Carlos Crespo, tem 16 anos, vive na Corredoura (Porto de Mós) e foi considerado o melhor árbitro jovem na época passada (2020/2021) pela Associação de Futebol de Leiria (AFL). Desde muito cedo que começou a gostar de futebol e apesar de ter chegado a jogar reconhece que nunca teve «grande jeito» para isso. O seu foco era outro. «O que queria mesmo não era jogar à bola, era integrar o jogo de outra maneira, como árbitro», afirma. Dentro de campo, a autoridade demonstrada pela figura do árbitro era o que mais o cativava e há quatro anos que começou a ponderar a possibilidade de também ele poder vir a tornar-se num. No entanto, ainda estava longe de poder inscrever-se num curso de árbitros (a idade mínima era 14 anos). «Quando tinha 12 anos pensava “só faltam dois”, quando tinha 13 anos pensava “já só falta um”», recorda. Até que um dia, já com 14 anos, sem que ele o imaginasse, a mãe contactou a AFL, e dias mais tarde recebeu um e-mail a perguntar se se queria inscrever no curso. O jovem nem pensou duas vezes. A sua viagem pelo mundo da arbitragem estava prestes a começar.

A dureza da função

Em fevereiro de 2019 esteve em Ansião para participar no curso de árbitros, que decorreu ao longo de todo o fim de semana. A experiência foi de tal forma gratificante que Carlos Crespo nunca mais largou o apito, os cartões e as bandeiras. «Tivemos formação sobre as leis do jogo e treinos no campo para treinar as sinaléticas e movimentações, e conhecemos o árbitro internacional português, Fábio Veríssimo», recorda. Desde então, já tem arbitrado diversos jogos, como árbitro principal, sobretudo de escalões de formação e como árbitro assistente tem apitado «todo o tipo de jogos no distrito», desde juvenis, juniores e seniores. Recentemente subiu de nível e agora está também autorizado a arbitrar jogos da divisão de honra.

Atualmente é solicitado para arbitrar muitos jogos o que, devido à escassez de árbitros, leva a que tenha praticamente todos os fins de semana preenchidos. «Quem vai para arbitragem depois fica quase sem tempo para qualquer outro tipo de coisa durante o fim de semana. Ser árbitro não é para todos», frisa. Um esforço acrescido, sobretudo, para alguém da sua idade em que sair à noite e estar com os amigos são duas das atividades prediletas. Ainda assim, garante que a arbitragem tem sido compatível com o seu quotidiano e até agora tem «havido tempo para tudo». As dificuldades que sentiu no início para conseguir «meter respeito» dentro de campo ainda estão bastante presentes na mente do jovem mas hoje graças ao seu crescimento pessoal e ao apoio que teve de outros colegas, essas adversidades não passam de memórias.

Carlos Crespo dificilmente esquecerá a alegria que sentiu no dia em que soube que tinha ficado em primeiro lugar na classificação da categoria CJ1, onde estavam cinco jovens, dos 14 aos 16 anos. Para esse resultado, contribuiu a sua prestação em testes escritos, provas físicas, presenças em jogos e em centro de treinos ao longo da época 2020/2021. Apesar do reconhecimento, o jovem prefere não colocar ênfase nos números. «Não é o mais importante na minha idade. O que gosto é que os jogos corram bem e que eu me divirta», sublinha. Atualmente está na CJ2, a outra categoria direcionada a jovens dos 16 aos 18 anos.

“As represálias não me assustam”

É inegável que a arbitragem é hoje uma das profissões que mais está na mira não só de adeptos como da opinião pública em geral. Os árbitros estão sujeitos aos comentários mais maliciosos mas Carlos Crespo revela que na maioria das vezes estes nem ligam ao que os outros dizem. «Quando estamos concentrados e focados no jogo, tudo o que está à volta não interessa», garante. Em Portugal, já chegámos, inclusive, a assistir a casos mais extremos, em que os árbitros sentiram na pele o que o fanatismo pode provocar mas para o jovem portomosense esta não é uma questão que o apoquente: «As represálias não me assustam porque todas as profissões são contestadas», justifica.

Carlos Crespo frequenta o curso de Desporto e está no 11.º ano, no entanto, o futuro ainda está em aberto. Ponderado, admite que prefere ver «um dia de cada vez» mas revela que seguir carreira na arbitragem faz parte dos seus planos. «E quem sabe, chegar ao topo, que é o que todos queremos», antecipa. Por outro lado, mostra-se também interessado em seguir Jornalismo e Comentário Desportivo, contudo está consciente de que um dia terá, inevitavelmente, de fazer escolhas e mesmo que o seu futuro não passe por ser árbitro uma coisa é certa: «A arbitragem fez-me crescer muito como pessoa, isso já nada pode mudar», sublinha.