Raquel Ruano, de 36 anos, é atualmente a veterinária municipal de Porto de Mós. Natural de Lisboa, onde sempre trabalhou no setor privado, chegou a Porto de Mós a 8 de outubro, para ocupar um cargo, que estava vazio há mais de um ano e meio, depois de ter concorrido ao concurso público lançado pelo Município. Nesta entrevista, concedida no Centro de Recolha Oficial de Animais da Companhia (CROAC) de Porto de Mós, a médica veterinária fala sobre a adaptação ao concelho, naquela que apelida como tendo sido uma «grande mudança», realça a importância de haver sensibilização junto da população e reconhece o impacto que os recursos limitados têm na implementação de projetos.
Passaram cinco meses desde que assumiu funções como veterinária municipal de Porto de Mós. Como descreve esse percurso até agora?
Tem sido uma adaptação, porque é uma área, dentro do ato clínico, completamente diferente das instituições privadas. A instituição pública exige outras coisas e lida com outro tipo de pessoas. No fundo é tentar perceber como tudo funciona e depois, aos poucos, as coisas vão. Além disso, como [o Município] esteve muito tempo sem veterinário, ainda era necessário organizar algumas coisas. Este posto tem um cariz social muito grande que com políticas públicas, a ajuda da Câmara e dos munícipes, consegue-se fazer coisas muito boas pela população e pelos animais do Município. Gosto bastante desse lado social do cargo.
Desde que abriu, o CROAC tem estado quase sempre no limite da capacidade. Quase seis anos depois, o canil continua no limite?
Ainda mais no limite, se é possível ultrapassar, mas neste momento temos [à data da entrevista, 3 de março] 51 cães e 15 gatos. Há muita afluência, em termos de entrada, mas também temos a sorte de conseguir dar para a adoção bastantes animais, e o facto de estarmos ativos nas redes sociais é muito importante.
Considera que estamos perante um problema crónico no país?
No dia a dia, acho que estamos muito melhores mas julgo que ainda há um caminho a percorrer. É preciso mais. Hoje, as pessoas estão muito mais sensibilizadas que não é só ter um animal, mas é importante continuar a haver sensibilização para que tenham noção que ao terem um no seu nome ou estarem a cuidar de um, no caso dos tutores informais, estão a responsabilizar-se por esse animal. Nós temos tentado fazer essa sensibilização, junto das escolas e também nos mercados, porque, por exemplo, no caso das escolas, se a criança aprender essa noção em pequenina, quando vir um animal na rua já o tenta ajudar. Acredito que se trabalharmos todos para o mesmo fim o paradigma pode mudar.
Como têm sido feitas essas ações de sensibilização?
Ainda não conseguimos ter muita atividade na rua, no sentido de divulgação, porque neste momento há ainda muita coisa por fazer, entre demanda de pedidos e intervenções que são necessárias. Não conseguimos é ir a todos, como é óbvio, porque são bastantes. Há muitas iniciativas que ainda não consegui implementar, porque o tempo é muito escasso para tanta logística. Recentemente, era para ter ido fazer uma visita, mas não consegui, porque tive que responder a uma situação urgente, então foram duas assistentes e uma voluntária que levaram o animal e fizeram a apresentação. Se houver um animal e as pessoas puderem ter contacto com ele, sensibilizam-se muito mais e vão falar para casa, do que se for simplesmente uma palestra, assim não interiorizam. Já tivemos adoções resultantes dessas visitas e isso é muito bom, mas tudo o que é feito requer muita organização e a agenda está sempre a ser mexida.
O que não permite que fixem um dia para essas visitas?
Nós fixamos na nossa organização [interna], mas é mutável e há sempre coisas a surgirem, situações mais urgentes, e as prioridades têm de ser reajustadas. No entanto, estivemos recentemente na rua, com a campanha da raiva, em que acabámos também por sensibilizar as pessoas, porque fomos falando com elas e mostrámos panfletos do canil, o que também ajuda na divulgação, porque há um contacto direto com a população que vai tendo conhecimento das coisas.
Além das medidas já desenvolvidas, que outras considera que deviam ser colocadas em prática para minimizar o problema da falta de capacidade?
Há muitas iniciativas interessantes que têm o efeito que desejamos, mas em termos de volume [de trabalho] nem sempre é possível, porque às vezes não há pessoas suficientes para as fazer. Os pedidos são muitos para conseguirmos dar resposta e é preciso o apoio de muitas instituições também para que isso aconteça. O nosso Município é muito grande, por isso acho que é importante o envolvimento dos munícipes, para nós termos também noção do terreno e das carências, porque não estamos sempre em todo o lado.
Recuperar os animais errantes é uma obrigação da Câmara. Isso tem sido feito ou está previsto algum apoio para as pessoas que dão suporte a esses animais?
Há apoios externos mas, neste momento, sempre que somos chamados nós atuamos, vamos ao local e nos casos em que não recolhemos, ficamos em cima do acontecimento para depois voltar. Neste aspeto, o apoio da GNR, dos bombeiros e de outras instituições é crucial. O problema é conseguir albergar todos os casos que temos conhecimento, porque não temos espaço para todos. O que, às vezes, acontece é haver pessoas – tutores informais [uma figura já prevista na lei] – que se disponibilizam a ficar com os animais que encontram enquanto não há espaço no canil.

Mas também não haverá muitas pessoas que estejam dispostas a assumir esse papel…
Não, e muitas vezes o canil está sobrelotado por causa disso, mas não é por mal é porque algumas pessoas não conseguem mesmo. Por vezes conseguimos apoio e isso é bom, no entanto, na maioria dos casos recolhemos, porque sabemos que vão sendo adotados e depois reorganizamos o espaço.
O programa CED (Capturar, Esterilizar e Devolver), que já está implementado noutros locais, é umas das ambições antigas do Município. Já há previsões para o seu arranque?
Esse projeto requer muita burocracia. Antes [de ter início] há muita coisa a ser ajustada e organizada. É preciso arranjar o espaço para fazer as cirurgias, o espaço para os animais ficarem de recobro, o material para fazer as casotas e o espaço físico onde as colónias vão ficar. É preciso também a colaboração das juntas de freguesia e ter noção dos animais que estão no terreno porque, como não havia veterinário antes, as colónias [de gatos] foram aumentando. Existem muitas etapas [a ser ultrapassadas] para isso acontecer, e é algo que, naturalmente, demora o seu tempo, mas acredito que o programa será lançado em breve. É uma das nossas prioridades.
O CROAC tem feito um trabalho notável na divulgação de animais para adoção através das redes sociais. Ainda assim, o número de adoções continua a ser inferior aos pedidos de ajuda. O que continua a faltar para que as pessoas tenham vontade de adotar?
Eu acho que há muita gente com vontade [de adotar], não têm é capacidade, monetária principalmente, porque um animal não é só fazer uma vacina por ano, é preciso ter atenção se adoece. Se um animal saudável já tem encargos, então um animal que tenha um problema, que poderá ser pontual ou não, ainda tem mais. Há todo um investimento emocional, físico e monetário para se ter um animal e às vezes as pessoas não têm essa capacidade porque as condições do país também não o permitem. Sempre que vêm aqui para adotar, faço questão de estar presente para, no fundo, dar uma consulta de tudo o que é necessário fazer com o animal e o que poderá acontecer se tiver alguma condição. Temos animais que têm condições médicas inerentes e todos fazemos questão que o adotante tenha noção do que acarreta adotar aquele animal específico. Além disso, também analiso se a pessoa é indicada para aquele animal ou não. Senão for, conduzo para outro ou explico que nessas condições o animal não estaria bem. Há uma série de perguntas que todos fazemos para ver se [aquela pessoa] será indicada [para adoção]. O nosso objetivo não é pressionar ninguém a adotar. Há pessoas que já vieram aqui e perceberam que se calhar não é assim tão fácil e vão pensar para casa. Tem que haver essa consciência, para depois não haver devoluções ou abandonos. É importante a pessoa adotar com plena consciência e não pressionada. A partir do momento em que a pessoa adote mas saia daqui com a consciência do que é preciso, o nosso trabalho está feito.
“É importante o envolvimento dos munícipes, para termos também noção do terreno e das carências, porque não estamos sempre em todo o lado”
Com a passagem da depressão Kristin, houve o registo de muitos animais desaparecidos. Que impacto têm estes eventos meteorológicos extremos nos animais? Sentem-nos como nós?
Sem dúvida. Os animais sentem como nós sentimos, no entanto nós conseguimos racionalizar, perceber a origem e do que se trata, eles não, o que leva a que fiquem hipersensibilizados e somatizem muito. Por isso, o fenómeno associado à falta de compreensão, torna tudo muito traumático para os animais e leva a que fiquem hiper-reativos, podendo, nalguns casos, até morder ao dono, porque estão a redirecionar a raiva naquele momento. É complicado porque depois os donos não sabem lidar com um animal que tem de dessensibilizar. Além disso, os animais de rua também podem atacar as pessoas por simplesmente terem medo, como acontece com a maioria dos ataques de cães.
O que se deve fazer nestas situações?
Nos casos em que uma pessoa não consegue, por alguma razão, levar os animais consigo, deve abrigá-los, para que, pelo menos, tenham a possibilidade de se proteger, uma vez que se ficarem presos à corrente não conseguem. Porém, a prioridade deverá ser sempre, como é óbvio, cada pessoa levar os animais consigo. Um animal que sempre teve um dono, sempre teve os cuidados de alguém, se se vir na rua, muito provavelmente, vai ser atropelado ou vai passar fome. É importante que as pessoas tenham a consciência que são responsáveis por aquele animal, portanto têm que garantir a segurança dele. Deve-se também isolar os animais do som, porque quando estes não sabem o que está a acontecer, saltam vedações e magoam-se. E, por vezes, é ainda preciso um acompanhamento médico para dessensibilizarem dessa situação e voltar ao normal.
Fotos | Jéssica Silva




