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Pós-confinamento pode trazer consequências aos animais domésticos

31 Março 2021
Jéssica Moás de Sá

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Jéssica Moás de Sá

31 Mar, 2021

Muitos animais domésticos devem estar por esta altura a estranhar a presença, 24 sobre 24 horas, dos seus donos, motivada pelo confinamento. Não estavam habituados a uma presença tão prolongada, a terem tanta atenção diária, e em alguns casos, a ter tantos passeios por dia. Se agora, os animais de quatro patas, estão nas “sete quintas” por poderem estar com os seus donos a tempo inteiro, como vão reagir quando esses mesmos donos voltarem às suas rotinas fora de casa? As consequências podem ser complicadas e Valéria Pessegueiro, enfermeira veterinária do Centro de Recolha Oficinal de Animais de Companhia de Porto de Mós, explica algumas delas.

«O principal impacto é o desenvolvimento do chamado transtorno de ansiedade por separação», começa por explicar a enfermeira. «O tempo passado pelos tutores em casa» leva a que exista uma «mudança de rotina muito acentuada, que é uma das causas para o desenvolvimento do hiper apego», revela Valéria Pessegueiro. Mas o que é o hiper apego? «É a colocação do tutor no centro das atenções do animal. O tutor vai à cozinha, o animal vai atrás, é chamado o “cão sombra”, qualquer passo que o dono dê, o animal vai atrás». O animal «desenvolve uma dependência tão grande do tutor, que só é feliz ao lado dele, muitas vezes só come com o tutor, não sabe que a vida pode ter prazer sem ter a presença do tutor, passa a vida à procura da sua atenção». Os animais aprendem a ser felizes apenas quando o dono está presente, por isso, quando se ausenta, os sintomas que desenvolvem são variados.

Para poder fazer um diagnóstico de «ansiedade por separação» é importante conseguir perceber se os sintomas são tidos apenas quando o dono não está presente. «Como não estamos presentes quando isso acontece, é difícil de dizer, mas por norma, há queixa dos vizinhos, por vocalizações excessivas, o animal chora, ladra e uiva o tempo todo que o dono está ausente. Normalmente, quando o dono chega a casa, depara-se com uma de duas situações: comportamentos destrutivos, o sofá roído, garrafas roídas, a casa destruída e em casos mais extremos, a eliminação inapropriada, urinar e defecar descontroladamente pela casa, a frustração é tanta que não conseguem controlar», explica a enfermeira veterinária. Para conseguir fazer um diagnóstico de forma apropriada, por vezes os profissionais pedem «que o cão seja filmado quando o dono sai de casa para perceber como se comporta sozinho».

Há ainda outra consequência do confinamento dos donos: os animais estão a engordar. «Os donos ficam mais tempo em casa e por isso tendem a dar-lhes mais comida, mais petiscos», refere Valéria Pessegueiro. A enfermeira alerta que «depois é muito mais complicado fazer o emagrecimento destes animais».

Estratégias para combater estes problemas

Ainda antes do confinamento acabar, já os donos devem estar a adotar estratégias para prevenir estas complicações nos seus animais. «Para os animais que já exibam esse tipo de comportamentos de cão sombra, ou mesmo qualquer um, é importante começar a habituar o animal que ele tem de estar sozinho e que tem de ser independente», frisa a enfermeira. Uma das técnicas é, enquanto o dono está em casa, «colocar gradualmente o animal noutra divisão, começando a fazê-lo por pouco tempo, por exemplo dois minutos e ir aumentado esse tempo progressivamente». Mesmo quando o dono sai de casa para ir apenas ao supermercado é importante que demore cada vez mais tempo, para que o animal perceba que o dono «vai mas volta». Existem também «jogos cognitivos de comida e brinquedos para o animal se manter entretido quando os donos não estão» e assim não ficam focados «na sua ausência». Estes «brinquedos podem até ser improvisados em casa» e são muito importantes no momento em que o dono está a sair de casa, uma vez que se o animal não «perceber que o dono saiu já é uma grande ajuda».

E se a casa estiver destruída? Não repreenda

«No regresso a casa, se houver comportamentos destrutivos, ou eliminação inapropriada, não se deve castigar o animal», defende Valéria Pessegueiro, isto porque o animal «não sabe que fez mal». «Às vezes as pessoas dizem que o animal olha de uma forma como se soubesse o que fez, mas não, ele olha assim porque vê na nossa expressão facial que vamos ralhar», salienta. Os donos descontentes causam um sentimento «de frustração e ansiedade» aos animais. «Quanto mais esta bola de neve for aumentando, o dono ralha e o animal faz pior, mais vai destruir a relação que o tutor tem com o animal», tornando-se «num ciclo vicioso», frisa a profissional.

A enfermeira veterinária, que atualmente frequenta a pós-graduação de Treino em Animais de Companhia, salienta que estes erros dos donos são comuns porque «não estão instruídos suficientemente»: «Não têm culpa, há falta de informação». É importante que, assim que o dono detete estes sintomas no animal, o leve a um profissional especializado, para que possam ser feitos todos os testes possíveis e encontrar a melhor resposta para aquela situação. «Nestes casos extremos em que o dono chega a casa e está tudo destruído é importante para o animal ter um treinador», até porque, defende Valéria Pessegueiro, «não basta tratar os sintomas, é importante tratar da emoção por trás desses sintomas». «O importante é o treino, que o animal perceba que pode ficar sozinho e tudo correrá bem», conclui.

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