A ANACOM esteve em Porto de Mós para fazer um «estudo detalhado da qualidade do serviço das comunicações móveis no concelho» e a conclusão a que chegou foi a de que «Porto de Mós precisa de uma melhoria significativa nas comunicações móveis». Para muitos, esta ilação não será novidade, porém há agora um documento que o comprova.

O estudo foi apresentado pelo presidente da entidade reguladora, João Cadete de Matos, em conferência de imprensa, depois de reunir com o executivo municipal, no passado dia 1 de julho. De acordo com o relatório, entregue aos jornalistas e que ficará disponível no site da ANACOM, «o trabalho de campo, no concelho de Porto de Mós, decorreu de 24 a 26 de junho de 2020. Realizaram-se 931 chamadas de voz, 6 057 sessões de dados e 532 924 medições de sinal rádio», num total de 623 quilómetros percorridos. Segundo João Cadete de Matos, o trabalho da equipa «consistiu em simular o que um utilizador comum faz», avaliando a cobertura das redes GSM, UMTS e LTE, respetivamente 2G, 3G e 4G. Na prática, as freguesias que apresentaram piores resultados foram a de São Bento (na sua totalidade) e parte das freguesias de Alqueidão da Serra, Mira de Aire, Juncal e União de Freguesias de Arrimal e Mendiga, em parâmetros como chamadas de voz, transferência de ficheiros ou navegação na internet.

E soluções?

O presidente da Câmara Municipal, Jorge Vala, durante a conferência de imprensa, começou por dizer que tem «a consciência que o regulador não vem resolver o problema», todavia considera que este «é uma parte importante para que o problema no concelho possa, nos próximos tempos, dar passos no sentido da sua resolução». Assim, João Cadete de Matos deixou algumas possíveis soluções que Jorge Vala deve apresentar às operadoras: «Há um ensinamento importante que cria uma autoridade maior para o senhor presidente [da Câmara] junto dos operadores, que é dizer que não se explica que algumas freguesias do concelho que não são de baixa densidade – porque no critério de baixa densidade populacional apenas São Bento se encaixa – tenham este problema. Estas freguesias que têm uma densidade populacional relevante e, além disso, têm atividade económica também relevante, devem ter uma resposta em termos de investimento e, portanto, tenho a expectativa, e a ANACOM fará chegar essa pretensão aos operadores, de ver esta situação corrigida», avança. Para a freguesia de São Bento, que não se encaixa nestes critérios, haverá um leilão de frequências 4G e 5G, em que São Bento será integrada, em que as operadoras terão contrapartidas para fazer esta instalação.

Outra das propostas deixadas pelo presidente da ANACOM prende-se com «a possibilidade de melhorar a cobertura através de várias opções, uma delas é continuar a promover a partilha e parcerias entre os operadores, que faça com que o investimento tenha um retorno mais rápido».

Este é um caminho que já está a ser percorrido em Portugal, nomeadamente com a partilha de infraestruturas, como «condutas, postes e torres», mas, para João Cadete de Matos, «também faz sentido que haja a partilha ao
nível do espectro e, por isso, criarem-se condições para que o roaming nacional, ou pelo menos o roaming nacional em zonas de baixa densidade seja possível».

Este foi um «desafio» que Jorge Vala aceitou, afirmando que irá «levar às operadoras»: «A possibilidade de se criar, para a zona do Parque Natural, um roaming próprio para que aqueles que nos vêm visitar, sendo clientes de qualquer uma das operadoras, tenham o acesso possível neste momento à rede que aquela ou outra operadora têm, neste território do Parque Natural».

O presidente da ANACOM salvaguarda, no entanto que «há zonas em que é preciso investir. No caso da rede móvel, criar novas antenas que cubram estas zonas, mas também aí, se o retorno for feito dando acesso aos clientes das outras redes, a rendibilidade desse investimento vai ser maior», apontou.

Jorge Vala explicou que estas opções permitirão «ganhar tempo» já que, no caso do último leilão, em que Porto de Mós não esteve incluído, o processo teve início em 2011, mas apenas em 2018 terá ficado totalmente concluído. «Estamos a falar de muito tempo para continuarmos a ter esta desigualdade», atira. Assim, o objetivo imediato do autarca é «apelar às operadoras para terem este sentido público, sobretudo em relação aos cerca de 100 alunos que, de forma alguma, conseguem ter acesso às aulas em sua casa». O presidente revelou que, no dia de ontem, 8 de julho, teria uma reunião com a Altice, porém até ao fecho desta edição não foi possível obter dados acerca das conclusões da mesma.
Jorge Vala disse ainda que está a procurar agendar reuniões com as restantes operadoras «no sentido de perceber qual é o plano de investimentos para o concelho».

Crianças da serra mandam cartas para Marcelo

Na última Assembleia Municipal (AM), foram várias as pessoas, entre público, deputados e presidentes de Junta, que trouxeram à discussão a falta de rede, nomeadamente de internet, na zona serrana do concelho. Os presidentes de Junta de Serro Ventoso e Arrimal e Mendiga e São Bento entregaram à presidente da AM, Clarisse Louro, cartas dos «fregueses pequeninos», para serem encaminhadas para o Presidente da República e onde as crianças falam da sua experiência de querer estudar mas não ter acesso à internet. Carlos Cordeiro, presidente da Junta de Serro Ventoso, ressalvou que «isto é um problema muito antigo», mas que «agora com a pandemia, está mais quente e pode ser que se resolva». Filipe Batista, presidente da Junta do Alqueidão da Serra partilha da opinião mas ressalva que «se não remarmos todos juntos desta vez, não vai valer a pena», considerando ser necessário colocar «partidos e cores de lado» para se chegar a “bom porto”.

O presidente da Junta de São Bento, Tiago Rei, deu conta de que havia enviado e-mails a diversas entidades, como bancadas parlamentares da Assembleia da República, Presidente da República, primeiro-ministro, entre outros e que todas as respostas que recebeu encaminhavam o assunto para outro ministério ou gabinete. Apenas o deputado do Bloco de Esquerda, eleito por Leiria, Ricardo Vicente, veio à freguesia conhecer e discutir a realidade, disse o autarca.