«Foi uma experiência surreal, para a vida mesmo, um misto de emoções que já não sentia há muito tempo. É um mundo novo para mim, o que associado à minha patologia acaba por ter outro impacto. Como não sinto o meu corpo, as sensações são diferentes», é desta forma que André Venda, de 34 anos, natural da Bezerra (Porto de Mós), descreve a sua participação no mítico 24 horas TT da Vila de Fronteira, na qual fez história ao integrar a primeira equipa inclusiva que alguma vez esteve presente na competição. A 23.ª edição da prova de todo-o-terreno decorreu, na vila alentejana de Fronteira (Portalegre), de 25 a 28 de novembro e contou com a presença de mais de 300 pilotos, de nove nacionalidades, em representação de mais de uma centena de equipas.

A equipa era composta por seis elementos, dois dos quais com algum tipo de patologia: André Venda, paraplégico desde os 19 anos devido a um acidente de viação, foi navegador e Telmo Pinão, amputado de um dos membros inferiores, um dos pilotos, a par com Milton Dias, Nuno Neto, Ludgero Santos e Ivo Monteiro. O carro, um Buggy Astra GTC, não sofreu nenhuma alteração, tendo sido apenas necessário criar algumas adaptações. «O Telmo teve que ter uma prótese maior para chegar à embraiagem e eu tive que prender as pernas e colocar uns velcros para os meus pés ficarem fixos ao carro», explica.

Ao longo das 24 horas da prova, André Venda assumiu a tarefa de navegador, algo que nunca tinha feito antes, e que, brinca, o obrigou a assumir a veia de Speedy Gonzalez. A sua função passava por ir tirando notas, nomeadamente sobre o grau de cada curva, memorizar os locais mais problemáticos a nível de desgaste de pista e estar atento aos elementos com as bandeirolas que informavam, por exemplo, sobre se a pista estava livre. «É uma responsabilidade grande, o carro custa 160 mil euros. Se dizes que é esquerda seis e na verdade é direita três estás sujeito a mandar o carro para fora da pista e a culpa acaba por ser tua», destaca.

Angariar fundos para “handbike” conseguido em tempo recorde

Um dos objetivos da equipa com esta participação era conseguir angariar fundos para a compra de uma handbike (bicicleta onde se pedala com as mãos, adequada a pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida) para doar à APCA (Associação Portuguesa de Ciclismo Adaptado) e cujo o valor ultrapassa os cinco mil euros. Objetivo esse que foi conseguido ainda antes de começarem a prova. «Este tipo de eventos é muito dispendioso, só as inscrições são seis mil euros, e acabámos por chegar à conclusão que todo o dinheiro que estávamos a tentar juntar para a handbike seria canalizado para isso», explica. Decidiram, então, mudar de estratégia. Participaram na promoção do evento, nomeadamente em contactos com a comunicação social, e, em troca, o ACP – Automóvel Club de Portugal, a entidade organizadora da prova, pagou todos os gastos que teriam. «Não gastámos dinheiro nenhum e todo o valor das empresas que nos patrocinaram foi canalizado para a compra da bicicleta», esclarece.

Evento atualizou-se e tornou-se acessível

Ainda antes de dizer se aceitava ou não entrar no projeto, André Venda quis saber, em pormenor, como era o projeto e as condições que oferecia em termos de acessibilidades, e só depois daria a resposta final. «Eu já sabia que era um mundo meio atribulado, de terra, e também sabia que ia andar no colo de alguém mas só queria perceber a abertura do ACP para me ajudar, nesse sentido, porque quanto menos vezes tivesse que andar ao colo de alguém, melhor», considera. Após uma reunião com o ACP, da qual receberam logo «uma grande abertura», para atualizar o evento «ao máximo», o resultado não poderia ter sido melhor: «Conseguimos colocar casas de banho adaptadas em todo o lado, um corredor de fácil acesso para nos movimentarmos da melhor forma e no paddock foi criada uma zona em alcatrão para andarmos melhor com a cadeira de rodas», descreve André Venda, acrescentando que outra das conquistas foi uma casa adaptada para descanso.

Após a sua participação, André Venda revela que recebeu muitas mensagens de pessoas que têm algum tipo de patologia, que adoram este tipo de desporto e que lhe confessaram a vontade de também participar. «Quero acreditar que no próximo ano já se possa criar uma equipa só com pessoas com algum tipo de patologia, uma categoria e classificá-la como tal. Pessoas temos e vontade por parte da organização, também. Isto tem tudo para continuar», sublinha.

JOÃO FONSECA| foto