobre as culturas, nem adubos químicos de síntese, nem ao uso de organismos geneticamente modificados.

Pegada ecológica:
É a métrica utilizada para medir a relação entre os recursos produzidos pela natureza e o consumo humano.