Nos últimos meses, além de termos sido obrigados a viver sob uma pandemia, tivemos que aprender a viver com a ameaça constante de uma grave crise económica. Todos os dias assistimos ao encerramento de mais uma empresa ou tomámos conhecimento de alguém que passou a estar desempregado. Nenhum setor de atividade tem passado incólume aos danos colaterais provocados pela COVID-19. Se hoje o cenário não é ideal, o futuro também não se avizinha risonho, mas apesar dessa nuvem de incertezas, Vânia Santos e Teresa Carvalho, são dois exemplos, de pessoas que decidiram fintar a pandemia e contra todas as expectativas abriram novos negócios.

O dia 16 de dezembro de 2020 haverá de ficar para sempre marcado na memória de Vânia Santos, como o momento em que, pela primeira vez, abriu o seu próprio espaço, 12 anos depois de ter tropeçado no mundo da estética. Na altura desempregada, não hesitou quando teve a hipótese de tirar o curso na área da beleza. «Apesar de ser uma área que sempre gostei, nunca foi uma coisa que eu dissesse que queria ser», admite. Desde então, já passou por várias experiências profissionais onde foi aperfeiçoando a sua arte e ganhando «cada vez mais gosto». Há quatro anos surgiu a oportunidade de ir trabalhar para um cabeleireiro em Porto de Mós e foi aí que esteve até ao mês passado, altura em que decidiu «mandar-se de cabeça» para um projeto em nome próprio. «O tempo vai passando e nós também queremos o nosso canto e as nossas coisas», justifica.

Apesar de só agora o seu projeto ter ganhado vida, a ideia de abrir asas e voar há muito que começou a ser ponderada. A trabalhar num espaço «pequeno» e sentindo que «não conseguia evoluir», Vânia Santos não teve medo de arregaçar as mangas e investir na sua própria empresa. «Há cerca de um ano decidi que aquilo não me chegava, que queria mais e comecei a pensar seriamente em abrir o meu espaço», recorda. É na Rua da Igreja, em Porto de Mós, que podemos encontrar o seu recém aberto espaço: Vânia Santos – Corpo e Unhas, um local «quatro vezes maior do que tinha» onde consegue dispor de vários serviços.

Natural da Mendiga, assume ser muito «terra a terra» e defende que «não se pode pensar demasiadamente alto». «Estou a fazer as coisas aos poucos. Não estou a construir logo um hotel de cinco estrelas, começo numa estrela para depois chegar às cinco. Nunca quis dar um passo maior do que a perna», admite. A coragem e bravura que demonstrou ao abrir um negócio em plena pandemia, nem por isso camuflam o medo que Vânia Santos ainda diz sentir. «Pensei muito se isto daqui a uns tempos podia dar errado, mas tentei agarrar-me ao trabalho e às clientes que já tinha», desabafa.

Oitenta anos depois, mercearia no Alqueidão da Serra abre de “cara lavada”

Cinco dias depois de Vânia Santos ter aberto o seu espaço, foi a vez de Teresa Carvalho abrir as portas da mercearia Loja do Rosinha, no Alqueidão da Serra, 80 anos depois de o seu avô ter rodado a chave pela primeira vez. «O espaço e as paredes são exatamente os mesmos, mas com outra cara», garante a alqueidanense, de 49 anos. Há meio século que o espaço que funcionava como minimercado era da responsabilidade dos seus pais, mas há cerca de dois anos que tudo se começou a alterar, quando foi necessário «fazer a transposição para a nova legislação». Os pais que já tinham manifestado «alguma dificuldade» em adaptar-se às novas tecnologias, perguntaram-lhe se queria ficar com o minimercado e nessa altura, Teresa começou a informar-se sobre o que era necessário fazer. «Eu não tinha pressa nenhuma, ia fazer isto nas calmas. Queria que eles se libertassem disto aos poucos», admite.

Com a chegada da pandemia, os planos acabaram por ter que ser alterados. «Os meus pais pertencem ao grupo de risco e eu e a minha irmã ficámos muito preocupadas com eles, por isso, pedimos-lhe para fecharem o estabelecimento», recorda. Teresa Carvalho admite que apesar da reabertura do espaço ter sido sendo adiada, a escassez de lojas do género na freguesia levou a que exitisse alguma «pressão para abrir». A pandemia, garante, acabou por ser o empurrão que precisava para, efetivamente, começar a gerir a mercearia. «Acabámos as obras de remodelação dia 16 e abrimos dia 21 de dezembro. Foi uma tarefa difícil, montar um minimercado em dois dias é quase uma aventura», salienta, entre risos.

Um mês depois da abertura que decorreu em plena segunda fase da pandemia, Teresa Carvalho mostra-se otimista sobre a continuidade do projeto familiar. «Não tenho qualquer tipo de receio. O Alqueidão é uma terra relativamente grande e este tipo de negócio acaba sempre por fazer falta numa terra», destaca. A agora comerciante admite que, nesta fase inicial, gostava que os pais tivessem um «papel mais ativo» mas que prefere que estes se continuem a «resguardar» para que no futuro possam vir a dar o seu contributo.

Tendo o ambiente como uma das principais preocupações e com o objetivo de se deixar de utilizar sacos de plástico, a alqueidanense decidiu comprar tecidos «mais económicos», transformando-os em sacos de pano para oferecer aos clientes. «As pessoas não pagam, com o compromisso de os trazerem cada vez que vierem à loja. É quase como um empréstimo», explica. Apesar de reconhecer que este não é um projeto que lhe vá trazer «benefícios financeiros», a preocupação com o meio ambiente fala mais alto. «Não podemos mudar o mundo, mas podemos fazer qualquer coisa», atira. O estabelecimento está aberto de segunda a sábado com um horário feito a pensar nos clientes que queiram passar na loja à hora do almoço ou quando saem do trabalho.