Os projetos de jornalismo independente Divergente e Fumaça, dos quais fazem parte os portomosenses Diogo Cardoso e Pedro Santos, respetivamente, foram galardoados este ano com prémios de relevância nacional e internacional. O Divergente foi distinguida com o Prémio Internacional de Jornalismo Rei de Espanha, na categoria de Jornalismo Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, com o documentário Terra de Todos, Terra de Alguns, da autoria de Diogo Cardoso, natural do Juncal, bem como de Sofia da Palma Rodrigues e Boaventura Monjane. Já o Fumaça, com o diretor Pedro Santos, natural da Corredoura, foi considerado o Melhor Podcast de Informação e Educação, e o Melhor Podcast de Entrevista, pelo Podes – Festival de Podcast 2020, organizado pelo jornal Público e pela plataforma Portcasts.
Terra de Todos, Terra de Alguns do Divergente é um trabalho de investigação que explora a temática da agricultura intensiva em Moçambique e as suas consequências, tendo como protagonistas os camponeses expropriados, com destaque para o papel das mulheres. Diogo Cardoso, diretor do Divergente e um dos «principais impulsionadores da reportagem», em declarações a O Portomosense, lança o repto para refletir sobre a temática: «Como e porque é que a comida que comemos todos os dias, que sobretudo os europeus consomem, chega até nós a esse preço, e a que preço é que isso é feito para as pessoas locais que acabam por ser desapropriadas das suas terras pelas grandes empresas com a conivência de muita estrutura política em Moçambique». O prémio foi recebido das mãos do Rei de Espanha, Felipe VI, numa cerimónia realizada a 23 de março na capital Madrid. O juncalense refere-se aos prémios como uma «alavanca», sobretudo quando atribuídos a projetos mais pequenos, uma vez que se tornam expostos a mais gente. «O nosso objetivo é que o trabalho chegue o mais longe possível, que o máximo de pessoas o vejam e leiam e tomem consciência da temática», salienta Diogo Cardoso.

Paralelamente, o Fumaça, que venceu os prémios já referidos, estava ainda nomeado para Melhor Podcast de Storytelling e Melhor Podcast de Política e Questões Sociais. Pedro Santos aponta estas conquistas como um «reconhecimento e um estímulo para continuar a trabalhar e a apostar naquilo que é um jornalismo que é preciso ser feito com tempo, espaço e investigação e que contraria as lógicas sensacionalistas». Este projeto de áudio está ainda este ano nomeado para o Prémio de Jornalismo, Direitos Humanos e Integração da Comissão Nacional da UNESCO, na categoria de Rádio, pela série Aquilo é a Europa, e ainda pela série A Serpente, o Leão e o Caçador, nomeada para melhor Narrativa Sonora Digital dos Prémios de Ciberjornalismo 2020, para os prémios do júri e do público. Pedro Santos aponta que «todos os prémios são muito bem-vindos», uma vez que mostram que «os integrantes do júri reconhecem o rigor, a transparência, a profundidade e a seriedade do trabalho que é feito», além do «esforço e investimento colocados nos trabalhos que se pretende apresentar».

Projetos ganham também bolsa de apoio ao jornalismo

As boas notícias não se ficaram pelos prémios já referidos, sendo que ambos os projetos receberam apoio para continuar a sua atividade, através de uma bolsa de apoio financeiro, para garantir o prolongamento do futuro das plataformas online. O Divergente foi um dos selecionados pela Civitates, no âmbito da iniciativa da Network of European Foundations, para receber um total de 150 mil euros, que promove o jornalismo independente e de interesse público. Já o Fumaça, ganhou uma bolsa de apoio de 84 mil euros, concedida pela Open Society Fundation. O investimento vai servir para que, à semelhança do Divergente, o Fumaça seja sustentável e «completamente financiado pelos leitores e ouvintes nos próximos dois anos», espera Pedro Santos.

À semelhança de Pedro Santos, também Diogo Cardoso se refere aos prémios como uma lufada de ar fresco: «A retribuição financeira do prémio, mais do que uma ajuda, é uma bolha de ar que nos ajuda a continuar. Provavelmente as pessoas não têm noção, mas este tipo de projetos de jornalismo independente, muitos deles, são feitos por pessoas que investem o seu tempo e o seu dinheiro para os poderem executar». Diogo Cardoso refere estes projetos «acabam por ocupar o espaço aberto pela falta de investimento no jornalismo» e Pedro Santos lembra também que permitem «ouvir pessoas diferentes, que habitualmente não são ouvidas».