«Águas muito turvas, absolutamente nojentas e um ar irrespirável». A descrição feita a O Portomosense, pela presidente da Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE), Cristina Lopes, espelha com precisão o ambiente de poluição encontrado por uma equipa de cinco elementos, no passado dia 21 de setembro, em Meandro dos Fósseis, uma zona não visitável das Gruta dos Moinhos Velhos, vulgarmente conhecida por Grutas de Mira de Aire. A situação em causa, que decorreu numa ramificação do labirinto da Gruta da Pena, levou ao cancelamento imediato dos trabalhos e foi retratada num vídeo, posteriormente publicado na página da SPE.

Nesse dia, o objetivo da expedição era claro: «Preparar a atividade de mergulho de exploração no âmbito do projeto de exploração e estudo do Sistema Moinhos Velhos – Pena – Contenda», no entanto, quando a equipa de espeleo-mergulhadores e exploradores a seco da SPE chegou ao local deparou-se com uma «poluição extremamente ativa». «Nós sabemos que naquela zona a poluição existe há muitas décadas e desconfiávamos que existiria alguma, mas daquela maneira é absolutamente impressionante», admite Cristina Lopes. Com o inverno, a água inunda as partes inferiores destas grutas, sobe pelas galerias e «tem vindo a contaminar progressivamente setores ainda pouco afetados». A poluição está a avançar drasticamente e o que agora tem causado «especial apreensão» é a propagação à parte terminal do circuito turístico das Grutas de Mira de Aire, «uma das zonas inundadas durante as cheias».

A complexidade dos acessos para a zona em questão é uma das características que obriga à utilização de técnicas de mergulho mais rigorosas. «É um mergulho tecnicamente difícil em águas muito turvas, com visibilidade zero e numa zona muito apertada», descreve. Depois de várias tentativas, o intuito seria agora concretizar um mergulho «final» para que conseguissem continuar com os trabalhos. Porém, para os próximos tempos, essa hipótese está completamente fora de questão. «É completamente impossível. Ninguém vai mergulhar naquela água, aquilo é um perigo terrível. É um risco de saúde e de vida para os mergulhadores que fizessem lá atividade», frisa a presidente da SPE.

Há mais de 70 anos que a SPE efetua trabalhos de exploração no sistema espeleológico Moinhos Velhos – Pena – Contenda. Apesar dos constrangimentos, Cristina Lopes garante que a atividade de mergulho e as atividades de exploração a seco vão continuar. No entanto, este troço em específico, é pouco provável que volte a ser estudado. «Tem que ser aferido ano a ano. As lamas captam a poluição química que fica lá retida durante décadas e na maior parte das vezes nunca é possível limpar a 100%. É algo que nós vamos legar aos nossos filhos e isto é gravíssimo», alerta a presidente da SPE, assegurando que «este assunto não vai morrer aqui». «Nós temos a obrigação de divulgar e esclarecer o que se passa ali em baixo porque se não formos nós, mais ninguém tem noção do que se está ali a passar», conclui.