Quem imaginaria possível que um dia viessem a encerrar todas as igrejas, capelas e outros locais de culto da Igreja Católica, ou que, pela primeira vez as cerimónias do 13 de Maio, em Fátima, não se realizassem com a presença física de fiéis? A bem da saúde pública essa é a realidade do tempo presente e, por isso, a “ordem” é adaptar, criar, ser imaginativo. Os templos estão fechados, é um facto mas isso não tem impedido os padres de exercerem o múnus sacerdotal mas agora adaptado à nova realidade como contaram ao nosso jornal os responsáveis pelas diversas paróquias do concelho.

Em Porto de Mós, o padre José Alves recorre com frequência à tecnologia como ferramenta de apoio à sua missão e agora com as igrejas fechadas, cedo entendeu ser também por aí o caminho. Mas se alguém esperava que fosse desencantar uma qualquer solução menos conhecida, enganou-se. O pároco que trouxe o karaoke para as missas, está a transmitir através do Facebook, a rede social mais conhecida e utilizada em Portugal. «O Facebook é fácil e eficaz.
Como não tenho equipamento não vale a pena termos pretensões por coisas melhores e mais sofisticadas», justifica numa certeza que a realidade parece confirmar: a transmissão tem boa qualidade e há sempre mais de uma centena de pessoas a assistir em directo, acreditando o sacerdote que mais do que assistir, estejam a participar.

As missas diárias às 19 horas e as dominicais às 11h30 e as informações partilhadas na sua página pessoal têm sido o principal elemento de ligação entre pároco e paroquianos, adianta. Pelo meio, tem ocupado parte dos seus dias em trabalhos na Igreja de São Pedro, «coisas que eram para ser feitas há muito mas que até agora não tinha havido tempo ou oportunidade para as fazer» e também em tarefas administrativas.

Já o padre Luís Ferreira conta que tem tentado «manter uma relação de proximidade» com as pessoas das paróquias de Mira de Aire, Alvados e São Bento. Além da missa dominical transmitida em direto na sua página de Facebook tem tido «contactos telefónicos com algumas pessoas mais sós e doentes» e em conjunto com as catequistas procurado manter alguma relação com as famílias propondo várias atividades online». Pelas mesmas vias tem recebido o testemunho de muitos «que se recordam e rezam pelos que – com todos as dificuldades associadas – continuam a trabalhar, especialmente na área da saúde, no abastecimentos dos bens primários, no cuidado com os espaços públicos, na organização e atenção à segurança, nos vários âmbitos da sociedade».

Facebook, Whatsapp, Hangouts, Messenger… é só escolher

No extremo oposto do concelho, na paróquia da Calvaria de Cima, o padre José Pedrosa tem utilizado também as redes sociais nas suas celebrações mas optado por uma filosofia um pouco diferente. A sua preocupação tem sido que quem participa, o faça de forma ativa e por isso «havendo já uma oferta diversificada na rádio, televisão e Facebook», optou pela rede social Whatsapp mas também pelo Hangouts e o Messenger, o que lhe permite «estar em contacto directo com uma ou duas famílias em simultâneo».

«Aos domingos tenho celebrado através de outro sistema que permite uma presença maior de pessoas mas é um bocadinho mais confuso porque sempre que alguém intervém toda a rede ouve. A minha opção foi clara desde o primeiro momento: não iria fazer celebrações para o Facebook mas poderia celebrar com as pessoas quando quisessem, bastava contactarem-me e escolhíamos o canal.

«Tem sido uma experiência interessante. Há uma relação mais próxima e mais interventiva porque quem está em casa faz as leituras e responde à missa da forma habitual. Nos funerais costumo fazer uma cerimónia muito simples no cemitério e depois combino com a família para poder celebrar à noite com eles. O Whatsapp só permite três aparelhos em simultâneo, portanto são sempre grupos pequenos mas é interessante pela proximidade que se cria», considera.

Nas paróquias de Serro Ventoso, Mendiga e Arrimal, o padre Leonel Baptista não está a fazer qualquer celebração pública optando por usar as redes sociais para manter os paroquianos informados sobre os horários das missas na rádio, na televisão e daquelas que estão disponíveis na internet. É também por ali que divulga informações e material de apoio emanados da Diocese e de outros organismos, sem descurar, igualmente, o apoio à catequese, agora à distância.

O sacerdote diz estar «de piquete» para tudo aquilo que os seus paroquianos lhe peçam e que possa ser levado a cabo sem infringir as regras e isso pode passar por algo tão simples como uma conversa telefónica.
No Alqueidão da Serra, o padre Vítor Mira, celebra todos os dias missa «com a presença de duas pessoas, para não estar completamente sozinho», mas os três ficam distantes entre si e mantêm todos os cuidados que são recomendados, garante. O também pároco de Alcaria explica que já tinha alguma presença nas redes sociais mas que agora, por força das circunstâncias, foi incrementada com a criação de um grupo no Whatsapp e outro no Facebook. «Todos dias mando o Evangelho e depois gravo, sobretudo pelo Whatsapp. Não tenho feito transmissões da missa porque na igreja a rede de internet é muito fraca e como há tanta oferta e alguma dela com bastante qualidade achei que não valeria a pena, até porque as pessoas [destas paróquias] que, se calhar, mais gostariam de acompanhar são aquelas que ou não têm os meios para o fazer, ou não os dominam», adianta.
Nesta altura tem recebido um ou outro telefonema, quase sempre de pessoas idosas e da sua parte tem também havido a preocupação de contactar os idosos que, estivessemos num tempo normal estariam por esta altura a receber a sua visita.
Nas paróquias do Juncal e Pedreiras, o Facebook tem sido utilizado pelo padre António Cardoso «para fazer chegar subsídios e propostas para oração, esquemas de leitura orante, nomeadamente as leituras do domingo como complemento à participação da Eucaristia através das redes sociais, assim como todo o tipo de informações» e, de acordo com o sacerdote, «tem sido notória a adesão das pessoas às iniciativas que lhes são propostas através destes meios».

Se antes, algumas pessoas o procuravam para ajuda espiritual ou, simplesmente desabafar, agora isso é raro acontecer mas em contrapartida são inúmeras «as chamadas de pessoas preocupadas e a querer saber como está o seu pároco neste momento tão delicado para todos». Por sua vez, António Cardoso tem tentado também ir ao encontro, via telefone, daqueles que vivem sós nas suas casas e assim, sublinha [recorrendo a diversos instrumentos de comunicação] vamos fazendo que este tempo difícil seja vivido como tempo de encontro com Deus e comunhão com os irmãos”, ideia, aliás, partilhada por cada um dos padres com quem falámos.