Os enormes prejuízos causados pelos javalis nas culturas e propriedades agrícolas e o perigo que começam a representar para a segurança das pessoas, juntou à mesma mesa, agricultores, autarcas, algumas das associações de caçadores do concelho e um representante do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC).

«A reunião até correu bastante bem. Não esteve presente o diretor do PNSAC mas o técnico responsável pela área da caça que tomou nota das propostas que lhe apresentámos, comprometendo-se a levá-las ao conhecimento do responsável», explica António Ferraria, da direção da União dos Agricultores do Distrito de Leiria (UADL) em declarações ao nosso jornal. Os agricultores lembraram o PNSAC de que «os javalis causam elevados prejuízos destruindo culturas de batatas, ervilhas, milhos e outras, bem como as pastagens de outros animais, deitando, ainda, abaixo os muros que dividem as propriedades para comerem caracóis».

Ora, tendo em conta que nos últimos anos se tem verificado um aumento substancial desta espécie propuseram que fosse estabelecido «um protocolo com as associações locais de caçadores no sentido de se realizarem montarias suficientes para diminuir consideravelmente o número destes animais de modo a que se possa cultivar, pois até aqui nenhuma entidade indemnizou qualquer agricultor lesado, pelas perdas sofridas».

Segundo António Ferraria, defenderam ainda que uma vez que está a haver um crescimento descontrolado desta espécie resultando daqui prejuízos para pessoas e bens deveria ser possível a sua caça durante todo o ano. Pediram, ainda, que na medida do possível seja autorizada «a abertura de pequenos caminhos entre o mato porque de outra forma os caçadores não conseguem passar e assim não caçam javali nenhum».

Também à conversa com O Portomosenses, o vice-presidente da Câmara de Porto de Mós, Eduardo Amaral, reforça as palavras de António Ferraria frisando que o que se pretende é que haja «a criação de um regime especial de caça para que possa haver um controlo da população de javalis» de forma a que, por um lado, se minimizem os prejuízos para a agricultura e que, por outro, se consigam evitar os acidentes cada vez mais frequentes com esta espécie. Portanto, a defesa de um regime especial «não é no sentido de extinguir mas de controlar o crescimento desenfreado do número destes animais, de modo a que haja uma coexistência normal com as populações, sem prejuízos avultados nem o sentimento de insegurança da parte destas».

De acordo com o autarca, a Câmara já por mais de uma vez alertou o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a entidade responsável pelo PNSAC, para este problema e espera agora que este seja sensível aos argumentos apresentados.

Por seu turno, a presidente da União de Freguesias de Alvados e Alcaria, Sandra Martins, destaca o facto de ser cada vez mais frequente o avistamento de javalis isolados ou em manada junto das povoações, inclusive, das próprias casas. «Já os tenho sentido a rondar junto da minha casa e um destes dias, às oito da noite, vi dois a atravessar a rua onde moro e que até já tem muito trânsito. Noutra noite, vinha de uma reunião e na zona do cemitério de Alcaria não me apercebi de um que vinha em corrida e que acabou por me bater no carro entre as duas portas», exemplifica dizendo que situações como estas são relatadas quase todos os dias por pessoas da sua freguesia.

«Felizmente, ainda não houve acidentes graves mas podem acontecer. Na estrada do Campo [que liga Alcaria a Alvados pela zona da lagoa], que não tem iluminação pública, já várias pessoas se depararam com javalis na estrada ou tiveram mesmo acidentes, portanto, é um perigo enorme», reforça. A autarca lembra, ainda, que «tanto ao nível das culturas como de acidentes automóveis causados por javalis não há qualquer seguro que pague esse prejuízo».

Sandra Martins diz nada ter a opor à atitude de preservação das espécies levada a cabo pelo PNSAC, no entanto, dado o elevado número de javalis existentes nesta área do Parque, o facto de «estarem cada vez mais próximos das povoações e de destruírem toda a flora e alguma fauna porque estão no topo da cadeia sem terem predadores», considera que faz todo o sentido haver abertura da parte do ICNF para a caça ao javali (na modalidade que se considerar a mais adequada) no PNSAC, fora dos períodos até agora permitidos.